Varejo cai 0,4% em abril e sinaliza PIB negativo no segundo trimestre

O varejo brasileiro caiu 0,4% em abril e sinaliza mais um trimestre de queda do PIB. Ao atingir o consumo, que representa mais de 60% do PIB nacional, a crise econômica se firma e deve continuar ao longo do ano. A expectativa do mercado é de que amanhã o Banco Central anuncie uma queda de seu IBC-Br de abril de 0,4%. Como ele é uma boa estimativa do PIB, confirma-se a tese de que teremos mais três meses de contabilidade negativa na renda nacional.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

As vendas do varejo tiveram um novo recuo em abril, de 0,4%, em relação a março. No ano, as vendas acumulam perdas de 1,5%, desconsiderando as vendas de automóveis e de materiais de construção. Se somadas, a queda do comércio já está em 6,1% e deve continuar caindo. A boa nova é que as vendas de supermercados se recuperaram depois de cair por dois meses. No ano, elas ainda estão em queda de 1,6% e isso é, de fato, preocupante. As vendas de supermercados e alimentos são as essenciais para a população e sua queda reflete o grau de aperto que as famílias estão passando. Com as quedas do emprego e da renda, somadas à inflação, as famílias brasileiras estão devolvendo uma parte dos ganhos obtidos em anos anteriores. Veja a tabela do IBGE com a discriminação dos itens das vendas de abril:

 

 

Retomo o tema que tenho repetido: as condições gerais da economia estão piorando e o processo de “ajuste fiscal” não deve melhorar a situação, mas piora-la. A grande aposta do governo - e de boa parte dos analistas de mercado - é que um ajuste nas contas do setor público pode produzir, no futuro, um caminho livre para o crescimento. Mas até que esse futuro ocorra – e não sabemos “se” e “quando” ele ocorrerá1 – os custos do ajustamento serão insuportavelmente elevados. E eles ficam bem expressos em dados econômicos reais como os dessa Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE. Veja  o comportamento das vendas do varejo ao longo dos anos:

 

 

Após a expansão, o consumo das famílias perdeu ímpeto e, agora, começa a cair. Como ele responde por mais de 60%  do PIB, o primeiro mês do segundo trimestre vai indicando que o PIB cairá de novo.

Amanhã o Banco Central divulgará seu IBC-Br, indicador de atividade que tenta antecipar o PIB trimestral aferido pelo IBGE. Além das diferenças em relação à sua amostra (o levantamento do IBGE é mais amplo), o indicador do BC é mensal. A expectativa média do mercado, segundo a Bloomberg,  de que a economia “encolheu” 0,4% em abril.

Com a confirmação constante de que a economia está se deteriorando e com o balanço dos resultados das empresas do primeiro trimestre bem negativo, podemos concluir que está ocorrendo um “descolamento” entre as expectativas do mercado e os fundamentos da economia. Com lucros em queda no primeiro trimestre e com uma provável repetição desse evento no segundo, os preços das ações deveriam estar se ajustando para baixo. Como eles não estão fazendo esse ajuste, os indicadores do mercado estão ficando mais “esticados”. De duas uma: ou o mercado está apostando, corretamente,  que a situação atual é passageira e logo os lucros voltarão aos balanços ou, o mercado está subestimando a crise e deixando os preços elevados demais.

É provável que aqui no Brasil os agentes se vejam impedidos a entrar em um movimento de baixa já que as bolsas globais estão supervitaminadas pelo excesso de liquidez e pelos juros zero. Mas os fundamentos não convergem para esse otimismo.

 

(1)    Vale ressaltar que não compartilho das teses que propõem a existência de políticas contracionistas que levam à expansão do PIB. As evidências vão todas no sentido oposto e os exemplos abundam: os anos 1980, 1990 e 2000 para a América Latina, Sudeste Asiático e Rússia e a atual crise na Zona do Euro.  A defesa teórica das políticas de austeridade com instrumentos de estabilização têm cada vez menos, exceto no Brasil, é claro. Alguns dias atrás algumas agências de notícias do Brasil divulgaram que o Banco Central Europeu acabara de publicar um estudo segundo o qual a “austeridade funciona”. Na verdade, o ensaio teórico foi publicado no ECB Monthly Bulletin, de abril, e está longe de dizer que a austeridade é um bom negócio. Ele apenas diz, baseado em uma série de hipóteses, que se a consolidação fiscal é inevitável (por conta das pressões dos mercados), é melhor fazê-la de uma vez, mas sem a garantia de que isso produzirá todos os efeitos desejados. O artigo é realmente interessante, mas está longe de dizer que a “austeridade funciona” como sugeriram os jornalistas  locais, sabe-se lá porque. O link do artigo: https://www.ecb.europa.eu/pub/pdf/other/art2_mb201404en_pp75-89en.pdf . 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com