A economia brasileira entrou em uma depressão

Três grandes indicadores foram divulgados hoje e eles indicam que a recessão brasileira (quedas seguidas do PIB trimestral) se transformou em uma depressão. Queda da atividade econômica, destruição de vagas formais de trabalho e um enorme choque de oferta estão espremendo a economia brasileira que fica ainda mais contraída com a introdução de um ajuste fiscal.Essa combinação explosiva repete as mais sérias crises econômicas que tivemos no passado e não há sinal de melhora no horizonte.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A manhã de hoje foi de tempestade para os indicadores econômicos. Todos eles vieram mostrando que a economia nacional está definhando, com queda do nível de atividades, queda dos empregos e elevação do nível de preços. Ainda que boa parte desses dados tenha “surpreendido” o mercado, vindo piores do que o esperado, eles confirmam a tendência que tenho proposto desde o início do ano: a inflação ficará elevada, o desemprego subirá com força e o PIB terá a sua maior queda anual da história. Agora é perda de tempo tentar reconsiderar as causas desse processo, sendo muito mais produtivo entender a dinâmica futura dessa queda livre.

O dado mais importante, por ser mais recente e muito contundente, é o do total de vagas formais de trabalho destruídas em maio: foram 115 mil empregos destruídos em diversas áreas, poupada apenas a agricultura. Veja a tabela:

 

 

A destruição de vagas formais começou efetivamente no ano passado, mas a velocidade de criação de empregos formais passou a cair desde 2009. No ano, 274 mil vagas formais foram destruídas e você pode ver a tendência do mercado de trabalho no gráfico abaixo:

 

A linha azul é a dos dados informados pelo Ministério do Trabalho e do Emprego, ao passo que a vermelha é tratada por mim, para retirar os efeitos sazonais da série. Note que a queda na criação de vagas é consistente e vem se desenvolvendo desde 2009, com alguma flutuação (na linha vermelha), mas sempre para baixo. A tendência piorou recentemente, com uma série contínua de meses de destruição de vagas. Uma coisa é criar poucas vagas formais, outra, muito pior, é ver vagas sendo destruídas em quantidade considerável. Essa queda se soma a outros indicadores, muito importantes, que demonstram que o cenário atual de forte recessão caminha para uma DEPRESSÃO.

Outro dado que assombra a sociedade é a queda do nível de atividade no primeiro mês do segundo trimestre, segundo anunciado pelo Banco Central, por meio de seu IBC-Br. Esse indicador é uma estatística produzida pelos técnicos da autoridade monetária para tentar antecipar o PIB trimestral, calculado pelo IBGE. O indicador veio com uma queda de 0,84% em abril com relação a março e de 3,13% em relação a abril do ano passado. Veja o gráfico abaixo:

 

A queda do indicador já vem ocorrendo desde  janeiro do ano passado, mas tomou uma velocidade maior a partir de abril. Lembre-se que em 2014 tivemos um crescimento de zero por cento no PIB nacional. Agora a probabilidade de ocorrência de uma contração superior a 2% nesse ano aumentou.

A atual queda livre da economia nacional tem um comportamento um pouco diferente das inumeráveis crises vividas pelo país no passado mas sabemos, pela história, onde podemos parar. A queda da atividade, tal como está colocada nesse momento, piora os indicadores de endividamento do setor público  (e do setor privado) o que reduz o estado de confiança no país. Isso derruba ainda mais os investimentos das empresas e as decisões de gastos das famílias. A economia cai e leva consigo a demanda da indústria e dos serviços, que recuam ainda mais em seus investimentos. A arrecadação do governo, em todas as suas esferas, cai, aumentando o déficit público, o que provoca o corte de gastos e aumento de impostos, o que, por sua vez, reduz a renda disponível na sociedade e isso produz uma nova queda do PIB. E com a queda da arrecadação e aumento do déficit público, piora a relação entre a dívida pública e o PIB e isso faz com que os juros sobre a dívida aumentem o que, por sua vez, piora ainda mais a relação dívida PIB. Nesse ciclo de queda livre, é possível que as agências de risco rebaixem a nota de “rating” do Brasil o que, mais uma, eleva as taxas de juros, reduz o crescimento, eleva o endividamento   e tudo recomeça. É uma queda que se retroalimenta, produzindo quedas após quedas.  A forma tradicional de deter a queda contínua de economias em depressão é por meio da ação do Estado e de seus gastos. Ocorre, no entanto, que aqui no Brasil fomos empurrados, uma vez mais, a produzir um ajuste fiscal em plena recessão. Quando se produz um ajuste fiscal (corte de gastos e aumento de impostos) em meio a uma recessão, o resultado é uma depressão.

Ainda que os agentes do mercado acreditem que medidas recessivas produzam crescimento, todas as evidências apontam para o oposto1. Então o ajuste fiscal em curso, que vem mobilizando o governo e a oposição, não melhorará a situação da economia, nem no semestre que vem, nem no ano de 2016. Ele transformará as quedas do PIB em queda do emprego, da renda e uma piora substancial nas condições do país. Mas não é aqui que paramos: a inflação está subindo com força e isso faz com que os juros aumentem o que, por sua vez, produz mias impulsos negativos para a depressão. O IBGE divulgou o IPCA-15 e ele vem confirmando o que tenho postado: a inflação está subindo de forma concentrada, em alimentos e energia elétrica, que concentram cerca de 70% da inflação no ano. Essa alta se deve ao dólar e às condições climáticas e essa situação não será contida nem pela enorme recessão (que reduz a demanda e a pressão sobre os preços) nem pela explosiva alta dos juros (que pode levar a Selic a 14,% no final do ano).

É importante ressaltar que toda a discussão, permeada por considerações de ordem política, que está sendo feita acerca da conjuntura pode ser descartada efeitos práticos. Olhando para o ano de 2015, o que posso afirmar é o que o cenário esboçado no início do ano (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/01/estimativa-para-o-ipca-acima-de-7-e-do.html ) vai se deteriorando e que o processo de queda livre da economia brasileira não tem um fim programado. As projeções mais pessimistas do início do ano eu já revisei: o IPCA está projetado em 9,57%; a queda mínima do PIB para 2,2% e a taxa Selic para 14,5%.

 

 

(1) Nessa semana uma agência internacional “noticiou” que técnicos do Banco Central Europeu haviam “provado” que a austeridade produz crescimento. A matéria foi distribuída aos meios de comunicação nacionais que rapidamente o reproduziram sob manchetes como “Economistas do BCE avaliam em estudo que austeridade funciona”. Ocorre que o “novo estudo” foi publicado em abril do ano passado na revista mensal do BCE. Sob o título “Fiscal Multipliers and the timing of consolidation”, os autores sugerem que países que estão sob forte recessão e emparedados pelos mercados, sem nenhuma possibilidade de promover estímulos fiscais, devem fazer seu ajuste fiscal de uma vez. Eles terão, apenas por meio da suposição dos autores, custos menores do que países que retardam seus ajustes fiscais. Vale lembrar que os técnicos do BCE projetavam em 2010 um PIB da Zona do Euro de cerca de 9,5 trilhões de euros. Essas projeções levavam em conta  uma “CONSOLIDAÇÃO FISCAL” nos moldes sugeridos pelos autores do texto. Hoje o PIB da zona do euro é de cerca de 8,5 trilhões de euros, coisa de 11% a menos do que se projetava. Essa evidência mostra que ainda que o trabalho do BCE seja muito interessante, do ponto de vista da avaliação teórica dos multiplicadores fiscais, ele não nos leva a concluir, de forma alguma, que a austeridade funciona.

O que me pergunto: porque a agência internacional comenta um artigo produzido há um ano como se fosse novíssimo? Porque os meios locais reproduziram essa notícia tão rapidamente sem procurar o artigo original e perceber que ele foi publicado há um ano? Porque chegam à falsa conclusão “a austeridade funciona”             quando o objetivo do artigo é mostrar: “o custo da austeridade é relativamente menor se ela for feita de uma vez”?

Esse comportamento da “mídia especializada”, a macromedia, é bem analisado no artigo do economista inglês Simon Wren-Lewis  ( http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/03/a-austeridade-muito-bem-explicada.html )

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com