Dólar ainda está barato com o Déficit de Transações Correntes aumentando.

Dados positivos na Europa e a manutenção do "rating" brasileiro pela S&P estimularam a valorização do real frente ao dólar, interrompendo um movimento que já chega aos 45% em doze meses. A divulgação dos dados do setor externo, no entanto, mostra que a economia brasileira ainda está aumentando seu déficit externo e isso sinaliza que o real precisa se desvalorizar ainda mais.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A decisão da agência de classificação de riscos Standart and Poors de manter a nota do Brasil, em “grau de investimento”, foi muito positiva. A agência esclareceu que manteve a nota em função do esforço do governo em ajustar o déficit primário para manter a trajetória da relação dívida/PIB em um patamar seguro e que isso irá proporcionar a volta do país a taxas de crescimento mais satisfatórias. Da mesma forma, a Petrobras manteve sua nota, mas com perspectiva de redução, pois situação é mais delicada. É fundamental que ela publique seu balanço e que mantenha uma relação dívida/EBITDA1 de no máximo 5,5 vezes.

A divulgação dos PMI´s apurados pela empresa Markit foram mistos: na China vieram abaixo do esperado, em 49,2 em março contra 50,7; na Zona do Euro vieram acima do esperado, em 54,1 contra 53,3 em fevereiro. Dados abaixo dos 50 indicam retração industrial e é isso que os chineses devem estar vendo, em sua economia que está em ritmo de crescimento anual de 7%. Já a Zona do Euro já sente os efeitos da melhora da confiança em função do início da nova fase do Quantitative Easing do Banco Central Europeu, que colocará mais de US$ 1,5 trilhões na zona até o ano que vem. Também tem atuado para estimular a economia europeia a desvalorização do euro em relação ao dólar. Em função desse dado positivo, o euro passou a se valorizar e está sendo negociado a US$ 1,10, depois de ter saído, semana passada, perto dos US$ 1,04. Veja o gráfico:

Euro/Dólar (Diário)

Depois de um ciclo de desvalorização de 25%, a moeda dá uma parada e com isso carrega outras moedas, como o Real, que está saindo a R$ 3,13, depois de bater os R$ 3,30. Também interromperam suas quedas as commodities, o dólar em particular. Está saindo a US$ 47,50 o barril do WTI e US$ 55,42 o Brent. O WTI acumula 12% de alta em três pregões e precisa confirmar esse patamar amanhã, quando sairão os dados de estoques nos EUA. Tanto a produção da Arábia Saudita está subindo, como os estoques nos EUA estão aumentando fortemente. Estruturalmente o mercado está com excesso de oferta e pode voltar a cair.

O Banco Central divulgou os dados do setor externo e eles continuam a mostrar uma sangria em nossas contas. O déficit de transações correntes2 ficou em 4,22% do PIB em fevereiro e sua trajetória ainda é claramente “explosiva”.  A alta do dólar já deveria ter revertido a tendência mas não há sinal disso, veja o gráfico:

 

Em função dessa constatação simples, podemos concluir que o atual patamar do dólar ainda é modesto diante da necessidade de ajustarmos o déficit de transações correntes para um patamar estabilizado ao redor dos 2% do PIB. Se isso não ocorrer, o Brasil, por meio de suas empresas, continuará a aumentar a sua dívida junto aos estrangeiros e reduzir sua participação do comércio doméstico e global, transferindo empregos para o resto do mundo.

 

 

 

(1)    EBTDIA é um valor do balanço que mostra a geração de caixa da empresa. A relação Dívida/EBITDA mostra a capacidade da empresa em gerar caixa para pagar seus compromissos financeiros gerados pela dívida. O EBITDA quer dizer Lucros antes dos Juros, Impostos, Depreciação e Amortizações.

(2)    Soma do saldo da balança comercial (exportações – importações) e da de serviços (viagens, juros das dívidas privadas e públicas, dividendos, etc). Quando o saldo é negativo ele tem que ser financiado por capitais estrangeiros, por meio de investimentos diretos e ou de dívidas.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com