O PIB de 2014 ficou em zero e o de 2015 será de -2%

O resultado do PIB de 2014 mostrou crescimento zero, o que já esperávamos. A Indústria foi o destaque, por cair impressionantes 1,2% e os Investimentos por derreterem 4,4%. A minha expectativa é de uma queda total de 2% em 2015, liderada pela queda dos investimentos, em função da queda da confiança, da operação lava a jato e pelo ajuste fiscal. Isso se as condições hídricas e o câmbio não trouxerem ainda mais obstáculos.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O IBGE divulgou o crescimento de 2014 e ele confirmou o que se esperava: quase zero, +0,1%. No ano a Agropecuário cresceu 0,1%, a Indústria caiu 1,2 e os Serviços subiram 0,7%. Do lado da demanda, os Investimentos derreteram 4,4%, o Consumo das Famílias subiu 0,9% e os gastos do governo subiram 1,3%. Não fossem os gastos do governo a coisa teria sido pior. E com um PIB em zero, a “renda per capita” cai e a relação Dívida/PIB piora significativamente. O que esperar para 2015? Eu mantenho minha projeção de queda do PIB em 2%. Vamos olhar os gráficos dos principais componentes da demanda:

 

Veja que o comportamento do consumo é suave, sem oscilações bruscas de um trimestre a outro e tende a subir linearmente. Ele representa 63% do PIB, mas ele é determinado fundamentalmente pela renda e essa, por sua vez, depende do volume do emprego. Oscilações ocorrem independentes do emprego apenas para os bens duráveis que comprometem boa parte da renda/poupança das famílias e dependem do crédito. Após uma alta consistente entre 2003 e 2012, o consumo tem estagnado,  refletindo as condições ruins do mercado de trabalho e da renda. O que esperar para 2015: vamos trabalhar, conservadoramente, com a manutenção da renda. E isso é conservador porque há indicações fortes de que o emprego vá cair e, junto com ele, a renda das famílias. O crédito deve continuar contraindo, como resultado do aperto dado aos bancos federais por parte do Ministério da Fazenda. Portanto, trabalhemos com a hipótese de variação do Consumo zero por parte das famílias.

Os investimentos somam cerca de 20% do PIB mas você pode notar que ele oscila fortemente entre um trimestre e outro. Cada ação de aumento ou redução dos gastos de investimentos faz com que o PIB aumente ou diminua, mas em proporção maior que a variação dos investimentos. Os gastos com investimentos têm um efeito multiplicador, significando que a cada real que um agente gaste em investimento, o PIB aumenta em um valor superior a esse real. Esse multiplicador é superior a dois e mostra que as variações nos investimentos são as mais importantes para explicar as variações nas taxas de crescimento. E note que os investimentos vêm caindo desde 2013, sobretudo após o Federal Reserve anunciar que iria parar a sua expansão monetária, no âmbito do Quantitative Easing. As taxas de juros subiram fortemente e o nível de incerteza afetou a confiança dos empresários que reagiram reduzindo seus investimentos. A queda dos investimentos foi acentuada com a incerteza gerada no ambiente eleitoral do ano passado e tende a aumentar. O que esperar para 2015: trabalhando conservadoramente, com um multiplicador de 1,5, e levando em conta a queda da confiança dos empresários (expressa em grande medida nos “guidances” das empresas que estão anunciando forte corte das despesas de investimentos para 2015) o investimento privado deve cair. Além disso, os gastos dos governos municipais e estaduais estão fortemente limitados pela queda de suas receitas e, portanto, pela piora de sua situação fiscal. Eles representam 50% dos gastos de investimentos do Setor Público. Já o governo Federal está imobilizado pela política de ajuste fiscal e pelos efeitos das operação lava a jato. As obras públicas vão reduzir seu ritmo nas três esferas e isso trará uma contribuição negativa ao total dos investimentos. Por fim, a Petrobrás tem um nível de investimentos de cerca de R$ 80 bilhões/ano. Se ela cortar, como avisou que fará, em 50% seus gastos de investimentos, e se considerarmos um multiplicador de 1,5 (é bem conservador), a queda dos investimentos no setor de óleo e gás poderá atingir cerca de R$ 60 bilhões, ou cerca de 0,9% do PIB. Somando esses três componentes do investimento (Empresas privadas, Setor Públicos nas três esferas e Óleo e Gás), podemos considerar uma queda de pelo menos 1% nos Investimentos.

Por fim os gastos do governo: eles têm, tal como o consumo das famílias, um comportamento suave, afinal dependem da arrecadação das esferas governamentais. Mas nesse ano o Ministro da Fazenda prometeu entregar um ajuste no superávit primário: de um déficit de 0,6% do PIB para u superávit de 1,2%. Esse ajuste implicaria em uma queda total do PIB de 1,8%. Como é muito forte, vamos supor que ele consiga entregar apenas 50% disso, ou 0,9%. Além disso, vamos supor um efeito multiplicador de apenas 1,5, tal como nos gastos de investimentos. Por fim, digamos que 40% do ajuste seja feito a partir da suspensão dos investimentos públicos, o que já está abordado (muito conservadoramente no item investimentos). Então, fazendo apenas 50% do ajuste e baseando boa parte dele nos investimentos, o peso do ajuste fiscal sobre os gastos do governo seria de 0,4% e sobre o PIB seria  uma queda de 0,60%.

Consolidando os dados gerais temos:

(+) Consumo:  0%

(+) Investimentos: -1%

(+) Gastos do Governo: -0,60%

(=) PIB de 2015 = -1,60%

 

Considere, finalmente, os efeitos da seca e dos aumentos de preços dos alimentos e da energia elétrica, associados a um cenário de restrição de oferta de água. Ainda que as exportações subam, colaborando positivamente para o crescimento, a restrição de oferta poderá comer mais alguns pontos do crescimento em 2015 e por isso aposto em um número de -2% para contemplar todos esses efeitos combinados.

 

 

 

 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com