A produção industrial acelera seu derretimento

A indústria teve a sua 10a. queda em dezesseis meses e ela foi de 1,2% em abril. No ano ela acumula 6,3% e em doze meses 7,6%. Todos os segmentos da indústria estão caindo com força e indicam que a soma de vários fatores fará com que o PIB caia pelo terceiro trimestre consecutivo. Até mesmo os bens de consumo não duráveis mostram forte contração, refletindo as condições do mercado de trabalho e a forte inflação. De seu pico de 2013 a produção industrial já caiu 14%, mas agora essa queda está ganhando mais velocidade.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Dando continuidade ao processo de derretimento da economia nacional, a produção industrial de abril foi anunciada e veio em queda de 1,2%. É a terceira queda consecutiva e a 10ª em dezesseis desde janeiro de 2014. A combinação da queda da confiança empresarial, da desaceleração global e da forte queda da renda das famílias (por conta do desemprego e da inflação) faz um estrago que levará alguns anos para reverter. Todos os segmentos industriais tiveram recuo e me chama a atenção a queda de 2,2% das produção de bens de consumo semi e não duráveis: eles são os bens de consumo recorrentes das famílias é só assistem queda em situação muito particular, de forte freio na renda. Veja o gráfico dos bens não duráveis:

 


Desde que os bens não duráveis a começaram a cair, em setembro do ano passado, eles já recuaram mais de 8% e não dão mostra de estabilização. Quando o câmbio se valoriza (o dólar fica mais barato) a concorrência com os importados deprime a produção industrial e essa queda poderia, em tese, ocorrer. Mas estamos assistindo a tendência inversa, com o dólar subindo fortemente frente ao real. O diagnóstico para esse recuo, portanto, não pode ser colocado no câmbio; é muito mais provável que ele esteja refletindo a forte contração na renda das famílias, cujo gráfico já foi mostrado no blog, mas nunca é demais repetir:

 

É a renda que define o consumo dessa categoria de bens, não duráveis, ao contrário dos bens de capital e dos bens de consumo duráveis. Essas duas últimas categorias dependem muito das condições do crédito e das expectativas em relação à economia. Os bens de capital são os investimentos realizados pelas empresas e têm forte efeito, tanto sobre a expansão da produção, melhorando as condições da oferta, como pela melhora das condições do emprego, pois as decisões de investimento implicam, via de regra, em abertura de novos postos de trabalho. Os bens de consumo duráveis est]ao ligados ao crédito oferecido às famílias e à sua expectativa em relação ao futuro de sua renda, pois são bens de valor elevado e implicam em comprometimento da renda por algum tempo, seja pelo crédito, seja pela utilização de sua poupança. Em  ambos os casos, tanto para as empresas como para as famílias,  as condições atuais e as expectativas em relação ao futuro são muito importantes e há uma forte ligação com as condições de crédito na economia. Veja o gráfico com a produção de bens duráveis e de bens de capital:

Os bens de capital começaram a despencar no primeiro trimestre de 2013, com o Taper Tantrum (a confusão causada pelo anúncio do Federal Reserve de que iria começar a reverter o Quantitative Easing) e já bateram 43% de queda desde então. O bens duráveis, com forte participação dos veículos, caíram 30% e devem continuar a cair com a piora do mercado de trabalho e das condições de crédito.

A Indústria como um todo, medida pela Pesquisa Mensal do Comércio, caiu 14% desde o pico de 2013 e continua caindo. A perspectiva é ruim porque todos os componentes da demanda estão em queda e as condições tendem a se agravar pela ação da política econômica: a austeridade destrói renda, emprego e investimentos e o aperto de crédito, decorrente da “luta contra a inflação”, acabar por afundar as decisões de gastos dos agentes.

A indústria parece ser uma péssima aposta para os próximos trimestres, e perderá muito os que insistirem nesse segmento. A recuperação está longe, pois necessitará de uma mudança radical tanto das condições externas, como da política econômica que mal começou a ser implementada no país.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com