Banco Central assume que inflação será maior que 9% em 2015

Com o IPCA em 5,34% até maio, centrado nas consequências da seca e da desvalorização cambial, o Banco Central divulgou o Relatório de Inflação, assumindo um aumento de preços superior a 9% nesse ano. Com os juros Selic subindo a mais de 14% e com a economia desabando mais de 2%, a política monetária não terá efeitos positivos sobre o nível de preços mas colocará a questão fiscal em situação alarmante.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O Banco Central divulgou o seu Relatório Trimestral de Inflação, resultado das pesquisas realizadas pela instituição ao longo os últimos três meses. O RTI tem por função mostrar, de formar elaborada, a visão da autoridade monetária a respeito das principais variáveis macroeconômicas. Ele surgiu com o Sistema de Metas de Inflação e é habitual em todos os países onde o sistema é adotado. Nas suas cento e tantas páginas, os técnicos do Banco Central detalham a percepção que têm a respeito do comportamento passado e futuro da inflação e nelas os operadores do mercado tentam encontrar pistas para os próximos passos da política monetária. De março (penúltimo RTI) para cá, as previsões da autoridade monetária pioraram: hoje o BC estima um crescimento de -1,1% nesse ano ante os -0,5% anteriores e uma inflação de 9,0%, ante 7,1%. Uma piora considerável, mas que ainda é parcial, ao menos para o crescimento. Mantenho minhas estimativas para uma queda do PIB de 2,2% e de IPCA em 9,40%.

A grande questão, que ainda consome a energia de muitos analistas de mercado e da macromedia, é a inflação. O IPCA acumulou 5,34% no ano e 8,47% nos doze meses terminados em maio. Do total desse índice, como já mostrei no Blog (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/06/ipca-surpreende-e-mercado-corre-atras.html ), 72% correspondem aos alimentos, energia, combustíveis e aluguéis, veja o gráfico:

 

Por se tratar de um documento técnico,  o relatório não traz menção direta a esses ítens. Ao contrário, explora conceitos genéricos como o realinhamento de preços administrados, resiliência, inércia inflacionária e toda uma série de conceitos, para tentar acomodar as expectativas dos agentes para o fato da inflação estar muito acima do teto da meta estabelecida para o Banco Central. O máximo tolerado para o IPCA é 6,5% e ele deve fechar o ano em mais de 9%. O ruído causado por esse desvio é multiplicado pelo ambiente político que tem comprometido a racionalidade de qualquer discussão econômica. De concreto, é de se esperar que o BC suba mais 0,75% as taxas de juros, até os 14,5%, como forma de sinalizar que está comprometido com o centro da meta de inflação de 4,5%.

Não obstante, duas coisas são inevitáveis nessa discussão:

1 ) 76% da inflação resulta da super-seca que atinge o Brasil e, dentre outras coisas, secou o maior reservatório de água para consumo do país, o Sistema Cantareira. Boa parte das geradoras de energia hidroelétrica está sem água em seus reservatórios e acabam adquirindo energia das usinas termoelétricas, a um custo muito maior. Os preços dos alimentos estão explodindo por conta das restrições climáticas. Para complementar o quadro, o país passou por um processo de forte desvalorização cambial, com reflexos intensos nos preços de alimentos e matérias primas.

 

Sistema Cantareira na região de Nazaré Paulista - SP

2) Elevar as taxas de juros não traz resultados sobre a inflação na proporção dos estragos causados na atividade econômica(aumentos de juros retraem a oferta de crédito e derrubam renda e emprego ) e no déficit público (toda a histeria sobre o ajuste fiscal não chega perto do rombo causado pelos juros extra elevados).

O Banco Central, apesar de toda a competência técnica mostrada em sua exposição, apenas comprova que estamos diante de uma “armadilha” quase sem volta: a elevação dos juros demandada pelo mercado piora a renda e o emprego, além de tornar o país ainda mais vulnerável do ponto de vista fiscal.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com