Lucro do JP Morgan escancara a falta de regulação nos EUA.

O mercado americano começa a conhecer os resultados do primeiro trimestre e hoje foi o dia do JP Morgan, entre outros, anunciar seus lucros. Eles cresceram 12% em relação ao primeiro trimestre do ano passado e atingiram US$ 5,9 bilhões. As receitas de "trading" atingiram US$ 6,5 bilhões e mostram que o maior banco dos EUA depende fundamentalmente de suas operações especulativas para ter resultado. Com um total de meio trilhão de dólares de contribuições aos congressistas no ano passado, o setor consegue manter fora da legislação as limitações previstas na cláusula Volcker. E essa é uma péssima notícia.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Hoje o mercado dos EUA conheceu os resultados de algumas empresas e eles surpreenderam para cima. A Johnson & Johnson teve um lucro por ação de US$ 1,56 contra lima expectativa de US$ 1,53. O banco Wells Fargo teve um lucro de US$ 1,05 contra uma expectativa de US$ 0,98 e o JPMorgan & Chase US$ 1,45 contra US$ US$ 1,39.

Jamie Dimon, o CEO do JP Morgan, mostrou que as receitas de trading cresceram 7%, atingindo US$ 6,5 billhões. Se levarmos em conta que os lucros do banco foram de US$ 5,9 bilhões, não fossem as receitas de trading, o banco não teria lucro. Receitas de trading são as oriundas de operações que o banco faz por conta própria nos diversos mercados, mas principalmente nos mercados de títulos de dívida e nos mercados de moeda. E eram essas operações que vários economistas queriam colocar para fora dos bancos. Elas são uma fonte de fonte de enormes distorções que podem levar o sistema bancário a crises gigantescas como as de 2008/2009. Ao colocar em seu balanço ativos ou passivos com propósitos exclusivamente especulativos, os bancos acabam criando conflitos de interesses entre essa função especulativa e a sua função básica de intermediário financeiro1. Era com esse objetivo que a lei Dodd-Frank - aprovada após a crise para regular novamente o sistema bancário, que estava totalmente quebrado – tinha a cláusula Volcker2 que impedia que os bancos realizassem operações por conta própria. Ocorre que o forte lobby dos bancos atuou pesadamente para retirar essa cláusula da lei e o conseguiu em grande medida. O setor financeiro é um dos maiores contribuidores de campanha para o Congresso dos EUA. Veja as tabelas abaixo, copiadas do Opensecrets.org:


 

O setor que abrange as empresas de seguros, bancos e empresas do setor imobiliário contribuiu com meio trilhão de dólares em 2014 aos congressistas americanos. De 2000 para cá essas contribuições subiram 115% !  Esse “mimo”  possibilitou, por exemplo, que a SEC (Securities Exchange Comission), a CVM dos EUA, retirasse de um painel para discussão da legislação sobre “operações de alta frequência”, em janeiro desse ano, o economista Joseph Stiglitz. Essas operações são realizadas pelos bancos e corretoras dos EUA em vários mercados. Fonte de enormes lucros e riscos, essas operações (que são realizadas por meio de computadores) deveriam ser reguladas. Como o economista em questão é um forte crítico da falta de regulação dos mercados financeiros, os bancos fizeram um esforço bastante eficiente para deixar o Nobel de fora. Mas esse é apenas um dentre vários exemplos de como os bancos exercem um enorme poder sobre os governos e, a partir disso, acabam por influenciar as suas ações. O lucro do JPMorgan que o maior banco dos EUA depende de suas operações especulativas para ter lucro e esse é um sinal de que o mercado ainda pode colocar a economia em encrencas a qualquer momento.

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Aqui a Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE de fevereiro não trouxe surpresa: a economia estava despencando, tal como já havíamos previsto. As vendas do setor caíram 0,10% se não for considerado o setor automotivo. Se ele for incluído a queda foi de 1,1% no mês e de 10,30% nos doze meses entre fevereiro de2 014 e fevereiro de 2015. Esse dado indica que a queda do PIB do primeiro trimestre pode ficar entre 0,5% e 0,8%. De outra forma: já no primeiro trimestre a queda do PIB pode atingir quase toda a queda estimada para o ano pelo mercado. A minha estimativa de queda de 2% parece mais provável diante desse número.

 

 

(1)    A função básica dos bancos é tomar recursos de quem os tem sobrando e os repassar a quem precisa para suas despesas de consumo/investimento. Ao se especializarem nessa atividade, eles permitem que a sociedade tenha o fluxo de poupança/investimento otimizado, com  menores riscos e custos.

(2)    Cláusula Volcker por ter sido elaborada por Paul Volcker, ex presidente do Federal Reserve dos EUA.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com