A inflação acumulada em doze meses bate 8,13%

As trombetas do apocalipse inflacionário estão tocando em todos os cantos dos meios de comunicação. O IPCA acumulado em doze meses bateu incríveis 8,13%, com alimentos, energia elétrica e combustíveis contribuindo com 4,32%. somente a energia elétrica subiu 60% em doze meses e esse é um dos maiores choques de oferta das últimas décadas. Com a forte queda do nível de atividade e com a absorção dos aumentos de energia, os índices dos próximos três meses serão bem mais baixos, mas o pico da estiagem a partir de julho pode voltar a ameaçar a inflação novamente.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O IBGE divulgou hoje o IPCA de março veio, como era esperado, em 1,32%. Cerca de 0,7% do índice, ou 53% da inflação do mês resultou dos aumentos de energia elétrica que foram cobrados a partir de 02 de março. No ano a energia elétrica subiu 36,34% e em doze meses 60,42%. Considerando que a energia elétrica é um importante insumo para a indústria, os serviços e comércio, podemos levar em conta que dos 8,13% acumulados em doze meses para o IPCA, a influência da energia tenha sido grande. Somente a energia impactou 2,30%, mas o efeito total  é maior pelo encarecimento dos custos de produção de bens e serviços (efeitos secundários do choque de oferta). De fato, a economia brasileira está passando por um dos  maiores choques de oferta das últimas décadas, resultante da super-seca (que afeta diretamente os preços de energia elétrica e alimentos) e da desvalorização cambial que acumula 65% em dois anos. Alimentos, energia e combustíveis são responsáveis por 4,35% da inflação dos últimos meses. Veja o gráfico do IPCA em doze meses:

 

Diante de um choque de oferta dessa magnitude, os formuladores poderiam optar por combater os seus efeitos secundários por meio da elevação dos juros, pelo “congelamento” de alguns preços administrados  ou pela manipulação do câmbio. De certa forma, mas com intensidade muito menor do que é dito por muitos, o governo utilizou-se de alguns dos três componentes citados acima. Mas agora, efetivamente, os dois últimos foram abandonados. Preços públicos e câmbio estão em alta e os efeitos secundários devem ser menores, olhando para a frente, em função da forte queda do nível de atividade. É de se esperar que os índices de abril a junho sejam substancialmente menores, já que os efeitos dos aumentos de energia, combustíveis e alimentos devem se esgotar. Mas a partir de julho, no início do estágio mais severo da estiagem de inverno, poderemos assistir ao retorno das inflações em nível mais elevado.

Longe de ser uma boa notícia, a inflação foi bem menor do que eu imaginava inicialmente. Levei em conta, para projetar um IPCA entre 1,60%/1,80% em março, a possibilidade de manutenção das altas dos outros itens no ritmo que vinham mantendo desde janeiro. Mas ele efetivamente desabaram e isso tem mais relação com a queda forte do nível de atividades do que com qualquer outro fator positivo. Veja a tabela do IBGE:

 

 

 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

Deixe seu comentário

Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com