Entenda a importância da Ata do Federal Reserve

Hoje o Federal Reserve dos EUA divulgará a Ata da última reunião do Comitê de Política Monetária. Nela serão dados sinais sobre os próximos passos que a autoridade dará em direção à normalização dos juros básicos que estão em zero há mais de seis anos. Com uma economia que tem apresentado sinais contraditórios, há chance de manutenção da política atual por mais tempo. Mas a possibilidade de alta dos juros afeta a economia e os mercados do Brasil, já que ela pode induzir à redução dos fluxos de investimentos para cá, à elevação dos juros, à desvalorização do real e, por fim, a uma queda das bolsas.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Hoje o Federal Reserve dos EUA divulgará a ata da última reunião de seu Comitê de Política Monetária, realizada em 28 e 29 de abril. Há uma enorme expectativa do mercado em relação a essa reunião, pois ela poderá sinalizar a disposição da diretoria do FED em começar a subir os juros nas próximas reuniões. Desde 2009 - ou há seis anos - as taxas vêm se mantendo entre 0% e 0,25%, na tentativa de colocar a economia em uma trajetória de crescimento sustentado. Além do 0% de taxa básica, o FED ainda aumentou a oferta de moeda, de US$ 800 bilhões para mais de US$ 4,5 trilhões. Mas a recuperação da economia americana tem sido lenta e totalmente insatisfatória no que diz respeito à sua sustentabilidade. E o FED vinha mantendo, desde as últimas reuniões de 2013, um discurso que enfatizava a enorme cautela que o banco central terá antes de decidir-se pela retomada das altas dos juros básicos em direção ao que pode ser considerada a média histórica: uma taxa entre 3,5% e 4,5%. Eis o trecho das atas do FED onde essa preocupação era noticiada à sociedade:

“O Comitê decidiu manter o intervalo de 0% a 0,25% e reiterar que sua decisão  em relação a quanto tempo manterá o atual intervalo para a taxa básica (federal funds rate) dependerá da avaliação em relação aos progressos, atuais e esperados, em direção aos objetivos de máximo emprego  e inflação de 2%. Os membros continuam a considerar que suas avaliações em relação aos progressos levarão em consideração uma ampla gama de informações, que incluem medidas das condições do mercado de trabalho, indicadores acerca das pressões inflacionárias, expectativas de inflação e leituras sobre as condições financeiras e os desenvolvimentos internacionais.”

 Na continuação desse parágrafo, o FED avisava que seria PACIENTE antes de tomar qualquer iniciativa. Em março, no entanto, eles retiraram esse PACIENTE e avisaram que isso se dava porque o momento de subir os juros poderia estar próximo.

A questão dos juros básicos nos EUA talvez seja a questão mais importante para os brasileiros junto com a perspectiva (ou a falta dela) da China voltar a crescer acima de 10%. Por diversos canais1, empresas, governo e famílias brasileiras veem suas rendas afetadas pelos fluxos de comércio e de capitais, que entram e saem de nosso país, ao sabor do crescimento e dos juros dos grandes países do planeta. E esse é o motivo para ficarmos colados no que o FED dirá hoje.

Se o objetivo do FED é manter a inflação próxima de 2%, podemos esperar que os juros fiquem próximos de zero por muito mais tempo. Veja o gráfico abaixo, que indica a taxa de inflação acumulada em doze meses, medida pelo Personal Consumer Expenditure Index:

Inflação americana em doze meses:

 

Você pode notar que a inflação acumulada em doze meses vem ficando muito abaixo dos dois por cento desde a grande recessão de 2008/2009. Mesmo com a forte política de estímulos os preços continuam para baixo, agora ajudados pela valorização do dólar frente às outras moedas do mundo, consequência imediata da desaceleração da economia global. Ainda que o petróleo tenha colaborado demais nessa deflação, a sua queda decorre, pelo menos em parte, da desaceleração da economia global que está segurando a expansão da demanda. Os preços não sobem, apesar do estoque da moeda estar em seu nível mais alto em toda a história contemporânea2. Como tem sido repetido exaustivamente, os esforços realizados no âmbito do Quantitative Easing foram suficientes para segurar a queda livre das economias em termos globais e locais, mas foi insuficiente para devolvê-las aos trilhos do crescimento. E é assim que pensam os agentes. O gráfico abaixo mostra os juros dos títulos de dez anos do tesouro dos EUA, indexados à inflação. Eles refletem as expectativas de longo prazo dos agentes em relação ao comportamento dos juros reais:

Títulos de dez anos indexados à inflação


 

Até a Grande Recessão eles não ficavam abaixo dos 2%, mas desde 2010 caíram abaixo de 1% e têm ficado mais próximos do zero. E são títulos de dez anos, indicando que os agentes não esperam a volta à “normalidade” por muito tempo. A “normalidade” pode ser considerada existente quando os juros oscilam entre 2% e 3%, dando espaço para a alternância de crescimentos muito fortes e muito fracos.

A própria presidente do FED tem alertado há muito tempo acerca da fragilidade atual da economia dos EUA. Um dos diagnósticos possíveis é o de que a economia não foi capaz de criar trabalho de boa qualidade e com remuneração compatível com o crescimento de longo prazo. O debate passou a ser sobre os efeitos do aumento da desigualdade sobre a performance geral da economia. O que antes era apenas debate político, com um forte sentido normativo, ético, passou a influenciar a forma de ver o desempenho das vendas, da produção e dos lucros corporativos. O fato de uma imensa parcela da sociedade ter sua renda deprimida por muito tempo, sem se compensada pelo aumento de seu endividamento,  leva a economia a ter taxas de crescimento menores. Em outubro do ano passado, ao participar da Conferência Anual do Fed de Kansas, Janet Yellen3 afirmou que  o aumento da desigualdade de renda passou a ser um elemento importante para explicar a redução do crescimento econômico e deve considerada para a formulação da política monetária. Em resumo: salários muito baixos levaram a classe média americana a viver um padrão de vida muito mais baixo que o que vigorava antes de Grande Recessão e isso torna a economia mais “lenta”. O achatamento salarial parece ser um evento que veio para ficar e poderá influenciar na decisão do Fed em manter as taxas mais baixas por mais tempo.

Do ponto de vista do mercado, a manutenção dos juros baixos ganhou um inimigo de muito prestígio, Alan Greenspan,  ex-presidente do Fed, antecessor de Ben Bernanke, e que ainda pesa na forma dos dirigentes de Wall Street verem o mundo. Greenspan acha que se os juros ficaram baixos por muito tempo eles produzirão um Taper Tantrum, algo sem muita tradução para o português (ou até mesmo para o inglês) e sem sentido claro, como quase tudo o que é dito por ele desde os tempos em que trabalhou como assessor de Richard Nixon. Mas o que o mercado entende, estimulado por Greenspan, é que se os juros não subirem algo de ruim pode acontecer. Não sabemos ao certo o que é esse algo, mas é provável que aconteça. Também não sabemos quando acontecerá, mas os adeptos da idéia afirmam que é melhor subir logo os juros, antes que algo de muito ruim aconteça. E foi isso que disse ontem Lawrence Lindsey, velho colega de Greenspan, que foi assessor de George W Bush e membro do FED: “em algum momento vamos ter uma série de números ruins, mostrando uma inflação um pouco mais elevada e o mercado vai dizer: ‘Meus Deus! Estamos atrás da curva’ e isso vai forçar um ajuste muito doloroso4. E essa visão (ou falta de visão) tem alarmado os conservadores desde que o FED decidiu pela implementação do Quantitative Easing e tem movido os europeus a fazerem as temeridades que têm feito. Mas como os números mostram claramente, a inflação está caindo e não subindo.

Por fim, na última reunião do FED dois diretores acreditavam que os juros não deveriam subir nesse ano, um acreditava em alta de 0,25%, sete acreditavam que deveriam subir 0,5%, três em 0,75%, um em 1,25%, dois em 1,5% e um em 1,75%. Esse número indica que a maioria acredita em uma alta nesse ano, mas mostra que há divergência na trajetória que a alta deve ter. O quadro abaixo indica a posição de cada diretor (marcada com o ponto azul) nas reuniões de dezembro/2014 e de março  último. Note aumentou a quantidade de gente que se tornou mais “cautelosa”, sugerindo um aumento de apenas 0,5% nesse ano. Isso sugere que, apesar de todas as melhoras, a economia ainda está longe de dar segurança de estar em um trilho de crescimento. Se o FED errar a sua mão, o Taper Tantrum será pior que o imaginado pelos falcões, mas pelos motivos completamente diferentes, como sempre.

  

Estimativas Diretores - Dezembro 

 

 

Estimativas Diretores - Março

 

 


(1)    Usamos o termo “canais” para nos referir aos cominhos pelo quais alguns eventos se disseminam pela economia distribuindo efeitos diversificados para os vários agentes.

(2)    Nem mesmo as expansões monetárias levadas a cabo na Europa nos anos vinte chegou a tanto, já que a hiperinflação anulava imediatamente os efeitos da emissão. No período abrangido pelos séculos XVII e XVII, de grandes descobertas de ouro e prata, talvez, os governos imperiais ibéricos tenham experimentado um aumento tão drástico da oferta monetária, mas esse foi um período de forte expansão do comércio dentro da Europa, o que contrabalançou esse evento. O mesmo pode ser dito em relação às descobertas de ouro nos EUA no século XIX.

(3)    http://www.federalreserve.gov/newsevents/speech/yellen20141017a.htm .

(4)    http://www.marketwatch.com/story/whats-to-be-alarmed-about-from-an-ex-fed-guys-taper-warning-2015-05-20?link=MW_popular .

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com