O setor automotivo em queda livre

A indústria automotiva deverá acumular uma queda de 33% em 2015 em relação a 2013. Apesar de ter interrompido ma sequência enorme de quedas, a produção nacional de veículos caiu 8% no primeiro trimestre em relação ao trimestre anterior e 16% em relação ao primeiro trimestre do ano passo. O cenário de forte recessão vai se confirmando a cada novo indicador e não há, ainda, uma luz no fim do túnel.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Hoje a Anfavea, associação do setor automotivo, anunciou os resultados da produção e comercialização de março e eles mostraram uma interrupção na queda livre que vinham fazendo desde 2013. A queda total da produção do setor foi de 18% no ano passado e espera-se que caia mais 13% nesse ano. Veja os gráficos de veículos de passageiros e comerciais:

  

 

A linha vermelha indica o dado tratado para serem retirados os efeitos sazonais. A produção de veículos de passageiros caiu 8,61% no primeiro trimestre em relação ao último trimestre e 15% em relação ao primeiro trimestre do ano passado. Para os comerciais as quedas foram de 5,72% e 16% respectivamente. Esse comportamento da produção indica que as decisões de gastos das famílias e dos empresários continuam derretendo, com início mais claro no primeiro trimestre de 2013 que, coincidência ou não, marcou o início da reversão da política expansionista do Federal Reserve dos EUA e o início da reversão do ciclo de recuperação da economia global. É possível ver nesse comportamento de famílias e empresários uma reação ao cenário de contração da economia, com queda do emprego, da renda, dos investimentos e do crédito. As causas para esse aperto monumental da economia são vários, mas ele irá aumentar à medida em que o governo colocar em prática seu “salvador” ajuste fiscal, que deverá retirar da economia mais de 2% do PIB. Esse é um dado que corrobora as estimativas mais pessimistas para o crescimento de 2015, independente do diagnóstico que se faça.

Vale a pena registrar a avaliação que o presidente da Anfavea faz da situação. Segundo o jornalista Igor Gadelha, do Estadão, o presidente da associação julga que as vendas caíram com a queda da confiança do consumidor e dos investidores por conta da não aprovação do ajuste fiscal pela nova equipe econômica. “Enquanto a sociedade não conhecer com exatidão quais serão as medidas de ajuste, não é possível falar em confiança”. Ele espera que as medidas sejam aprovadas ainda nesse mês e enxerga o ajuste como o único instrumento capaz de aumentar a confiança de consumidores e investidores. Eis um exemplo da visão dominante nos círculos empresariais, no mercado financeiro e na mídia em geral. O economista britânico, Simon Wren-Lewis, a batizou de Macromedia (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/03/a-austeridade-muito-bem-explicada.html ). Essa forma de pensar a sociedade e os problemas econômicos está amparada nas ideias da escola das expectativas racionais, que vê famílias e empresários como agentes econômicos racionais, munidos da capacidade de decidir segundo informações completas, disseminadas uniformemente para todos, e que utilizam modelos econômicos complexos e, muito mais importante, idênticos. Esses modelos dizem que se o governo gasta demais, os agentes percebem isso imediatamente (eles acompanham as estatísticas divulgadas pelo tesouro acerca do déficit público e da divida do governo). Se os gastos e a dívida aumentam, os agentes já sabem que o governo terá que aumentar impostos o que reduzirá seus gastos agora ou no futuro. Em função dessa percepção nítida de todos os agentes, as decisões de gastos excessivos do governo levam a uma redução mais que proporcional dos gastos de todos os agentes e implica em dizer que o déficit público causa queda do PIB. Uma das mentes mais brilhantes por trás desse raciocínio é o economista americano Robert Barro, influente membro da escola das expectativas racionais, que definiu esse mecanismo por meio da tese da “equivalência ricardiana”. Eis o link para uma leitura do artigo “seminal” de Barro: http://dash.harvard.edu/bitstream/handle/1/3451399/Barro_AreGovernment.pdf . Vale lembrar que Joaquim Levy reza por essa cartilha e por isso dá ao ajuste fiscal o caráter de grande missão de sua vida. Apesar de não compartilhar dessas crenças, creio que a sua influência sobre uma parte importante da economia, sobretudo os mercados financeiros locais e internacionais, acaba produzindo efeitos na prática. Esses efeitos resultam de processos que são chamados de profecias autorrealizáveis e são muito potentes em economias mais vulneráveis, como as emergentes. Para o bem ou para o mal, o ajuste fiscal terá de ser feito, mas ao contrário do que esperam os adeptos das expectativas racionais e os cidadãos influenciados pela Macromedia, ele causará mais recessão e não mais crescimento. E quem diz isso são os dados históricos.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com