Semana com FED e expectativas em queda no Brasil.

O FED anuncia na quarta feira a sua avaliação acerca de seus passos na política de juros. As moeda americana acumula valorização de 25% em relação ao euro e isso anima as bolsas europeias, com destaque para a de Frankfurt que está em sua máxima histórica. Aqui os mercados começaram a semana com uma ligeira melhora, mas não devem se sustentar. As expectativas convergem para o meu cenário e o petróleo pode cair abaixo dos US$ 40 nos EUA em algumas semanas.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A semana começa com a perspectiva de continuidade dos principais desafios que têm tomado o foco dos mercados globais: as taxas de juros dos EUA, as desvalorizações cambiais frente ao dólar e a taxa de crescimento do China. No Brasil deveremos continuar a verificar o processo de deterioração do quadro econômico, político e das expectativas.

O Federal Reserve Bank dos EUA reunirá o seu comitê de política monetária a partir de amanhã e anunciará sua decisão na quarta. Os juros básicos estão em 0% desde 2010 e o banco central fez uma maciça emissão de moeda, que chegou aos US$ 4,5 trilhões. Essa combinação de juros zero e explosão monetária configuraram um programa de combate à recessão inédito e que obteve êxito até agora, em que pesem os efeitos colaterais ainda não mensuráveis plenamente1. Para decidir se começa a subir as taxas básicas de juros, a direção FED precisa ter certeza de que a economia suportará essa medida. Em primeiro lugar o sistema de crédito precisa manter-se sólido, servindo às empresas em seu processo de investimentos. Não há certeza absoluta se a mudança dos juros básico venha a manter o mercado de crédito tal como está, ou se poderá tornar esse um grande pesadelo da economia. Uma alta dos juros no mercado de títulos privados pode colapsar tanto a situação patrimonial de vários agentes, como a manutenção dos programas de investimentos das grandes corporações americanas2. Em segundo lugar há a questão do dólar: se a taxa de juros subir o dólar sofrerá um novo processo de valorização em relação às outras moedas globais e isso poderá destruir algumas conquistas corporativas, tornando as empresas americanas menos competitivas e sua força trabalho menos ainda3. E esse é um processo em curso e que tem beneficiado sobretudo a Alemanha. Veja o gráfico do Dólar em relação ao Euro:

 

Você pode notar que a moeda despencou nos últimos meses, da região de US$ 1,4, para os atuais US$ 1,05, com uma valorização de 25%. Essa valorização torna as empresas europeias mais competitivas e isso tem se traduzido em alta forte nas bolsas de lá. A bolsa de Frankfurt está em patamar recorde, veja o gráfico: 

 

O DAX acumula uma alta de 45% em relação à sua média de 52 semanas, mesmo com os conflitos na Ucrânia, os problemas da Grécia e as incertezas em relação ao euro. Por fim, e não menos importante, as consequências desses eventos sobre a recuperação americana pesarão fortemente sobre a decisão a ser tomada a partir de amanhã. O comitê de política monetária tem declarado que será paciente em relação aos seus movimentos no sentido de subir os juros. Por conta da melhora de vários indicadores desde a última reunião, em janeiro, o mercado passou a acreditar que o FED possa antecipar a alta dos juros, e com isso as taxas de juros subiram de 1,6% para 2,10%, acelerando a valorização dólar. Se confirmar essa expectativa do mercado, as taxas podem subir ainda mais e isso pode acelerar a valorização do dólar. Tudo indica que Janet Yellen, a presidente do FED, pedirá mais tempo ao mercado, deixando tudo como está, sem colocar em risco o que foi conseguido até aqui. Mas isso terá curta duração: como o mercado sabe que a alta dos juros é inevitável, se o FED não a aumenta, ele aumenta a volatilidade dos mercados, produzindo o efeito que ele queria evitar. É um equilíbrio delicado...

A China, segunda maior economia do planeta, tem mostrado sinais preocupantes em seu mercado imobiliário e as autoridades do país sinalizam em alguns momentos, com a possibilidade de adotar programas de estímulos. A queda da atividade do mercado imobiliário é de 15% em doze meses. Hoje o mercado passou a apostar nesse pacote de estímulos, uma vez mais, e as bolsas subiram. Xangai subiu 2,5% e atingiu a máxima de cinco anos.

Essa melhora nas expectativas em relação à China colaboraram para uma melhora marginal na Bovespa, que vinha em queda há mais de dez pregões. Uma recuperação chinesa pode estimular a economia brasileira. Mas aqui as notícias não são boas. O IPC-S, índice semanal de inflação da FGV, subiu para 1,49%, sinalizando que a alta da energia terá o impacto que prevíamos. Também estão acelerando a alta os preços dos alimentos, impulsionados pela seca no sul e pela alta do dólar. Veja a Tabela do IPC-S:

 

As expectativas do mercado, informadas pelo BC estão em convergência com as que tenho colocado aqui no Blog:

 

Expectativas do Mercado    Atual   há um mês

IPCA 2015                           7,93%       5,60%

PIB 2015                            -0,78%       1,50%

Dólar                                   3,03           2,93

 

Mantenho a projeção de crescimento dentro do intervalo de -2% / -4%, IPCA entre 8,5% /9,5% e dólar entre R$ 3,20 / R$ 3,50.

Apesar da semana começar positiva no Brasil, os mercados não devem ter uma melhora em relação à semana passada. Vale notar que estamos diante de um cenário de curto prazo no qual o petróleo WTI, negociado nos EUA, pode cair abaixo dos US$ 40. Os estoques estão subindo fortemente e a capacidade de armazenamento está chegando ao limite, em plena estação de frio, que é a de maior consumo. Com a entrada da primavera, haverá queda do consumo e os estoques ficarão insuportavelmente elevados. As apostas de um grupo de analistas, colocam o WTI entre US$ 20 e US$ 30. Vale a pena conferir.

 

 

 

 

(1)  Dentre outras coisas, a política do Quantitative Easing pode ter gerado uma série de bolhas e  não foi capaz de assegurar a recuperação completa do mercado de trabalho, apesar da forte queda do desemprego. Tanto o percentual de pessoal no mercado de trabalho em relação ao total de pessoal fora do mercado de trabalho está ruim, como o comportamento dos salários.

(2)  Sobre o segundo aspecto vale a pena ler o artigo publicado hoje pelo professor de Yale Robert Schiller: http://www.project-syndicate.org/commentary/bond-market-crash-contagion-by-robert-j--shiller-2015-03.

 

(3)  Por seu caráter global, as empresas podem decidir migrar a produção dos EUA para regiões de moeda mais barata. Nessas regiões os salários em dólares são menores e isso compensa a valorização do dólar. Em contrapartida isso aumenta o desemprego nos EUA.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com