A Grécia está se despedindo da Zona do Euro

O governo grego convocou um plebiscito popular para o final de semana que vem para confirmar, ou não, a recusa ao "acordo" proposto pela "Troika". O "acordo" veio entre aspas pelo fato de que era, de fato, um conjunto de novas imposições que mantinham, grosso modo, a forte austeridade que elevou o desemprego a 25% da população e fez a renda cair em  21%. Com mercados em queda, é hora de refletir sobre as consequências da quase certa saída da Grécia da Zona do Euro.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Alexis Tsipras,  primeiro ministro grego, eleito em  janeiro com um mandato popular para a revisão do acordo efetuado pelo país há cinco anos com as autoridades europeias, chamou um referendo popular para dia 5, domingo. Nesse referendo os gregos dirão se aceitam o “acordo” proposto pela Troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e FMI), ou se o recusam. Tsipras alega que a Troika esticou demais a corda das negociações e continua impondo condições inaceitáveis para o povo grego. O primeiro ministro alega que sua frente eleitoral, o Syrisa, chegou ao poder com a missão clara de recolocar o país na rota do crescimento, forçando uma renegociação dos termos do pacote de socorro que tem como base a forte austeridade que já fez o desemprego subir para 25% da população e a renda cair 22%.

As bolsas reagiram como esperado:

 

As premissas da Troika eram as de que a austeridade, forte corte dos gastos e elevação dos impostos, recolocaria os países afetados pela crise da dívida de 2011 no caminho correto. Ao aumentar as receitas dos estados, a Troika garantia o pagamento das dívidas de cada país (Portugal, Grécia, Irlanda, Itália e Espanha), isso aumentaria a confiança dos mercados o que, por sua vez, faria com que os juros cobrados a empresas e tesouros desses países fossem reduzidos. Com a queda dos juros os países teriam um forte estímulo aos investimentos e isso, por sua vez, faria com que as economias crescessem. Essa abordagem ganhou o título de “fadinha da credibilidade” da parte de Paul Krugman e entusiasmou apenas aos banqueiros que se salvaram do calote que iriam receber antes dos pacotes de resgate. Nenhum desses países viu dinheiro algum e, pelo contrário, acabaram por comprometer boa parte de seu crescimento futuro com os pagamentos à Troika. Tal como em todas as crises dos anos 1980, 1990 e 2000, que atingiram os países em desenvolvimento, a única preocupação das agências e instituições dos países avançados foi a de garantir que seus sistemas bancários não fossem ao colapso. Emprestou-se dinheiro aos países apenas para que ele fosse usado no pagamento aos bancos. Após isso os países afundaram em crises enormes e seus PIB´s derreteram. A estratégia do FMI, do Banco Mundial e do Clube de Paris resolveu apenas os problemas dos bancos credores e manteve os países afundados na crise. Foram décadas perdidas.

A estratégia que a Troika repetiu, mostrou-se completamente errada: os países que seguiram suas orientações estão em colapso econômico, ainda que apresentem modestas melhoras no que diz respeito a um indicador ou outro. Mas em todos a renda caiu, o desemprego explodiu e a dívida aumentou. A “fadinha da credibilidade” é mais um dos mitos econômicos que  são categoricamente desmentidos pela realidade. Aliás, o combate à depressão por meio da austeridade foi o que levou o mundo à Grande Depressão dos anos 1930 e foi a recusa a ela que evitou um novo afundamento na Grande Recessão de 2009. A grande diferença, é que a grande preocupação da Troika nos planos de resgate de 2010 não era “salvar” os países em crise, mas sim salvar a pele dos principais bancos europeus.

 

Se não houver uma reviravolta, com a melhora das condições oferecidas aos gregos, o país deve sair da Zona do Euro após a votação de domingo. Tal como pontuei em “post” anterior (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/06/a-grecia-e-o-novo-lehman-brothers.html ), a saída da Grécia da Z.E. pode lançar mais riscos sobre a região e detonar um processo desgovernado de crise de dívidas, tal como em 2010.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com