Calendário apertado para o mercado brasileiro

Hoje é feriado nos EUA mas o mercado brasileiro opera normalmente, digerindo a movimentação do ministro da fazenda em direção à execução de seu projeto fiscal. Na semana teremos a divulgação de vários indicadores econômicos que, certamente, darão motivos para agitação em todos os mercados. Inflação, finanças públicas, setor externo e PIB deverão reforçar que nossa economia está em queda livre e isso deverá disputar com o otimismo dos agentes a direção dos ativos brasileiros.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Hoje é feriado nos EUA mas o nosso mercado opera normalmente, dando continuidade a humor mais azedo dos agentes. A pauta da macromedia considerou o mau humor em função de uma indisposição de Joaquim Levy com ajuste fiscal de “apenas” R$ 70 bilhões, anunciado na sexta pelo Ministro Barbosa. Mas é um pouco difícil acreditar que o titular da fazenda considere esse corte insuficiente diante das dificuldades que o governo enfrenta junto à sua base aliada e à oposição. Fico propenso, portanto, a creditar o fraco desempenho de hoje à falta de novidades no exterior e à ressaca em relação à temporada de resultados corporativos e aos dados econômicos ruins. E falando em dados de nossa economia, essa semana eles abundarão. Veja a tabela abaixo:

Temos aí os temas que movem a macromedia : inflação, déficit público e PIB. E os dados ainda virão contaminados o suficiente para fazer a festa. A inflação ainda estará em um patamar elevado, refletindo o enorme choque de oferta que o Brasil sofreu nos últimos trimestres (seca, desvalorização cambial e ajuste dos combustíveis); o déficit externo será alvo de críticas, mesmo que os investimentos externos estejam em patamar satisfatório; o superávit do da União  atiçará as rodas de debate que, normalmente, só perdem para as relativas à performance da seleção brasileira e, finalmente, o PIB, que trará uma formidável contração, resultante da “salada geral” do primeiro trimestre. Note que tenho estimativas mais pessimistas que a média do mercado e elas refletem minha percepção em relação à contração dos gastos privados e da implementação do programa de austeridade à brasileira.  E esse pessimismo contaminou não apenas os empresários (que tiveram lucros lamentáveis no primeiro trimestre) mas os consumidores, que têm perdido sua renda e seus empregos (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/05/dados-confirmam-uma-queda-do-pib.html ). Teremos a possibilidade de ver dados mais recentes acerca dos consumidores com as pesquisas da FGV e da Confederação Nacional da Indústria, relativas a maio. Veja os gráficos do comportamento da Confiança dos Consumidores:

 

                                                Confiança Consumidores - FGV 

 

 Confiança Consumidores - CNI

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Como você pode notar, os indicadores de confiança convergem no sentido de mostrar que os consumidores estão tão desanimados com estavam no início dos anos 2000. A queda abrupta da confiança está associada ao ambiente política que se deteriora desde o início do ano passado, com a campanha eleitoral,  com a lata da inflação e, finalmente com a alta do desemprego. Ainda que as pesquisas tenham apontado uma estabilização no entre março e abril, acredito que a situação continuará ruim por muito tempo.

Mas o desempenho do mercado não está diretamente associado à performance dos indicadores econômicos. Vale repetir que os agentes de mercado - e a macromedia faz parte desse grupo - dão muito peso aos aspectos subjetivos, em particular à execução de planos de austeridade. Via de regra as bolsas sobem em reação à implementação de planos (ou intenção de execução de planos) de austeridade. Aqui no Brasil, por exemplo, a indicação de Levy e seu comprometimento com a austeridade fizeram a bolsa subir dos 48 mil aos 58 mil pontos. A divulgação dos resultados corporativos estabeleceu um limite a essa euforia e passou a segurar um pouco mais a bolsa. Veja o gráfico do Ibovespa:

Ibovespa

 

Mesmo que a aplicação dos planos de austeridade se mostre muito mais tóxico às economias, os mercados passam a antecipar o que consideram positivo: o corte das despesas e o aumento dos impostos aumenta a capacidade financeira dos governos em pagar suas dívidas e liberam espaço para o setor privado fazer seus investimentos. Ainda que a economia “sofra” no primeiro momento, ela volta mais forte e cresce em um ritmo sustentável. Apesar da enorme popularidade dessa tese em alguns círculos brasileiros, as performances econômicas dos países que se sujeitaram a programas de austeridade quando estavam em recessão não permite dar o menor crédito a essa ideia. Ao contrário, os países em recessão que aplicaram políticas de austeridade tiveram sua recessão aprofundada, aumentaram as taxas de desemprego - destruindo um enorme potencial de Capital Humano - e pioraram seus indicadores de endividamento.

Tenho insistido nesse ponto, a política de austeridade, não se pelo desejo de ver alguma opção, mas pelas consequências práticas para os mercados. O entusiasmo dos mercados com a implementação de um aumento do superávit fiscal, apostando em uma recuperação da economia lá na frente não é razoável. Como vimos no primeiro trimestre, os efeitos contracionistas da implementação de um superávit primário implica em:

  • queda dos lucros corporativos
  • pouca efetividade em relação à trajetória do endividamento, amplamente influenciada pela queda do PIB e pela forte alta dos juros
  • efeito quase nulo sobre a inflação, dominada pelo choque de oferta originado na seca e na desvalorização cambial

 

Os eventos recentes da Europa, e os dos anos 1990 e 2000 na América Latina e Sudeste Asiático, são bastante conclusivos a esse respeito. No entanto, a memória do mercado tem propriedades particulares e a esse respeito já se produziu literatura abundante. A única afirmação que posso fazer, de forma bastante confortável, é a de que quando os efeitos da política expansionista dos EUA, Europa e Japão começarem a esgotar o ciclo de alta das ações em termos globais, o Brasil, e boa parte dos emergentes, perderá a única fonte de seu otimismo. Quanto tempo isso demorará a ocorrer é coisa que ninguém sabe.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com