O primeiro trimestre das empresas foi horrível.

Das mais de sessenta empresas que fazem parte do IBOVESPA, poucas escaparam do cenário de crise pelo qual passa nossa economia. No primeiro trimestre, retirados os bancos e a Petrobrás, a Receita Líquida somada caiu mais de 8% em relação ao primeiro trimestre do ano passado. Além disso, o lucro de mais de R$ 12 bilhões, virou um prejuízo de R$ 6 bilhões. Tabulando esses resultados corporativos temos uma fotografia da contração da economia brasileira no início de ano, que deve ser intensificada fortemente com a ajuda do pacote de austeridade fiscal levado a cabo pelo governo e que tornará esses resultados uma boa lembrança.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Em meio a novos recordes nas bolsas dos EUA, turbinadas pela expectativa de que os juros permanecerão muito baixos por mais uma “geração”, o Brasil vive um início de semana de ressaca. Apesar do bom balanço apresentado pela Petrobrás, o Ibovespa cai mais de 2%. Motivos para isso há de sobra...

Todas as empresas do Ibovespa divulgaram seus resultados (exceção à Gerdau Metalúrgica) e tivemos um retrato claro do que foi o primeiro trimestre do ano para a economia brasileira. De modo geral as empresas viram suas receitas cair de forma violenta, com destaque para as empresas que trabalham diretamente com o mercado doméstico:  as receitas líquidas caíram 1% em termos nominais ou 8,3% em termos reais (descontada a inflação). Os resultados saíram de um lucro de R$ 12 bilhões para um prejuízo de R$ 6 bilhões.

Em todas as conferências com analistas podemos ouvir os executivos de empresas prometerem uma forte redução das despesas em geral, sobretudo as despesas de CAPEX (Capital Expenditure, ou Gastos com Investimentos). Isso soa bem, quando analisamos uma empresa individualmente, mas é uma tremenda má notícia para a economia como um todo: se as empresas reagem com cortes de investimentos às quedas das vendas, o que acontece depois é mais quedas nas vendas. E isso pelo efeito multiplicador dos investimentos: os gastos das empresas movem a demanda da economia e quando eles caem, o emprego cai e, novamente, a demanda cai. Esse é um processo de queda que só aumenta à medida que os agentes vão contraindo as suas decisões de gastos e fica ainda pior quando o governo, que responde por 22,5% do PIB, resolve “cortar na própria carne”, reduzindo seus gastos. Ao reduzir seus gastos, o governo acelera a queda da economia e, em um quadro tão grave como o nosso, empurra ainda mais a economia ladeira abaixo, destruindo a renda das famílias (por meio do desemprego e dos cortes de programas sociais) e os lucros empresariais (piorando as expectativas que levam às decisões de investimentos). Ainda que alguém queira argumentar que é bom retroceder (fazendo a austeridade ou, o que é mais confuso ainda, “acertando os erros das políticas passadas”) as evidências recentes mostram o quão destrutivas são as combinações da queda de investimentos, queda do emprego e austeridade fiscal.

Esses resultados, no entanto, ocorreram quando apenas uma parte do ajuste fiscal estava sendo executado, ainda que de forma não controlada. Entre janeiro e março, os investimentos em infraestrutura já estavam parados e o mesmo ocorreu com  os financiamentos públicos para o setor imobiliário1 e alguns repasses para estados e munícipios. Nas últimas semanas, os Estados e Municípios começaram a sinalizar o estado comatoso de suas finanças. Eles são como a Grécia e Espanha: não podendo emitir moeda ou novas dívidas, são obrigados a cortar gastos com a queda da arrecadação. E a arrecadação está caindo para todos, levando a um estado de crise que terminará com o não pagamento das dívidas dos Estados e Municípios à União e, por fim, ao não pagamentos de despesas correntes (salários e fornecedores).

Ainda que alguém veja isso como um “ajuste”, como algo que se tornará crescimento amanhã, o mais provável é que tal queda do PIB se assemelhe aos efeitos de um vulcão ou tsunami: ele apenas destrói, não prepara crescimento algum. A queda da renda, que se transformará em desemprego de milhões de pessoas e destruição de milhares de empresas, é apenas, e tão somente, a destruição de capital humano, que não será reposto em momento algum. Ainda que a economia possa se recuperar de forma rápida em um incerto momento do futuro, o sofrimento imposto à sociedade não será compensado e isso deve ser levado em conta por aqueles que, erroneamente, acreditam que “estamos cortando na carne”. Eis o ponto: na carne de quem?

Por isso não é possível associar os prejuízos corporativos do primeiro trimestre como “correção”, “ajuste” ou “preparação”. É apenas destruição e nada mais. Veja os quadros de desempenho da indústria e do comércio no mês de março, em comparação a março do ano passado:


 

As quedas falam por si mesmas e explicam os desastrosos resultados corporativos do primeiro trimestre. Os processos de “ajuste”, que prometem revigorar as economias depois de uma série de meses (ou trimestres) de muito sofrimento por parte da sociedade, têm se mostrado absolutamente destruidores. Na Europa já foram vigorosamente revisados pelo FMI e só são mantidos porque os aliados políticos de Merkel, e da maioria conservadora da Comissão Europeia, não têm como justificar o enorme desemprego imposto aos seus eleitores. É isso que impede a Troika de “facilitar” as coisas para a Grécia2. Portugal, Irlanda e Espanha se veriam confrontados com seus eleitores depois de levar as taxas de desemprego a níveis impensáveis e, mesmo assim, mantiveram o endividamento “extra-elevado” e o crescimento vergonhosamente negativo. Falando em emprego, os resultados primeiro trimestre no Brasil são claros, veja a criação de vagas formais:

 

Com esses números, intensificados pela maior crise hídrica da história brasileira e pela desaceleração da economia global, o desemprego deve subir aos 7%, com forte ajuda do pacote fiscal, que promete salvar a economia lançando-a em uma das maiores recessões que o Brasil já teve. Se a bolsa é impulsionada pelos resultados corporativos....

 

 

 

 

(1)    Semana passada algum jornal brasileiro anunciou que o governo não mais “socorreria” o setor imobiliário. Na verdade, o que o governo está fazendo é cortar a única fonte de financiamento imobiliário à disposição das famílias em algumas gerações. No Brasil o setor imobiliário ficou parado por conta da enorme crise do sistema financeiro da habitação e só começou a caminhar para algo que se possa chamar "normalidade" na última década. Não se trata de “socorrer” o setor imobiliário, mas de prover, como única fonte possível, financiamentos com prazos e taxas viáveis para que as famílias brasileiras tenham acesso à sua casa própria. Como na maioria dos países ocidentais, aqui quem precisa fornecer financiamentos de longo prazo para a aquisição da casa própria é o governo, através de programas especiais. Ao elevar a exigência da entrada de 20% para 50% (tanto para novos como para usados) o governo Roussef jogou o país de volta à era das trevas e retirou das famílias brasileiras qualquer possibilidade de acesso à sua casa própria. De quebra, jogou no colapso um setor que vinha empregando uma parcela significativa de pessoas, tanto direta, como indiretamente. Em seu deslumbramento para entregar uma pequena (na verdade insignificante) cota de sofrimento popular, o ministério da fazenda soterrou alguns milhões de brasileiros ao liquidar o financiamento imobiliário. É claro que o sadismo fiscal ainda teve a criatividade de eliminar o FIES e outros programas que estavam performando de forma muito positiva nos últimos anos.

 

(2)    É vendida uma ideia para os eleitores europeus (e para os desavisados leitores brasileiros) segundo a qual a austeridade fez bem para quem a aplicou. Mostram o exemplo da Irlanda, país que mais cresceu na União Europeia no primeiro trimestre. Ocorre, no entanto, que a Irlanda só cresceu porque ela se tornou um paraíso fiscal para as empresas dos EUA. Tanto o seu endividamento, como sua taxa de desemprego, pioraram depois da adoção da austeridade sob a batuta da Troika. Aqui o Brasil vendem esse falso dilema (siga a Irlanda e fuja da Grécia!) como se ele fosse uma justificativa real para o plano de austeridade que vai nos jogar no período de pior performance econômica em décadas.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com