Medo dos juros nos EUA derruba mercados.

A forte criação de empregos em janeiro e fevereiro mostra a economia dos EUA em ritmo acelerado e isso coloca o mercado em alerta em relação a uma possível elevação dos juros básicos nos EUA. Com isso mercados de ações, moedas e títulos estão em queda, antecipando-se ao ajuste que pode ser disparado pelo Federal Reserve.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Hoje os mercados estão em forte realização ao redor do mundo por conta dos receios acerca dos juros americanos, pelas incertezas em relação à Grécia, aos efeitos da política de expansão monetária do Banco Central Europeu e pelo forte resultado de criação de empregos nos EUA. Enquanto isso, no Brasil, a Lava a Jato domina o cenário, tornando opacos os efeitos dos eventos externos sobre os mercados locais.

Nos EUA, aumentam os temores em relação à possibilidade do FED ser obrigado a elevar os juros antecipadamente. Dados do mercado de trabalho continuam a mostrar a aceleração das contratações, derrubando o desemprego para perto do que pode ser a “taxa natural de desemprego”. Se essa taxa for atingida, dizem os modelos seguidos pela maior parte dos macroeconomista do globo, os salários começam a subir e, com eles, a inflação1. Veja os gráficos abaixo:

 

 

O primeiro gráfico indica o total de empregados urbanos nos EUA. Segundo os dados divulgados na sexta feira pelo Dpto do Trabalho, eles chegaram a 141,1 milhões, com acréscimo de 295 empregos em fevereiro. A economia americana atingiu um patamar de empregos elevado, com uma taxa de desemprego de 5,5%. Hoje foram divulgadas as contratações totais de janeiro e elas atingiram 4,99 milhões. O segundo gráfico ilustra essa tendência de recuperação e ela é que enseja nos agentes a preocupação de que os juros possam subir mais rápido.

Respondendo a essa alta do emprego, e à possível antecipação da alta dos juros por parte do FED, as taxas de juros de dez anos subiram. Elas estavam em torno de 1,60% um mês atrás e agora subiram a 2,15%, veja o gráfico:

Juros dos Títulos de dez anos EUA

 

A alta dos juros, por sua vez acaba por fazer com que o dólar suba em relação às outras moedas globais. Rendimentos  mais elevados dos títulos menos arriscados do mundo são um convite à compra do dólar e venda de qualquer outra moeda. O Euro, moeda que já está em queda por conta da desaceleração da Zona do Euro e da crise da Grécia, passa a ter mais um incentivo à desvalorização com o programa de recompras de títulos soberanos que está sendo implementado pelo Banco Central Europeu. Serão compras de 60 bilhões de euros todos os meses e isso fará com que a oferta de euros aumente em toda a região. Aumentando a oferta de euros a moeda se desvaloriza em relação ao dólar, moeda que já está em alta. Veja o gráfico do Euro em relação ao Dólar:

Euro x Dólar

 

E cada vez que o dólar se valoriza em relação às outras moedas, os preços das commodities e, dólares caem (petróleo, prata, cobre, milho, soja, etc), levando a deflação para dentro dos EUA. Hoje, por exemplo, o petróleo está caindo, com o Brent sendo negociado a US$ 57,34, depois de ter ensaiado uma recuperação acima dos US$ 60 semana passada.

E a Europa ainda tem o problema Grego: os ministros das finanças da Zona do Euro se reúnem amanhã e querem ouvir do ministro grego que o país está fazendo reformas para garantir o pagamento das dívidas dos credores internacionais. Mas Varoufakis, o ministro grego, não tem o que mostrar aos seus colegas, já que o governo atual está comprometido em tentar recuperar a economia que  ficou em frangalhos após anos de austeridade. Essa “surdez” dos ministros da Zona do Euro não é compartilhada nem pelo FMI e, tampouco, pelos EUA. O colapso da economia grega pode contaminar ainda mais o ambiente global que vai acumulando riscos em direção à queda do crescimento. E quanto mais a política se mostra incapaz de acomodar essas contradições, tanto mais as moedas vão se desvalorizando, tanto mais essas desvalorizações espalham ao redor do mundo mais deflação e menos crescimento. Eis aí um dos motivos pelos quais os mercados estejam em queda, depois de terem experimentos topos históricos.

No Brasil, vítima da super-seca e de uma desvalorização que ultrapassa os 40% em sete meses, a crise política empurra ainda mais para baixo a confiança dos empresários e das famílias, que já são vítimas passivas da inflação,  da queda da demanda e do ajuste fiscal. A única coisa, talvez, que tenha segurado um pouco mais os preços das ações é a forte desvalorização. Com a queda dos preços em dólares, os ativos brasileiros encontram um colchão para sua queda em reais. Mas ainda há muito a piorar antes que possamos ver uma luz no fim do túnel.

 

 

 

 

(1)    – A taxa de desemprego natural foi proposta nos anos 1960 por Milton Friedman e é uma oposição ao conceito da NAIRU (Non-Accelerating Inflation Rate of Unemployment). Nesse período houve intensa discussão e ela pode ser revista no artigo de James Tobin: http://cowles.econ.yale.edu/P/cd/d11b/d1150.pdf .

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com