A Fazenda pode nocautear a Petrobrás

A violenta queda de hoje pode ser creditada ao rumor de que a fazenda cobrará da Petrobrás mais de R$ 20 bilhões por uma cessão onerosa feita há cinco anos. Essa nova despesa pode levar a empresa a perder o selo de "investment grade" e isso deixou os mercados desacorçoados com a empresa, que continua a sangrar. A redução dos índices de inflação, anunciados pela Fipe e pela FGV, não deve servir de estímulo para o BC reduzir o ritmo de alta da taxa Selic. Continuo apostando em uma Selic entre 14,25% e 14,5% no fim do ano.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A Petrobrás está desabando mais de 6% por conta da notícia de que o ministro da fazenda está demandando o reembolso, por parte da petroleira, de uma cessão onerosa feita cinco anos atrás e que chega a US$ 6,6 bilhões. Pela cotação de hoje isso equivale a R$ 20 bilhões e podemos dizer que os acionistas da Petrobrás não precisam de mais inimigos, eles já têm o suficiente. Além das fortes perdas que a empresa teve pelo congelamento dos combustíveis por vários anos, em uma tentativa biruta e desastrada para segurar os índices de inflação, o principal acionista, o tesouro, agora joga essa conta no colo dos acionistas, simplesmente para engordar o superávit primário prometido aos mercados por Joaquim Levy. Pouco depois de recuperar o patamar de R$ 80 bilhões/ano de EBITDA (geração de caixa) - valor ainda baixo para o tamanho da dívida da empresa -  a empresa sofre esse novo golpe. Se ela tiver que somar ao seu passivo (às suas dívidas) mais essa conta, ela possivelmente perderá o selo de "Grau de Investimento". Some, ainda. os efeitos dos vários processos que a empresa sofre em Nova York e no Brasil e temos uma receita de bolo para o fracasso de qualquer tentativa para recuperar a capacidade operacional da maior empresa nacional. E tudo isso para que o ministro acene com mais R$ 20 bilhões em receitas, que serão literalmente pulverizadas pelos juros da dívida pública, que devem atingir os 14,5% nesse ano. 

Por esse ralo estão indo não apenas os programas sociais, os investimentos em infraestrutura e as bolsas de estudo para os jovens brasileiros; estão indo fatias inteiras do potencial de crescimento de nossa economia. A Petrobrás é responsável por um percentual enorme dos investimentos realizados no país. E esse pacote de maldades é feito em nome do que? Ah, do crescimento sustentável! E tente pensar diferente disso! Mas, apesar de todas a abundantes evidências em contrário, sempre haverá quem diga que destruir crescimento é apostar no crescimento.

Enquanto isso, as estimativas de valor da empresa continuam a ser revistas para baixo. O gráfico abaixo mostra a média de estimativas de preços (preço alvo de dez analistas ouvidos pela Bloomberg) sendo confrontada pelo preço praticado no mercado:

 

A linha branca é a do preço negociado na ação e a amarela as estimativas para os próximos doze meses, feitas por analistas do mercado, com base nos fundamentos da empresa. Note que a partir de setembro do ano passado os preços estimados pelos analistas passaram a cair rapidamente, ainda que atrás do mercado. E agora, pela primeira vez em muitos anos, essas estimativas ficaram abaixo dos preços praticados. Ou os analistas estão pessimistas demais e terão que rever suas estimativas, ou o mercado passa a acompanhar os analistas e devolve uma boa parte dos ganhos que a ação teve nos últimos meses. Hoje a média das estimativas está perto de R$ 12,50 e temos o maior nível de recomendações de venda (a parcela em vermelho das barras). Em junho de 2013, 68% dos analistas recomendavam “comprar”, 32% “manter” e 0% “vender”. Hoje temos 18,2% “comprar”, 54,5% “manter” e “18,2%” vender. Com a ajuda do governo esse percentual de recomendações do tipo  “vender” deve continuar a subir.

Do lado da economia real os preços continuam caindo conforme o padrão sazonal: os alimentos estão em queda, junto com o fim dos efeitos primários das altas da energia elétrica. A Fipe anunciou a inflação de São Paulo e ela caiu de 1,04% na primeira semana de maio para 0,83% na segunda. Veja o gráfico com o comportamento semanal da Fipe a cada semana, desde 2010:

Fipe – quadrissemanas


A inflação está caindo agora, após a forte alta no primeiro trimestre de combustíveis, alimentos e energia elétrica. Note que a inflação de janeiro assinalou o ponto mais alta em anos e o índice ainda se mantem em patamar elevado. Ainda que a origem dessa alta de preços esteja relacionada a fatores que estão além da política econômica, é de se esperar que o Banco Central continue a elevar as taxas básicas de juros. Ele fará isso na esperança de evitar que os agentes econômicos pensem que a autoridade monetária escolheu deixar a inflação subir, deixando de seguir a rígidas regras do Sistema de Metas de Inflação. E há muita gente no mercado seduzida pela ideia de que o BC perdeu sua credibilidade. O próprio board do BC deve acreditar nisso, após vários anos de inflações muito acima da meta de 4,5%: nesse ano teremos uma inflação de 9%, após 6,41% no ano passado, 5,91% em 2013, 5,84% em 2012 e 6,5% em 2011. Recuperar a credibilidade significa que o BC precisará manter os juros muito elevados pelo tempo em que as expectativas de inflação estejam muito acima da meta, seja isso uma ação produtiva ou não. E isso eu já abordei no Blog: http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/10/os-bcs-e-ladainha-da-credibilidade.html . No texto eu citei o professor Clarida, da Columbia, que citou o professor Rogoff, de Harvard1: 

“Estabelecer as formas de compromisso em um modelo teórico, no entanto, é muito mais difícil do que na realidade. A questão resume-se, então, se é possível existirem alguns mecanismos institucionais que possam atingir os efeitos ideais do comprometimento da política (monetária). Talvez a resposta mais útil para essa questão foi dada por  Rogoff (1985), que propõe simplesmente a nomeação de um banqueiro central conservador, o que significa alguém  com uma aversão maior à inflação do que qualquer um na sociedade”.

Com tudo isso em mente, posso concluir que o atual governo, absolutamente desejoso de “comprar” a confiança dos mercados, seguirá a questionável prática de extrapolar todas as expectativas e implementará uma política econômica que vai incinerar qualquer possibilidade de crescimento nos próximos anos. Tudo isso, contudo, sem garantir os dois objetivos declarados: ter volta a confiança dos mercados e reduzir a relação dívida bruta/pib.  

 

(1)    Rogoff produziu, com Carmen Reinhart, um dos livros mais constrangedores da história do pensamento econômico, “This time is different”. Nele, a partir de estatísticas mal trabalhadas, os autores sugerem uma relação entre endividamento e crescimento. Por tal relação, quanto mais endividados, menos os países crescem. Com essa receita no bolso, o FMI foi à Europa com a regra “reduza a sua dívida, via austeridade fiscal, e só assim você voltará a crescer”. Os países aplicaram as fórmulas de austeridade, tiveram um aumento explosivo de suas dívidas, queda na renda per capita e taxas de desemprego extra-terrestres. As estatísticas fornecidas no livro estavam formuladas de forma inconveniente e levaram a resultados distorcidos. Hoje essa polêmica foi abafada, sobretudo depois da publicação de um artigo dos professores Sr e Sra Romer, “New evidence on the impact of financial crises in andvanced countries”.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com