A inflação continuará alta apesar dos juros estratosféricos e da austeridade fiscal

Apesar da elevação dos juros básicos e das medidas de austeridade, que jogam a economia ladeira abaixo, a inflação ao consumidor deverá terminar o ano perto dos 9%. O enorme choque de oferta fará o trabalho de manter os preços elevados para a imensa maioria dos brasileiros. A elevação dos juros, no entanto, não será capaz de colocar a inflação na meta, aumentará brutalmente o déficit público, ajudará a apreciar o déficit de transações correntes e tornará a vida dos brasileiros um pouco pior.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Hoje a agenda da economia está repleta de dados, tanto aqui no Brasil como no exterior. Comecemos com a inflação, coisa que alimenta as principais preocupações do brasileiro desde há muito tempo. A Fipe divulgou o IPC da 3ª. semana de maio e ele veio em 0,70%, abaixo da minha expectativa, de 0,72%, dentro das expectativas coletadas pela Bloomberg (0,70%) e acima das coletadas pelo Broadcast (0,65%). Veja a tabela abaixo:

Tabela Fipe 3ª semana

  

Note que alimentos e habitação (energia elétrica) foram responsáveis por 70% do índice do período. Afora esses dois itens, o destaque foi para a saúde, com alta de remédios de convênios. Essa alta escancara a natureza do atual processo inflacionário brasileiro e todos os limites que a política econômica tem para levar a alta dos preços a um patamar mais ameno. Os preços estão subindo por conta do choque de oferta que assola a economia nacional, com uma super-seca e com a forte ata do dólar. A seca já havia atingido os EUA e foi responsável, já a partir de 2011/2012, pela alta dos grãos, posto que os EUA tiveram a maior quebra de safra de sua história. Os preços dos grãos subiram e carregaram com eles os preços das carnes. Depois foi a própria agropecuária brasileira que foi fortemente afetada pela seca, que atingiu os preços dos hortifrutigranjeiros e os preços de energia elétrica. Apesar da melhora das chuvas nesse ano (a chuvas atingiram a sua média histórica na região Sudeste/Centro Oeste), os reservatórios de água ainda estão muito baixos, deixando a região vulnerável ao período de seca nesse ano. Veja a situação dos reservatórios da região Sudeste/Centro Oeste, utilizados na geração de energia hidroelétrica:

 

Apesar das chuvas desse ano terem ficado na média histórica, estamos na mesma situação que estávamos no ano passado. As colunas em vermelho são as relativas ao armazenamento desse ano e você pode notar que nesse mês alcançamos a situação do ano passado. Se chover a mesma coisa que tem chovido, é muito provável que esse ano repita o ano passado e cheguemos ao final do período seco com os reservatórios quase vazios. A situação só não está pior porque a economia está em forte queda e a demanda por energia também está fraca. Mas isso já é o suficiente para dizer que não teremos queda dos preços de energia nesse ano e, muito provavelmente, em 2016. Vale  lembrar que a energia elétrica respondeu por mais da metade da inflação desse ano até agora e ainda há aumentos que podem ocorrer até dezembro. A mesma coisa pode ser dita pelos reservatórios de água para a agropecuária e para o consumo humano. Veja a situação dos reservatórios da Sabesp, responsável pelo estado de São Paulo:

Reservatórios Sabesp

 

Quase no final de maio estamos em situação pior que estávamos no ano passado. Começando a época da seca, com melhora do regime de chuvas, com a implementação de racionamento e utilização de águas de pior qualidade (volume morto), ainda estamos em situação de alta vulnerabilidade. A situação dos reservatórios acaba por definir a disponibilidade de água para ser utilizada na agricultura e na geração de energia e a situação está crítica. As culturas de hortaliças e legumes, altamente dependentes da irrigação, já estão com forte restrição e ela pode atingir seu pico nos meses de agosto e setembro, o que contribuirá para a redução da oferta desses alimentos, elevando a inflação novamente. Vale a pena assistir aos vídeos produzidos pelo Greenpeace, a respeito da situação dos reservatórios de São Paulo e Rio de Janeiro:

  

 

Levando em conta, adicionalmente, a situação externa do Brasil, que requer que a taxa de câmbio continue se desvalorizando, é pouco provável que a inflação nacional tenha “refresco”. Provavelmente terminaremos 2015 com uma inflação próxima de 9% e com a taxa de juros Selic acima de 14%. Mas a elevação da taxa de juros será um esforço que a sociedade brasileira fará (um dentre vários) com poucos (ou nenhum) benefícios. Os juros elevarão a relação dívida Bruta/PIB, de forma direta, ao aumentar a dívida e, indiretamente, ao empurrarem o PIB ainda mais para baixo. A tão propalada “questão fiscal”, que ocupa 250% dos espaços da macromedia, foi responsável por um déficit de pouco mais de 0,5% no ano passado. Já o aumento de 1% na taxa Selic a eleva em quase 0,6%, sendo, portanto, razoável pensar que o atual estágio de “combate” à inflação está custando aos brasileiros quase 2% do PIB, ou o quádruplo do déficit primário do ano passado. Em temos fiscais, a atual luta conta a inflação está mais cara que qualquer coisa que poderíamos ter visto e, levando em conta as perspectivas,  os resultados são pífios.

No lado externo assistimos a mais um grande fiasco: o déficit de transações correntes voltou a aumentar apesar da forte desvalorização cambial dos últimos meses. Veja o gráfico do déficit acumulado em doze meses como percentual do PIB:

 

O déficit atingiu 4,42% do PIB no ano e está quase chegando aos catastróficos 4,8% atingidos em 1998, e que levaram o país a quebrar. Ainda que o Brasil não corra o risco de quebrar dessa vez, porque possui reservas internacionais de US$ 360 bilhões, os efeitos desse déficit são perturbadores no longo prazo. Ainda que um país possa utilizar-se da poupança externa para financiar seu desenvolvimento, os investimentos efetuados com esses financiamentos devem ser direcionados ao aumento de sua capacidade de produzir. Mas não é isso que está acontecendo no Brasil desde os anos 1990. Ao contrário, o país tem aumentado o seu passivo externo e sua indústria é cada vez mais colocada em posição de desvantagem frente ao comércio internacional. Mesmo que políticas industriais não sejam capazes de evitar o inevitável (a concorrência com os produtos produzidos na Ásia é feroz), não caberia aos governos atuar para prejudicar ainda mais os produtos nacionais. E as políticas econômicas prejudicam a indústria ao deixarem a taxa de câmbio se apreciar continuamente e ao manterem as taxas de juros na estratosfera. Com a desculpa de combater a inflação, o país acaba por tornar a vida dos produtores locais um pesadelo, em benefício dos rentistas que se beneficiam dos contumazes juros reais elevados. O Brasil é o paraíso dos rentistas ao oferecer um juro real elevadíssimo ao mesmo tempo em que protege os investidores estrangeiros contra a desvalorização do real. E é essa dinâmica que indica que a projeção de déficits externos crescentes, associados à piora das condições da produção industrial, são mais realistas que a visão otimista gerada pela macromedia, que coloca a questão em termos de política monetária e fiscal apenas.

Para finalizar as más notícias locais, o IBRE-FGV divulgou hoje sua pesquisa sobre o estado de confiança dos consumidores e ele piorou. Veja o gráfico:

 

Observe que os consumidores estão com sua confiança em queda desde 2012 e que a recuperação assistida em abril foi episódica; ela não se tornou uma tendência. Ela deve piorar à medida que as condições gerais da economia (empregos e salários) continuarem a se degenerar com o aprofundamento das medidas de austeridade fiscal.

Como sugerido, é provável que os esforços do Banco Central para reduzir a inflação não sejam recompensados, já que a inflação deve continuar elevada. Os juros altos apenas elevarão o déficit público (cuja redução é o objetivo número um do governo), apreciarão ainda mais o câmbio (o que elevará o déficit em transações correntes), e tornarão a vida do brasileiro pior, pois elevarão o desemprego. E ainda dizem que os defensores da austeridade precisam ser corajosos. Corajosos para que, afinal? 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com