Os EUA estão em desaceleração?

Os juros dos títulos de dez anos e o dólar estão despencando por conta da fraca criação de vagas de trabalho no mês de março. Com juros mais baixos e dólar desvalorizado, as commodities têm seus preços em dólares elevados e melhoram a percepção para os mercados emergentes. Mas essa melhora pode se deparar com um limite: uma desaceleração da maior economia do planeta pode disparar uma queda de suas bolsas e uma nova crise global.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Na sexta feira foram anunciados os dados do mercado de trabalho dos EUA e eles vieram piores do que se esperava. O número de pessoas contratadas em março foi de 126 mil, menor dos que as 247 mil esperadas pelo mercado ou as 264 mil de fevereiro. Para piorar um pouco, as contratações de fevereiro foram revistas para baixo, de 295 mil para 264 mil. Também caiu, ainda que modestamente, a taxa de participação da força de trabalho na população em idade de trabalhar, de 62,8% para 62,7%. Veja o gráfico das contratações mensais:

 

 

Ainda que a média semestral esteja na faixa dos 260 mil empregos, houve uma queda considerável de novembro para cá, além das esperadas para essa época do ano, já que os dados são dessazonalizados. A participação da força de trabalho no total da população em idade de trabalhar, por sua vez continua sem recuperação. Veja o gráfico abaixo:

 

 

Com uma tendência iniciada no início dos anos 2000 e fortemente acentuada após a Grande Recessão de 2009, a participação da força de trabalho caiu 4%, o equivalente a 10 milhões de pessoas que estão ausentes do mercado de trabalho. As hipóteses que explicam que êxodo dos americanos do seu mercado de trabalho são tema de muita pesquisa por parte do FED e de diversas outras agências, institutos e universidades dos EUA. Essa redução do total de pessoas com disposição de trabalhar ou procurar empregos1 poderia levar ao aumento do salário e, com isso à inflação. Seria um limitador importante ao crescimento de longo prazo. Mas as pesquisas indicam que o mercado de trabalho simplesmente está fraco demais, com criação de poucos empregos e de baixa qualidade e remuneração. Uma das explicações possíveis é a de Larry Summers, a “Estagnação Secular”2, que considera que há excesso de poupança em relação aos investimentos. Em função disso a criação de vagas de trabalho estaria condenada a ficar muito baixa por muito tempo. Mas essa não é a única tentativa de explicar o fraco desempenho do mercado de trabalho dos EUA. O comitê de política monetária do FED tem se baseado na constatação de que o mercado de trabalho ainda está frágil e de que é necessário entender de forma mais clara o que está ocorrendo, Janet Yellen, da presidente do banco central, dedicou boa parte de sua vida na pesquisa sobre o mercado de trabalho e hoje lidera os esforços da autoridade em adotar uma política monetária que não apenas estimule a criação de empregos mas, talvez mais importante, não atue como faísca para uma explosão que pode destruir milhões de empregos. Foi, em grande medida, esse o papel que o Federal Reserve cumpriu nas crises de 1999, 2001 e, a maior de todas, a de 2009. A Grande Recessão, que destruiu mais de 15 milhões de empregos e colocou nas ruas milhões de famílias por conta da inadimplências de suas hipotecas, ainda está pairando sobre a economia dos EUA. Os empregos ainda não foram recuperados e, mesmo com a enorme montanha de dinheiro à disposição da economia (US$ 4,8 trilhões) e taxas de juros zero, há sinais de desaceleração.

E é por conta desse risco, de desaceleração da economia, que os juros dos títulos de dez anos despencaram novamente, saindo dos 2,2% para os 1,85%, veja o gráfico:

  

Após subirem do mínimo de 1,65% para os 2,2%, com a expectativa de que a economia americana estava acelerando fortemente, indicando a possibilidade de forte alta dos juros por parte do FED, os juros passaram a cair novamente. E quanto mais fraca a economia, mais os juros caem, por conta das expectativas do mercado no sentido da manutenção dos juros Zero por parte do Federal Reserve por mais tempo.

Com juros mais baixos e economia mais fraca, o dólar cai em relação às outras moedas: o euro saiu de US$ 1,04 para US$ 1,10 e o Yen saiu de ¥ 108 para os atuais  ¥ 118. O real também interrompeu sua trajetória de desvalorização, caindo de R$ 3,30 para os atuais R$ 3,10. E com a queda do dólar, sobem os preços, em dólares, das commodities, principalmente do petróleo, que saiu de US$ 42 o barril WTI para US$ 50,50. Esse movimento de realinhamento de preços ajuda as bolsas em um primeiro momento. Depois, quando os agentes pesarem o quanto é importante a desaceleração da maior economia do planeta para os lucros corporativos, talvez comecemos a ver uma realização importante do mercado acionários dos EUA.

  

(1)   A força de trabalho é a soma do total de empregados e desempregados.

(2)   Para uma visão rápida sobre a tese: http://larrysummers.com/2015/04/01/on-secular-stagnation-a-response-to-bernanke/ .

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com