Dados confirmam uma queda do PIB superior a 2% em 2015

Agregando mais informações sobre o primeiro trimestre do ano, o IBC-Br, índice de atividades do BC, permite inferir que o PIB caiu cerca de 1,4% nos três primeiros meses do ano. Comparando aos outros países, isso seria afirmar que o PIB caiu 5,6% em termos anuais. Mas esse número tende a ser maior, já que as coisas estão piorando e não melhorando. As famílias, o setor privado e o resto do mundo já estavam contribuindo negativamente para o crescimento de 2015. A política de austeridade, no entanto, deve fazer a maior parte do serviço e colocar o PIB do ano com uma queda superior a 2%.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Hoje estão sendo divulgados dados importantes sobre o nível de atividades e sobre o mercado de trabalho no Brasil. Mas tudo o que saiu já estava razoavelmente previsto, ao menos por esse blog. O Banco Central divulgou sua estimativa mensal sobre o nível de atividades, com base em março. Ele veio mostrando uma queda de 1,07% em relação a fevereiro e isso implica em uma queda de 0,8% do índice no primeiro trimestre do ano. Junte a esse dado do BC, a Pesquisa Mensal da Indústria e a Pesquisa Mensal do Comércio, ambas do IBGE e teremos uma boa possibilidade de ter uma queda do PIB de cerca de 1,4% no primeiro trimestre. Veja o gráfico abaixo:

 

A linha azul é a do PIB efetivo, apurado trimestralmente pelo IBGE. A linha pontilhada, em vermelho, é a estimativa que faço a partir do IBC-BR  e das pesquisas da Indústria e do Comércio. Note que desde o segundo trimestre de 2013 estamos com o PIB estacionado; agora ele passará a cair e é bem provável que essa queda seja maior que 2% em 2015. Na verdade, tenho uma estimativa de queda do PIB para 2015 entre 2% e 4%. O mercado ainda está com os 1,2% mostrados no Focus, mas deve reavaliar isso, já que essa queda  será de 1,4% logo no primeiro trimestre.

Outro dado que mostra o derretimento das condições econômicas brasileiras é o do mercado de trabalho que mostrou um desemprego de 6,4% em abril. Além dos desempregados, o que atormentou as famílias brasileiras foi a queda da renda. Veja o gráfico da renda das famílias:

 

A linha verde é a dos rendimentos efetivamente apurados e a vermelha é a média semestral, que nos ajuda a evitar os movimentos bruscos ou acidentais que a renda pode ter ao longo do tempo. Essa pesquisa é feita nas Regiões metropolitanas de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre e serve como uma estimativa do que ocorre em todo o território nacional. Note a que a renda real do brasileiro subiu fortemente de 2004 até novembro do ano passado, com uma alta de 41% em dez anos, equivalente a 3,5% de aumento real por ano. Desde novembro, no entanto, a renda das famílias caiu 6% ou o equivalente a 14% da alta realizada em dez anos. E os rendimentos caíram, e continuarão a cair, porque o desemprego está subindo ao mesmo tempo em que a inflação está subindo. Como a participação dos alimentos,  da energia elétrica e do transporte é muito elevada em nosso país (a renda do brasileiro médio é um quinto da renda do europeu médio), quando há aumentos fortes desses itens a renda real cai. E essa queda é maior quando o desemprego está subindo: os trabalhadores, autônomos ou pequenos negociantes não conseguem repassar esses aumentos em seus rendimentos mensais.

Depois de ouvir as teleconferências de resultados do primeiro trimestre de varias empresas, pude confirmar que a intenção da enorme maioria dos executivos é a de cortar ainda mais os investimentos ao longo de 2015 (a Petrobrás cortou cerca de 14% no primeiro trimestre). Então, os Investimentos, que respondem por 20% do PIB, continuarão a cair ao longo de todo o ano, contribuindo negativamente para o crescimento do ano. Sabemos, pela pesquisada renda, que as famílias não têm como aumentar o consumo, que responde por mais de 60% do PIB. Mais que isso, com a queda da renda e com as informações da pesquisa mensal do comércio, que indicam uma queda acumulada de 0,8% no ano, é muito provável que o Consumo das Famílias tenha uma queda, pela primeira vez em muitos anos. Já os Gastos do Governo, que complementam com 20% o PIB nacional, devem ter uma forte contração, resultado da queda da arrecadação dos estados e municípios (que estão entrando em falência) e pelo forte ajuste fiscal levado a cabo por Joaquim Levy. O setor externo poderia colaborar, mas como o resto do mundo está em queda também, nada podemos esperar de muito efetivo nessa área. E esses elementos confirmam a projeção que faço de queda de pelo menos dois por cento do PIB em 2015 (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/01/estimativa-para-o-ipca-acima-de-7-e-do.html ). Torça para que não haja redução da oferta de energia por conta da seca, pois isso deve piorar ainda mais o quadro.

A Chefe do FMI, Cristhine Lagarde, está no Brasil para participar do Seminário promovido pelo Banco Central, no Copacabana Palace,  sobre o Sistema de Metas de Inflação.  Ajudou o governo ao dizer que a “disciplina fiscal é a base necessária para permitir financiar os programas, Os dois andam juntos. Pessoas que mais sofrem com a indisciplina fiscal, no fim das contas, são os mais pobres”. E digo que procurou ajudar com essa fala porque o FMI deixou de apoiar os programas de austeridade radicais que eram feitos até a crise da Zona do Euro. Hoje o FMI sabe que é absolutamente improdutivo cortar verbas de programas socais e salários de funcionários importantes (como os que fazem funcionar os serviços públicos oferecidos à maioria da população, incluídos aí os servidores da saúde e da educação). Além de arruinar com a vida de milhões de pessoas, esses cortes atuam fortemente na redução da demanda agregada da economia, atirando a mesma em uma queda livre sem fim. A disciplina fiscal, trivial para qualquer economista, está longe de ser uma ferramenta para destruir economias. Ela simplesmente deveria ser um pressuposto para discriminar os gastos do governo em benefício dos programas sociais (mais produtivos e eficientes para alavancar o crescimento)  em detrimento dos favores sem fim feitos a setores da economia que se beneficiam da redução da tributação e da camada “nobiliária” de servidores do executivos, legislativo e judiciário, que recebem altos salários e aposentadorias, contribuindo muito pouco tanto para a oferta de serviços públicos à população, como para a demanda agregada, já que têm uma enorme propensão a poupar1.

Por tudo isso, é fácil reafirmar a minha tese: o Brasil vai ver sua economia despencar mais de 2% em 2015, por conta da queda dos investimentos, do consumo, do setor externo e agravada pela política xiita de austeridade.

 

 

(1)    Dentre os setores que estão sendo beneficiados podemos citar as empresas que recebem financiamentos quase gratuitos do BNDES, com verbas dos trabalhadores (FGTS), os empresários que obtiveram a benesse da “desoneração da folha”, os empresários que ganharam de presente a redução dos impostos sobre seus produtos e serviços e todos aqueles são objeto da atenção do governo no sentido de “estimular a economia”.  Ao aumentar as receitas desse segmento, o governo tende a aumentar a poupança, já que o investimento está em queda. Quanto aos altos salários dados à tecnocracia dos três poderes, eles têm uma propensão a consumir muito menor que as verbas destinadas às famílias de baixa renda, via seguro desemprego, bolsa família, FIES e empregos formais.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com