IPCA de maio surpreende e mercado corre atrás da curva

Apesar de toda a gritaria em torno da política monetária, mais de 60% da inflação em doze meses e mais de 70 da inflação de 2015 resultam de alimentos, energia e combustíveis
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O IBGE divulgou o IPCA de maio e ele veio em 0,74%, bem acima das expectativas do mercado. que eram de 0,58% pela Bloomberg e pelo Infomoney e 0,59% pela AE-Broadcast . As instituições “TOP 5” da GERIN, do Banco Central, esperavam um IPCA de 0,54%. Essa nova “surpresa” da inflação deixou o mercado ainda mais “atrás da curva” com relação ao diagnóstico acerca do aumento dos preços e isso vai gerar muita discussão. Veja o gráfico com as estimativas do mercado para a inflação de 2015:

 

A tendência, diga-se de passagem, é que a culpa recaia em Tombini, o suspeito de sempre. Mas, antes dessa condenação precipitada, olhe a tabela dos aumentos de preços, em particular a última coluna da direita, que nos reporta os impactos de cada grupo sobre a inflação total:

 

Novamente a inflação mensal foi determinada por alimentos e energia/água, que contribuíram com 72% o índice. Esse aumentos resultam de um CHOQUE DE OFERTA, causado pela super-seca e pela desvalorização cambial.  Na inflação de doze meses alimentos, energia, ônibus, combustíveis e aluguel foram responsáveis por 66% da inflação. Em doze meses esse valor sobe para 72%, veja os gráficos:

 

A energia elétrica já subiu 58,5% em 2015; a alimentação subiu 8,8% e os transportes subiram 15%. Como temos uma renda PER CAPITA de US$ 11.690, o peso de alimentação e energia é muito elevado e cada choque que temos nesses itens há um impacto violento sobre a renda das famílias e sobre a inflação. Em consequência,  as cobranças da sociedade a respeito desses aumentos são muito elevadas e acabam por fazer com que a temperatura dos debates acerca da política monetária subam muito além das necessidades. Além das necessidades porque muitos dos participantes dessa discussão baseiam-se me modelos elaborados para os países de renda elevada, como EUA, Reino Unido e Zona do Euro. Lá, as grandes oscilações de preços são atenuadas com a utilização de medidas de inflação que retiram as altas dos preços de energia e alimentos, que causam muito “ruído”  sobre a inflação. Veja o gráfico abaixo com as medidas de inflação dos EUA, total e núcleo (sem alimentos e energia):

 

A linha azul é a inflação acumulada em doze meses; a vermelha é a inflação em doze meses retiradas as altas de alimentos e energia. É a linha vermelha que seve como base da tomada de decisões do FED para sua política monetária. Sendo US$ 53.470 a renda PER CAPITA, o peso das fortes oscilações dos alimentos e energia é reduzido e desconsiderado. No Brasil, a inflação acumulada em doze meses, sem alimentos e energia, estaria em 2,84% ou em 1,6% em 2015. Nesse caso  o Banco Central estaria sofrendo menos pressões. Veja o gráfico com as metas do BC, que variam de 2,5% a 6,5%:

 

 Mas o mercado, tudo indica, ignora a causas reais da inflação, ligadas aos choques de oferta, e é induzido a erros tanto no diagnóstico como na política selecionada. Ao não dar o peso devido ao choque, ele  (e o próprio BC) acaba por  depositar na política monetária todas as responsabilidades para a estabilização dos preços, acionando altas estapafúrdias dos juros, elevando os custos econômicos da estabilização e gerando distorções enormes na alocação dos custos e benefícios. 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com