A venezuelização do Brasil.

A evolução do cenário político implica em assumir o aumento exponencial das incertezas. A possibilidade da abertura de um processo de "impeachment" contra a presidente a partir dos resultados de segunda feira impõe uma reavaliação do Brasil. A solidez de nossas instituições está se reduzindo e o país está cada vez mais parecido com a Venezuela. Não pelas ações do governo, mas pelo ímpeto da oposição.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Os mercados estão derretendo uma vez mais. As duas causas: lá fora o dólar continua se valorizando contra todas as principais moedas e aqui temos a aproximação do ato pelo impeachment de Dilma Roussef. Ambos eventos fazem com que as ações e o real se desvalorizem e os juros subam com força. Por conta do enorme cerco ao governo, que torna impossível aos agentes a projeção do cenário institucional em um horizonte de médio prazo, o Brasil vai se ˜venezuleando”, o que implica em aumento dos riscos percebidos e queda abrupta da confiança.

Ainda que o processo atual tenha começado meses atrás, na esteira da campanha eleitoral, o acuamento do governo e seus partidos, em torno da promessa velada de impeachment , ele poderá intensificar as tendências de deterioração a partir de domingo. Até agora os principais partidos de oposição (PSDB, DEM e PMDB, ala Eduardo Cunha) estão assegurando que não há proposta de impeachment. Os políticos que defendem de forma mais calorosa a tese defendida pelo advogado e professor Ives Gandra Martins são uma minoria, ainda que barulhenta. As lideranças dos partidos têm repetido o discurso de que o impeachment não é cabível no momento e que devemos esperar. Mas, se domingo as manifestações promovidas por esses mesmos partidos forem um sucesso, colocando alguns milhões de pessoas nas ruas, então haverá, provavelmente, uma guinada nessa posição contida, "em nome do desejo do povo". Alguns analistas asseguram que estamos revivendo o clima que antecedeu o impeachment de Fernando Collor de Mello, mas isso está distante de ser verdade.

impeachment de Collor foi liderado, tal como o atual, por fortes grupos econômicos, a pequena burguesia urbana, com amplo apoio das empresas de comunicação, a mídia. Mas participavam, dando apoio, mesmo que de forma secundária, os partidos de oposição, que na época eram liderados pelo PT. Havia um consenso em relação à deposição do presidente alagoano e, após a sua deposição, as instituições saíram fortalecidas com um presidente amplamente aprovado. Agora a história é completamente diferente e o mercado percebe isso.

Dilma acabou de ser eleita em um processo democrático.  Apesar da forte queda de sua aprovação, quem vai às ruas no domingo não serão seus eleitores. Serão os eleitores da oposição, liderados pela oposição, com apoio de vastos setores empresariais e da mídia. Nada garante que após a abertura do processo de impeachment, os eleitores de Dilma passem um cheque em branco ao novo governo, tal como os eleitores de Collor (eleito com apoio dos mesmos setores urbanos, empresariais e da mídia) fizeram com o simpático Itamar Franco, do mesmíssimo PMDB de Michel Temer. Nada garante que as instituições saiam fortalecidas após a retirada do PT do poder, simplesmente porque o PT acabou de sair de uma vitória eleitoral e porque é muito provável que ele mantenha boa parte do apoio que sempre teve. É razoável acreditar que o PT, e setores que o apoiem, considerem legítimo resistir à tentativa de impeachment e, depois de executado o mesmo, que esse segmento político mantenha uma resistência ferrenha à deposição da presidente. Dilma claramente não é Collor e tampouco o PT é o PRN, minúsculo e falecido partido que entronou o alagoano em um dos mais patéticos mandatos da história política brasileira.

Até o momento o mais provável é que não haja o impeachment, mas as probabilidades de sua ocorrência estão aumentando. No mínimo, a disposição da oposição e da mídia de emparedarem o governo estão escancarados (o Senador Aloísio foi explícito). E esse processo é radical, no sentido de que não haverá um evento que possa reverte-lo. E como isso torna o horizonte político, econômico e social totalmente incerto, vivemos um processo que se assemelha muito mais ao que vivem Venezuela e Argentina, do que viveu o Brasil sob Figueiredo ou Collor. Os atores que clamam pela saída do governo são os mesmos e são os mesmos métodos de atuação. Ainda que não exista nenhuma semelhança entre o Brasil e os outros dois países latinoamericanos, nem em termos da situação econômica, como da política econômica patrocinada por seus governos, essa comparação é inevitável. O Brasil está se “venezuelando”, não porque Dilma tenha adotado as práticas políticas e econômicas de Maduro, mas porque os mesmos setores que lá se embatem com o decante “chavismo”, aqui se levantam para tentar o mesmo com o “petismo”.

 

Em um mundo cada vez mais dominado pelas incertezas quanto ao futuro da economia, que vê o dólar se valorizar fortemente e as commodities despencarem, o Brasil se coloca como um país onde as instituições políticas e econômicas estão soçobrando. Olhando para a frente, esse não parece um processo que se encerre domingo, como em uma partida de futebol. É mais grave do que parece. Pensando em seus investimentos, não faça amor, faça a guerra.   

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com