O mercado de trabalho em queda livre.

A taxa de desemprego bateu 6,2% e os salários despencaram mais de 5% em relação ao seu topo de novembro. Essa forte queda na renda mostra que o mercado de trabalho já reage ao corte de gastos promovido pelo setor privado (por meio dos investimentos) e pelo setor público, que pratica uma forte política de corte de gastos e aumento de impostos. Como o Consumo representa mais de 60% do PIB e depende fortemente do emprego, é de se esperar que a queda livre patrocinada pelo governo e pelas empresas ganhe mais velocidade a partir de agora. Ruim para Estados e Municípios que, como o Rio Grande do Sul, dependem da arrecadação para pagar suas despesas.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O IBGE divulgou a taxa de desemprego do mês de março e ela veio em 6,2%, com alta de 0,3% em relação a fevereiro. Os responsáveis pela alta foram tanto a queda das pessoas empregadas  como o aumento das pessoas que estavam fora do mercado de trabalho em fevereiro e que passaram a procurar em prego em março. Essa alta na taxa do desemprego está em linha com o que ocorre no resto da economia brasileira, sinalizando uma forte queda do nível de atividades. Ainda que as demissões em massa, atingindo grandes centros industriais e comerciais, não estejam nas manchetes, a perda da dinâmica do mercado de trabalho pode ser percebida nas quedas de vendas de veículos, das vendas de supermercados e na queda dos salários, em termos reais. Em março os salários acumularam uma perda de, mais de 5% em relação ao seu pico de novembro e de mais de 2% em relação a fevereiro. Veja o gráfico dos salários em termos reais:

 

 

A linha vermelha do gráfico é a referente à média de três meses e tende a suavizas as variações bruscas que ocorrem de mês a mês. E ela, claramente, vem em queda. Com a desaceleração do mercado o processo de queda livre da economia se acentua, já que as famílias tornam-se mais criteriosas (receosas!) em seus gastos, e eles respondem por mais de 60% do PIB. Com um setor externo que tem muito pouco a contribuir para o crescimento desse ano, com o setor corporativo sinalizando queda dos investimentos como  forma de se “ajustar” ao quadro de desaceleração e com o governo empurrando ainda mais a economia para baixo, com suas iniciativas de austeridade fiscal, a economia brasileira vai repetindo um cenário que, tipicamente, foi o dos anos 1990 por aqui e que está ocorrendo na Espanha e na Grécia. Se a economia brasileira contrair-se os 2% que projeto em 2015, ela estará cumprindo uma queda de mais de meio trilhão em relação à média que ela estava há cerca de dois anos atrás. Veja a evolução da taxa de desemprego:

 

 

Um evento que escancara a dificuldades nacionais é o desmoronamento das finanças em plano estadual ou municipal. O governo do estado do Rio Grande do Sul, por exemplo, ficou sem caixa para pagar seus funcionários. E como não pagá-los pode disparar uma onda parecida com a que varreu Curitiba, o governador decidiu-se por dar o calote em sua dívida com a União.  E ao não pagar sua dívida com o Tesouro Nacional, o governo estadual está dando o calote em sua dívida pública, ficando impedido de receber os repasses de impostos que a União faz aos Estados e Municípios por meio do Fundo de Participação dos Estados e Municípios. O estado está literalmente quebrado, lembrando a situação da Grécia. 

Todas as dívidas  estaduais estão centralizadas na União, por conta do acordo de renegociação feito no primeiro governo FHC. Os estados ficaram proibidos de captar dívida por meio da emissão de títulos ou outros mecanismos, passando a depender apenas de sua arrecadação e dos repasses da arrecadação feita em âmbito federal. Com a queda abrupta das receitas de impostos, decorrente da queda livre da atividade econômica, o governo  Sartori não pagou a última parcela de sua dívida com a União. O que acontece em escala estadual e municipal também ocorre em escala nacional: a queda da atividade joga os impostos para baixo e aumenta tanto o endividamento como déficit público. Apesar da União ter como emitir novas dívidas, ter US$ 370 bilhões de reservas internacionais, ou, no limite, poder emitir reais para fazer seus pagamentos, o governo está emparedado pelos mercados (e pelos partidos políticos), sendo empurrado a uma política de austeridade fiscal, que agrava ainda mais a queda da atividade econômica.  Um exemplo foi dado pelo governo central, que tem se esmerado em cortar ainda mais o oxigênio para a economia: ontem a CEF anunciou que não financiará imóveis usados a menos que os compradores paguem 50% de entrada; a instituição alega falta de recursos para o financiamento., o que seria um argumento para os principaintes no tema. Esse é um tiro de canhão no mercado imobiliário e ajudará, ainda mais, a empurrar renda e emprego para baixo.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com