Cenário em contínua deterioração.

O mercado continua a corrigir os preços dos ativos brasileiros após a "lua de mel" com Joaquim Levy. O forte impacto da "lista de Janot" sobre o PMDB e o PP aumentam a percepção de perda de apoio parlamentar por parte do governo. Além disso os fundamentos estão piorando, com as expectativas inflacionárias caminhando na direção de nossa aposta: inflação próxima de 8,5% e queda do PIB a partir de 2%.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Os mercados começam a segunda semana de março azedando um pouco mais o ambiente, promovendo um novo ajuste na bolsa, nos juros e no dólar. Todos correm no rastro da crise política e da deterioração dos fundamentos econômicos. Vale notar que os juros praticados para 2021 sofreram hoje nova correção, depois de despencar quase 1% no meio de fevereiro por conta do “ajuste fiscal”. Ao receber o pacote de cortes orçamentários realizados por Levy, o mercado elevou sua confiança no ajuste fiscal e viu nele a saída dos males nacionais. Agora, mesmo com o ajuste fiscal em andamento, o mercado espanta-se com a alta dos preços, com a queda do nível de atividades e com o recrudescimento da crise política. Veja o gráfico dos juros para 2021:

DI Janeiro 2021 (diário)

A alta dos juros, que já chega a 1%, acaba por fazer com que o sistema de crédito reduza sua oferta de recursos à sociedade e impõe uma queda do valor dos ativos reais. Com isso, a demanda por bens duráveis (novos investimentos das empresas e aquisição de imóveis e automóveis pelas famílias) despenca mais um pouco, fazendo aumentar a velocidade da queda livre de nossa economia. No pacote, cumprindo um papel desagradável no curto prazo, a alta do dólar pressiona as empresas endividadas e faz com que a inflação suba. Todos os bens e serviços que podem ser importados/exportados têm seus preços elevados e isso reduz o poder de compra dos trabalhadores. Veja o gráfico do dólar comercial:

Dólar comercial (mensal)

Veja que o dólar comercial disparou nos últimos sete meses, produzindo uma desvalorização acumulada de quase 40%, sendo que 1/4 desse montante está ocorrendo em março. Todos os preços de bens e serviços que estejam influenciados pela moeda estrangeira subirão com força, com já têm subido. São candidatos os alimentos baseados no trigo, milho, soja, carnes e fertilizantes; vestuário, energia, combustíveis e viagens, em uma lista resumida. Com a necessidade de produzir uma mudança efetiva na taxa de câmbio real, impedindo que a inflação se espalhe para outros produtos, o BC deve subir ainda mais os juros. E ganha importância essa análise com a verificação de que a alta da energia elétrica vai mesmo afetar os preços de fevereiro, tal como coloquei no Blog de 03/mar : http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/03/com-aumento-de-energia-inflacao-pode.html . A inflação de fevereiro, medida pelo IPCA do IBGE veio acima das expectativas do mercado e tudo indica que a de março também baterá as estimativas iniciais de 0,95%. O IPC-S mostrou forte aceleração dos alimentos e da energia, veja o gráfico e a tabela abaixo:

 

Os alimentos haviam desacelerado a alta de 0,95% para 0,77% na semana retrasada e voltaram para alta de 1,11% na semana passada. Pesaram sobre essa alta a menor queda dos hortifrutigranjeiros. A energia já fez com que o item habitação subisse de 0,90% para 1,75% e isso absorveu apenas 1/3 da alta das tarifas de energia, que atingiu 25% nesse mês. Tudo indica que ainda veremos o cenário piorar por mais tempo. Hoje as expectativas de inflação tomadas pela GERIN do Banco Central subiram de 7,47% para 7,77% e as para a taxa de crescimento desse ano de -0,58% para 0,66%. Mantenho as projeções de inflação medida para o IPCA de 8,5% e para o PIB de -2% a -4%.

E antes que deixemos as coisas internas tomarem o monopólio dos eventos, vale lembrar que o Euro também derreteu, assim como a maior parte das moedas globais. Para o mesmo período analizado, a moeda eurpeia sofreu desavalorizçaão de 22%. A crise brasileira ocorre em um momento de grandes mudanças globais. 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com