A saída do HSBC aumenta a concentração bancária no Brasil

Os dez maiores bancos detêm 88% de todos os ativos do sistema bancário; os cinco maiores detêm 78%. Apesar de ser considerado um sistema sólido, ele simplesmente não nos informa os riscos que o tesouro nacional corre caso o sistema falhe, pois a lógica embutida nos cálculos de riscos leva em conta que esses bancos são grandes demais para quebrar. Com a saída anunciada do HSBC, sexto maior banco do país por ativos, os cinco maiores bancos passarão a deter 81% do total dos ativos, aumentando ainda mais a concentração.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Um dos principais fatores que leva ao crescimento - em seu sentido mais amplo - é a competição. O envolvimento dos agentes econômicos em mercados competitivos é responsável pela melhoria absoluta dos padrões de vida no planeta, sobretudo a partir do Século XX. Mercados não competitivos produzem resultados econômicos limitados, com a riqueza concentrada, baixas taxas de crescimento e baixo avanço das tecnologias que poupam trabalho e elevam a produtividade total da economia. Essa tese é uma das mais antigas da Ciência Econômica, mas precisa ser renovada de tempos em tempos. Há diversas obras que avaliam as relações entre competição, avanço tecnológico e crescimento econômico e vale citar a do economista americano William Baumol, "The Free-Market Innovation Machine: Analyzing the Growth Miracle of Capitalism"(1). Para o comportamento do sistema bancário, em meio a um ambiente de oligopólio (forte concentração), a dos economistas Bruce Greenwald e Joseph Stiglitz, "Rumo a um novo paradigma em economia monetária"(2).

No Brasil, ao menos desde as tormentas financeiras dos anos 1990, vendeu-se a ideia de que a concentração bancária seria um evento positivo, porque bancos grandes demais para quebrar não quebram e podem reduzir os riscos sistêmicos para a sociedade. Os governos patrocinaram a “consolidação” das instituições financeiras, por meio de fusões e aquisições, liquidações e privatizações, reduzindo seu número total de mais de seiscentas nos anos 1980, para pouco mais de uma centena nos dias atuais.

A tese da consolidação baseava-se no argumento de que o sistema muito pulverizado ficava à mercê das fortes oscilações dos balanços bancários (fortes lucros alternados com fortes prejuízos), resultantes das crises de balanço de pagamentos, das flutuações da economia (crescimento, inflação e inadimplência) e da volatilidade das taxas de juros. Concentrar significava tornar o sistema bancário mais seguro. Com riscos sistêmicos menores, a sociedade teria custos menores e todos ganhariam muito com isso.

Ocorre que se a teoria econômica estiver correta,  a sociedade pagaria mais pelo crédito e teria uma oferta total de crédito menor. Além disso, a concentração torna os bancos grandes demais para quebrar, e isso os incentiva a correr riscos muito elevados, alimentando situações como as da crise de 2008/2009. Essa suposta segurança e baixos custos, proporcionada pela concentração bancária, só tem bons resultados nos questionáveis modelos dos agentes envolvidos (e muito beneficiados) com a própria concentração. E esse tem sido o tema primordial na discussão das autoridades internacionais. Portanto, contrariando a tese vigente há alguns anos no Brasil, nosso sistema não tende a ficar mais seguro à medida em que fica mais concentrado.

Aqui, os dez maiores bancos detêm 88% de todos os ativos do sistema bancário; os cinco maiores detêm 78%. Apesar de ser considerado um sistema sólido, ele simplesmente não nos informa os riscos que o tesouro nacional corre caso o sistema falhe, pois a lógica embutida nos cálculos de riscos leva em conta que esses bancos são grandes demais para quebrar. Com a saída anunciada do HSBC, sexto maior banco do país por ativos, os cinco maiores bancos passarão a deter 81% do total dos ativos, aumentando ainda mais a concentração.

Deixando de lado o que levou um dos maiores bancos do planeta a sair do país, o fato é que o sistema ficará mais concentrado e isso poderá acarretar: que os custos por transação fiquem mais caros - por conta do aumento do poder de fixação de preços de cada banco isoladamente - que a oferta total de crédito  diminua - em decorrência da queda dos limites individuais de financiamento por cliente de cada banco - que o sistema fique ainda mais sujeito às oscilações da oferta de crédito por conta da concentração das políticas de concessão de cada banco (a disposição/falta de disposição de cada banco individual de emprestar) e que o risco total do sistema aumente - já que bancos grandes demais para quebrar têm incentivos adicionais a aumentar seus riscos. 

Na contramão das profundas necessidades da economia, no que diz respeito à estruturação de um sistema bancário apto a financiar o desenvolvimento (que não dependa tanto do sistema público), a saída do HSBC do Brasil é mais uma péssima notícia.

Veja os grandes números:

  

Total do Sistema             R$ 6.377.641.671    100%

Cinco maiores bancos       R$ 4.988.650.987     78%

Cinco mais HSBC             R$ 5.156.622.545     81%

 

 

 

 

(1) http://press.princeton.edu/titles/7310.html

(2) http://www.estantevirtual.com.br/b/joseph-stiglitz/rumo-a-um-novo-paradigma-em-economia-monetaria/91866053?q=joseph+stiglitz+rumo+a+um+novo+paradigma+em+economia+monetaria .

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com