Mercados confiantes na semana do FED

A semana termina melhor do que começou, com todos os mercados recuperando sua confiança, após a reunião do Federal Reserve dos EUA, que manteve sua postura de complacência. As tendências subjacentes aos fundamentos, no entanto, continuam reforçadas: as moedas e os preços de commodities ainda devem continuar a cair, já que o dólar vai se manter forte enquanto o "gap" entre o crescimento dos EUA e do resto do mundo se mantiver como está. O IPCA-15 veio mais baixo que o esperado mas confirma a tendência de um IPCA forte, ao redor de 1,35%/1,5% em março.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A semana vai terminando de forma muito melhor do que começou, tanto no Brasil como no resto do mundo. Além de absorver os impactos dos protestos do final de semana passado, o mercado local ainda se ressentiu das quedas globais que serviram de anteparo à reunião de política monetária do Federal Reserve. Com a reunião realizada e confirmando a visão mais complacente da diretoria do banco central, os mercados passaram a se recuperar fortemente. As moedas relaxaram e pararam de se desvalorizar, as bolsas subiram forte, os juros caíram pelo mundo todo e os preços das commodities pararam de cair. O petróleo tipo WTI está sendo negociado acima de US$45. Veja o gráfico do Ibovespa:

IBOVESPA (diário)

 

O Ibovespa caiu de 52,460 para 47,880, nos dias que antecederam as manifestações e à reunião do FED. Agora completam uma alta de 8%, recuperam tudo o que havia perdido. Leve em conta a perspectiva de recessão  (queda forte do PIB em, 2015), de alta da inflação e dos juros, forte crise política, perspectiva de perda da nota de investment grade e queda forte da confiança em função dos escândalos da Petrobrás. Nesse cenário, pouco alentador, o Ibovespa se mantém firme, entre 49mil e 53 mil pontos. A causa dessa “solidez” pode estar associada à desvalorização do câmbio (que barateia substancialmente os ativos nacionais em dólares) e à condução do ajuste fiscal por parte do governo. Mas o grande evento, que mantém os ativos valorizados, sem dúvida, é a política monetária do resto do mundo. Com juros muito baixos (em muitos lugares estão negativos) e liquidez abundante, o espaço para as quedas dos preços dos ativos é reduzido e os mercados vão encontrando sustentação. Isso ocorreu com as moedas e com o petróleo, importantes indicadores do que estou explanando. Veja os gráfico do Euro e do Petróleo WTI:

Euro/Dólar (diário)

 

 

 Petróleo WTI (diário)

Esses preços vinham em queda forte e interromperam-na nos últimos pregões, dando a sensação de que os movimentos de queda podem estar se exaurindo. Dessa forma, o petróleo e o euro podem começar a se recuperar. A postura mais complacente (que dá mais tempo à economia para que ela se recupere antes de começar a alta dos juros) por parte dp FED pode segurar o dólar. Eis a visão que está dominando os mercados de moeda e commodities nesses últimos pregões. E como tenho dito, há um fato monetário nas quedas de preços do petróleo de outras mercadorias: dólar mais caro deixa os ativos mais baratos! Mas nem todas as quedas se devem aos fatores monetários, ao contrário. As quedas ocorrem por conta dos fundamentos e acabam mexendo com os eventos monetários. O dólar está se valorizando porque os EUA vão crescer 3% - 3,5% nesse ano e os outros países desenvolvidos vão comemorar se crescerem mais que 1%. E com crescimento baixo, a demanda por commodities, inclusive petróleo, cresce muito pouco, dando fundamento para a queda dos preços. E sobre o petróleo já tenho falado bastante: a oferta nos EUA não para de crescer e, com ela, os estoques cada vez mais lotados.

Esses desencontros, entre fundamentos ruins e mercados em alta, são reflexos da atuação dos bancos centrais e vão continuar a provocar confusão, sobretudo se pensarmos de maneira convencional. A perspectiva é de manutenção das grandes tendências:  alta do dólar, alta das bolsas e queda dos juros. Aqui no Brasil, a dinâmica interna da política torna tudo ainda mais volátil.

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Apesar de toda a retórica que a precedeu, a reunião entre Alexis Tsipras, primeiro ministro grego, Ângela Merkel, primeira ministra alemã, o presidente da França, Francois Hollande, Mário Draghi, do BCE e Jean Claude Juncker terminou em sorrisos. Apesar da campanha feita pela imprensa financeira, tentando hostilizar a postura grega anti austeridade, Merkel e Tsipras podem ter saído dela realmente mais confiantes. Agora serão necessárias mais algumas reuniões, ainda nesse mês, antes que a Comissão Europeia aprove (ou não) a reformulação do pacote de socorro ao país.

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O IBGE divulgou o IPCA-15 e ele veio desacelerando em relação ao índice anterior. Veja a tabela:

 

 

O índice caiu de 1,33% para 1,24%, com a ajuda dos transportes, despesas pessoais e educação. Mas alimentos e habitação (água e energia elétrica) voltaram a  subir. A minha estimativa para o IPCA 15 caiu de 1,55% para 1,35% e o índice pode chegar a 8,30% em março, no acumulado em doze meses. Ainda é muita inflação e o trimestre acumularia 3,85%. Boa parte de inflação, convém insistir, decorre da super-seca que afeta as condições de oferta de energia e alimentos e da alta do dólar.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com