A queda da bolsa de Xangai e o Pouso Suave

Nos anos 1990 e 2000 os analistas de mercado e economistas cunharam os termos "soft landing" e "hard landing" para definir as possibilidades de ajuste dos mercados e das economias após o desinflar de grandes bolhas. Sabemos que as grandes bolhas Ponto Com, dos 1990, e a imobiliária, dos 2000, começaram com um "soft landing" e terminaram em "hard landing". Será que a queda da bolsa de Xangai não estabelece a hipótese de assistirmos a repetição desses desastres novamente?
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A bolsa de Xangai caiu 6,5% no pregão de hoje, depois de ter completado uma alta de quase 150% desde junho do ano passado. Esse movimento de recuperação não foi exclusividade da bolsa de Xangai, mas, convenhamos, foi uma alta e tanto. O índice MSCI, que inclui ações das principais bolsas globais, subiu 15% no mesmo período. Veja os gráficos da bolsa de Xangai e do MSCI:

 

 

E essa alta meteórica foi turbinada pela forte expansão da atividade de financiamento das corretoras aos seus clientes. Esse financiamento permite que os clientes comprem mais ações do que o dinheiro disponível em suas contas. Cada cliente deposita uma garantia em sua corretora e ela disponibiliza um determinado valor para as compras.  Como os clientes compram mais do que têm efetivamente, diz-se que eles operam alavancados. E ao operar alavancados eles aumentam de forma substancial a capacidade de inflacionar os preços praticados na bolsa. O total de garantias depositadas na bolsa de Xangai subiu a US$ 322 bilhões segundo informações da Bloomberg; cinco vezes mais do que haviam depositado doze meses atrás. O banco central chinês está preocupado com a possibilidade da alta das bolsas terminar em crise financeira, o que afetaria de modo sensível a economia real do país.

Os chineses estão diante dos efeitos colaterais das medidas não convencionais de política monetária, tal como os planos de estímulo monetário que têm sido utilizados em larga escala após a Grande Recessão. Apesar de conseguirem segurar as economias em sua queda livre, os estímulos monetários acabam criando bolhas, dentre outras coisas1. Não há que se considerar, porém, que tais planos sejam apocalípticos, como fazem crer os mais ortodoxos falcões dos EUA e Europa, que são contra as medidas de estímulo porque elas levarão a uma super-inflação2. A situação de quase depressão após a Grande Recessão impunha iniciativas efetivas, mas sair desse quadro atual é um desafio enorme.

Ao aumentar as exigências de depósitos do sistema financeiro, o banco central chinês reduziu a oferta monetária, que levou as corretoras a reduzirem sua disponibilidade de crédito aos clientes. Automaticamente as posições compradas começaram a ser desmontadas e a bolsa derreteu. 

O problema em “desalavancar” mercados é que isso não é completamente administrável. Nos últimos processosque assistimos, os BC´s acreditavam sinceramente em POUSOS SUAVES das economias, à medida que iam se desalavancando, como na bolha das empresas Ponto Com nos anos 1990 e na bolha imobiliária dos EUA em 2006. O pouso foi  “administrado” pelo Federal Reserve, de maneira suave, até as coisas fugirem ao controle e desaguarem em crises violentíssimas.

A China, com sua economia que agrega US$ 650 bilhões/ano à economia global, tem sua bolsa em níveis elevados e o endividamento privado e das províncias somando mais de 250% do PIB. Se ela retirar a liquidez de sua economia, para deter os efeitos da supervalorização dos ativos reais e financeiros, ela pode acabar fazendo os preços das ações, imóveis e dívidas desabarem em um processo de deflação de ativos que leva a economia à depressão3. Esse foi o processo que levou a economia global à Grande Recessão e é isso que está sendo monitorado pelos principais bancos centrais do mundo.

A queda da bolsa de Xangai ainda não representa o início de um Tsunami financeiro que fará os mais pessimistas se apressarem a dizer que estavam cobertos de razão. Mas é um evento que nos convoca à reflexão, pois as taxas de juros começarão a subir nos EUA e esse é mais um passo do Federal Reserve em direção ao que seus dirigentes creem que seja um POUSO SUAVE. Olhando as experiências recentes, é inevitável sentir um frio na barriga.

Para alimentar sua reflexão o gráfico do S%P500:

 

 

(1)   Além das bolhas, ou até mesmo por conta delas, os planos de estímulo acabam por aumentar a desigualdade entre pobres e ricos. Ao elevarem os preços dos ativos reais e financeiros (ações, imóveis, títulos do tesouro e dívidas privadas) sem conseguir elevar os salários, os planos de estímulo aumentam a riqueza que está concentrada nas mãos dos 1% mais ricos. Esse é o ponto que tem tirado o sono dos formuladores de política dos países avançados e pode ser um fator explicativo para a falta de dinamismo da economia global mesmo após a inédita injeção de dinheiro feita nas principais economia. Uma boa explicação para isso está no documentário do professor de Stanford e ex-secretário do trabalho Robert Reich: https://www.youtube.com/watch?v=ncFLa9USVnQ .

(2)   A forte oposição aos planos de estímulos - que os governos enfrentaram ao longo desses anos pós Grande Recessão - foi baseada justamente nos argumentos de que a explosão da oferta monetária se converteria em elevada inflação e não em crescimento econômico. Essa possibilidade existe desde os modelos teóricos primordiais da ciência econômica (os mercantilistas do século XVII)  e retomaram audiência após Milton Friedman estruturar sua crítica ao ativismo monetário, nos anos 1960. Juntaram –se a ele os formuladores das teses das expectativas racionais, Robert Lucas e Thomas Sargent, e os adeptos da teoria dos ciclos econômicos reais, como Finn Kydland e Edward Prescott. Os seus seguidores acabaram por criar um ambiente de “consenso”, que juntou as teses de Friedman, Lucas e Prescott em modelos que, supostamente, incorporavam teses de seus oponentes keynesianos (supostamente porque, de fato, rejeitavam as principais premissas keynesianas). Esses modelos criaram o Sistema de Metas de Inflação e a forma como se via a política monetária até a crise de 2008. Chegaram a criar o pueril termo “Grande Moderação”, que justificava a relativa  tranquilidade que os países desenvolvidos viveram por alguns anos, na passagem do século XX, como o triunfo das “boas políticas” sobre a “rebeldia” do mundo real. Bem, deu no que deu; em economia, muitas vezes, é bom não se intimidar com a opulência das grandes ideias, bastando, como alternativa, olhar janela afora.

(3)   Esse processo de crise foi modelado incialmente por Irving Fischer e batizado de mecanismo de deflação de dívidas. Uma referência: “http://www.peri.umass.edu/fileadmin/pdf/conference_papers/SAFER/Guttman_Asset_Bubbles.pdf “.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com