A queda do emprego, da indústria e dos investimentos

A ADP divulgou um número de vagas criadas em abril muito mais baixo que o esperado nos EUA. Mais esse indicador mostra que os esforços para segurar a maior economia nos trilhos podem estar sendo insuficientes. Com isso cresceu o pessimismo no mercado e as bolsas caíram, moedas se desvalorizaram e a percepção de riscos aumentou. No Brasil a contração da indústria continua a passos largos, com investimentos sendo detonados em escala poucas vezes vista. Também são de desanimar os resultados de CSN, BR Malls e TIM. A economia global está contagiada pela desaceleração da indústria, do trabalho e do investimento.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Os dados anunciados hoje vão confirmando o que já está consolidado: a economia global está em desaceleração e o Brasil está em ritmo acelerado nessa queda. Nos EUA oi mercado de trabalho mostrou que está recuando em sua recuperação e foi anunciado um número raquítico de vagas criadas em abril. Como o gráfico abaixo mostra, a criação de vagas vinha em ritmo acelerado até outubro e passou a desacelerar, com 169 mil vagas criadas em no mês passado, bem abaixo das mais de 2090 mil criadas em abril do ano passado. Leve em conta, adicionalmente, que as vagas que têm sido criadas são com pior remuneração ou qualificação. Veja o gráfico das vagas criadas:

 

Mas esse número ainda não é o oficial, que só sai na sexta feira. O número da ADP é baseada no processamento das folhas de pagamento mas, como mostra o gráfico, ele antecipa bem a tendência do número do Bureau of Labour Statistics (órgão de estatísticas do trabalho do Dpto do Trabalho) que é acompanhado milimetricamente por Janet Yellen e sua equipe. Acelerações no mercado de trabalho indicam que o FED pode subir os juros até o fim do ano e fazem os juros subirem e as moedas perderam valor ao redor do mundo. Mercado de trabalho mais fraco mostra que o FED terá que esperar mais tempo para subir os juros e isso acaba por produzir os efeitos inversos: os juros caem e as moedas se valorizam. E é esse movimento do Federal Reserve que domina completamente o presente, apesar de todas as nossas idiossincrasias. A Europa pode se fartar de implementar a política de austeridade no continente, ou a China estabilizar seu crescimento nos 7% anuais e, mesmo o Brasil, em produzir um ajuste fiscal que derrubará a economia brasileira em mais de 2% (pode ser até 4%). Mas a dinâmica global está pautada pela política monetária dos EUA que tenta, de todas as formas, impedir que a recuperação feita até aqui, mesmo com todas a enormes discrepâncias, não desande. E isso implica em manter um estoque monetário elevado, de US$ 4,5 trilhões (ao redor de 29% do PIB, o que é uma enormidade),   e as taxas de juros muito próximas de zero. Ocorre que ao deixar as taxas de juros em zero por muito tempo algumas coisas acontecem e, dentre elas, estamos vendo os efeitos mais claros da valorização do dólar em relação às outras moedas. Veja o gráfico abaixo:

Ele se refere à relação entre o dólar e uma cesta de moedas, com cada uma ponderada por seu peso no comércio americano.

Desde 2012 o dólar se valorizou 25% contra os seus concorrentes e isso afetou negativamente a economia americana. No curto esse movimento traz melhora dos preços e eleva a renda real das famílias. Mas com o tempo os empregos vão sendo destruídos e a taxa de crescimento começa a ser afetada. A mesmo coisa pode ser dita dos lucros corporativos: eles estão em queda porque as empresas  americanas são globalizadas; com o dólar em alta seus lucros caem e, com eles, a tendência é a dos investimentos caírem. Veja o gráfico do saldo comercial dos EUA:

 

Entre fevereiro e março o déficit  aumentou em US$ 15 bilhões e, ainda que esse seja um número pequeno para uma economia de US$ 15,5 trilhões, indica uma tendência que pode se acentuar caso a moeda americana fique apreciada como está. Por outro lado, se os EUA passam a vender mais e comprar menos, eles pioram as condições econômicas do resto do mundo, que está na corda bamba há algum tempo. Esse é o caminho pelo qual a “batata quente” vai sendo passada de um país para outro, alastrando a desaceleração econômica. Esse contágio, que foi feito pelo mercado financeiro em 2008, é feito pela via comercial, afetando empregos e investimentos.

Aqui no Brasil o derretimento da economia está estampado na produção industrial de março: queda de 0,8% no mês.

O quadro acima mostra que o estrago vem sendo feito há meses e é mais intenso no coração da economia: o setor de bens de capital, que é parte dos investimentos. Quando os investimentos despencam a economia cai com força e esse ciclo é vicioso. Quanto mais a economia cai mais os investimentos caem, reduzindo o emprego e, com ele a renda, que é responsável por mais de 60% da demanda total da economia. Com empresas gastando muito menos, famílias diminuindo o consumo e o mundo em marasmo, o único setor que compensava a queda da economia era o governo. Mas agora ele mesmo está se incumbindo de cortar seus gastos, prometendo uma queda de mais de 2% do PIB. O governo (na verdade os governos, pois estão aí estados e municípios) é como um bombeiro que apaga um incêndio com gasolina: quanto mais o fogo se intensifica, mais o governo o alimenta. No primeiro trimestre a produção de bens de capital despencou 18% e a de bens de consumo duráveis (automóveis, tv´s, geladeiras, etc) outros 15,8%. Apesar do nosso desemprego ainda se rum desemprego americano, a queda da indústria já é grega. Mas os esforços fiscais farão com que cheguemos mais perto.

Hoje tivemos a divulgação de resultados de várias empresas e destaco as quedas. A CSN teve  lucro no trimestre apenas por conta da contabilização da equivalência patrimonial de seus investimentos, caso contrário teria prejuízo; a sua geração de caixa foi 37% menor nesse trimestre em comparação ao primeiro trimestre do ano anterior. A TIM também teve queda de EBITDA e do Lucro, refletindo aumento dos custos e das receitas (-3%). A BR Malls teve prejuízo de R$ 132 milhões e o maior evento foi a desvalorização cambial e que elevou sua enorme dívida (a empresa deve quase cinco vezes a sua geração de caixa anual). A exceção, foi a Ambev que teve aumento dos lucros, das vendas, da geração do caixa e ainda tem uma dívida muito menor que seu caixa. Mas o negócio de bebidas não faz um país, a exceção da empresa da 3G Capital, é um ponto fora da curva.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com