A Grécia é o novo Lehman Brothers

As bolsas estão em queda nos principais mercados do planeta. A falta de uma perspectiva de acordo para a Grécia está fazendo com que os agentes globais peses os riscos que estão pela frente. Os políticos que dirigem a Comissão Europeia temem dar um recado errado ao flexibilizar os acordo com um governo de esquerda. Os conservadores que governam a Itália, a Espanha, Portugal e Irlanda e que impuseram fortes medidas de austeridade, seriam punidos pelos seus eleitores. Por outro lado, deixar a Grécia sair do Zona do Euro pode significar o novo Lehman Brothers da economia global.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

As bolsas globais – e com elas os mercados de juros e câmbio – estão caindo ao redor do mundo, em função da escalada dos riscos associados a um possível default do governo grego em sua dívida com a Troika1. Veja o gráfico abaixo:

  

A dívida grega, feita no âmbito do programa de socorro de 2010, implica em pagamentos mensais e na  manutenção de práticas fiscais ultracontracionistas, com redução dos salários e investimentos públicos e aumento dos impostos. Tentativas de renegociar o acordo em novas bases vêm sendo feitas pelos gregos desde a eleição do governo do primeiro ministro Alexis Tsipras, em janeiro desse ano. Ele foi eleito como o compromisso de flexibilizar o acordo feito com a Troika, que tem como base uma dívida de 260 bilhões de euros. Mas essa flexibilização no pagamento da dívida (redução dos juros, alongamento da dívida e relaxamento do superávit primário de 4% do PIB requerido pela Troika) está longe de ser uma unanimidade entre os políticos envolvidos. A Comissão Europeia tem um dilema duplo:

- Se aceita o relaxamento das condições do empréstimo grego, ele acaba por “punir” os governos conservadores da Itália, Irlanda, Portugal e Espanha que seguiram à risca as exigências da Troika. Ao flexibilizar as condições para um governo de esquerda, os conservadores se verão confrontados com seus eleitores, que cobrarão o amargo remédio engolido nos últimos anos2. O sinal seria de que os que pagaram, pagaram à toa, e que a esquerda pode ser uma solução mais amena e agradável. Um risco político inaceitável para a direita que domina a Comissão Europeia.

- Se não aceita o relaxamento das condições, a Comissão Europeia se defrontará com o default da dívida grega, e isso implicará na saída do país da Zona do Euro. A Comissão Europeia estaria sinalizando que nenhum país que faça parte da Zona do Euro está totalmente seguro, podendo ser excluído da Zona assim que seus graves problemas não forem resolvidos pelos acordos da região. Ao fazer isso ela pode sinalizar que as dívidas de cada país, isoladamente, têm riscos superiores aos percebidos atualmente. E isso faria com que os juros dos países mais endividados subissem fortemente, levando, potencialmente, a uma nova crise de dívida.

Por conta desse dilema os dirigentes da Zona do Euro têm  postergado uma definição sobre a questão grega: não aceitam as proposta de relaxamento do governo do Syriza mas, da mesma forma, se recusam a aceitar a hipótese de saída da Grécia. Ambas as soluções têm custos elevados e não há uma saída à vista.

Os riscos associados à saída da Grécia da Zona do Euro têm sido minimizados pelos políticos e por boa parte dos analistas de mercado. Mas, claramente, é possível que esses agentes estejam repetindo a mesma e desastrosa aposta feita pelos americanos por ocasião da quebra do Banco Lehman Brothers. Eles imaginavam que a falência do banco traria perdas ‘educacionais” ao mercado , o que reduziria as apostas do mercado em operações de risco que, ao final, acabariam sendo bancada pelo mercado. Os dirigentes do Tesouro e do FED acreditavam que salvar o Lehman seria um mau sinal ao mercado, dando incentivos ruins aos grandes especuladores. O resultado foi claro e ultrapassou qualquer cálculo pessimista, com custos de mais de US$ 2 trilhões e milhões de desempregados.

Agora não parece ser diferente. Os europeus querem vender a ideia de que a saída da Grécia seria educativa para todos os membros da Zona do Euro, pois mostraria a disposição firme de seus dirigentes em assegurar “compromissos”. Ocorre que a partir dessa saída, qualquer país poderá ser visto como um candidato a sair da Zona do Euro e isso fará com que a percepção de risco de suas dívidas se eleve novamente, apesar das “garantias” do BCE de que tudo o que for necessário será feito para salvar o crescimento da região. Com riscos mais elevados, os juros de suas dívidas sobem e com eles, caem as taxas de crescimento e pioram as trajetórias da relação dívida/PIB. Esse foi o cenário básico que levou à crise das dívidas europeias. Veja os gráficos abaixo, com o comportamento dos riscos de alguns países da Zona do Euro:

 

 

Os gráficos mostras as taxas de juros cobradas para cobrir os riscos de um calote nas dívidas. Quanto maior a taxa, maior o risco percebido pelos agentes do mercado. Veja que todos os países tinham taxas baixas antes da crise, com Itália aos 14 pontos (0,14%), Espanha aos 12 pontos (0,12%) e Grécia aos 22 pontos (0,22%). Quando a crise da dívida eclodiu, a Itália pulou para 562 pontos (5,62%), Espanha 601 (6,01%) e Grécia 26.000 pontos (260%). Após os acordos de resgate as taxas caíram e estão a 127 pontos (1,27%) na Itália, 102 (1,02%) na Espanha e mais de 2.000% na Grécia.

Essa oscilação está relacionada à percepção do mercado em relação ao risco de calote. Se o país é visto como mais distante da “proteção” do Banco Central Europeu, a taxa explode, tal como está ocorrendo agora com a Grécia. A percepção de que o BCE não salvará o país do calote a qualquer custo, faz com que seu risco fique em um nível superelevado. E esse risco superelevado coloca em perspectiva a falência do tesouro do país. Qualquer país submetido a baixas taxas de crescimento e juros elevados entra em colapso. E qualquer país que possa ser visto como um potencial candidato a  sair da proteção do BCE pode ver, de uma para outra, os custos de financiamento de duas dívidas subirem fortemente. É por essa razão que os juros estão se mexendo fortemente nos países europeus e que as bolsas estão em derretimento. Quanto mais tempo demoram os políticos para resolver esse problema, mais cara será a solução. Você já viu esse filme.

 

 

(1)    A Troika é o grupo formado pelo Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e FMI, em 2010, para tentar solucionar a crise das dívidas europeias.  Eles forneceram programas de resgate, com a liberação de recursos para o financiamento de suas dívidas a prazos mais longos e taxas menores em troca de um compromisso dos países para a realização de uma “consolidação fiscal”.  Essa promessa incluiu um forte aperto fiscal com corte de salários de funcionários públicos e fortes aumentos de impostos.

 

(2)    Os custos do ajuste são o aumento do desemprego e a queda dos salários. Veja o desemprego dos países selecionados: Irlanda (11,3%) ; Itália (12,7%) ; Espanha (24,5%) ; Grécia (26,5%). O PIB per capita da Zona do Euro está 13% abaixo de sua média histórica e comentei isso no “post” http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/12/commodities-comecam-semana-em-queda.html . Veja, em particular, o gráfico:

 

 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com