Com aumento de energia, IPCA pode chegar a 9% em março

Com o aumento autorizado pela ANEEL de 25% na energia já em vigor, a inflação nacional poderá atingir 1,5% em março e 9% no acumulados em doze meses. Esse é um evento que retira qualquer possibilidade do BC relaxar suas altas na taxa SELIC e demandará uma ajuste adicional nos juros que o mercado está praticando.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A ANEEL, agência responsável pelo setor energético do Brasil, anunciou no final de semana os aumentos autorizados para diversas distribuidoras e que passam a valer para o mês de março. Desde ontem as tarifas de energia elétrica estão mais caras em 25%, em média, em todo o Brasil. Feitas as ponderações relativas ao índice, é possível afirmar que o efeito isolado dessa alta sobre o IPCA de março será de 0,75%, o que pode levar o índice até os 1,50%. Nesse caso, a inflação pode atingir até 9,2% em março no acumulado de doze meses. Veja o gráfico:

 

Para a evolução do índice de inflação a partir das expectativas do mercado para fevereiro (1,07%) e março (0,95%), a inflação chegará em março aos 7,57%. Mas se considerarmos a projeção de 1,23% para fevereiro e 1,55% para março o índice rompe os 8,4% em fevereiro e bate 9,21% em março. Depois, seguindo as expectativas do mercado a inflação cai para o teto da meta (6,5%) em fevereiro do ano que vem (cenário do mercado) ou em maio (nosso cenário).

De qualquer forma, um por cento a mais ou a menos, a inflação seguirá uma dinâmica de elevação ao longo das próximas semanas, impulsionada pela alta da energia. A alta da energia, por sua vez, joga os custos das empresas para cima e os salários para baixo, o que pode virar um pouco mais de inflação ou menos atividade econômica (mais que da PIB!). No primeiro caso a queda da atividade econômica é menor, mas a inflação maior e no segundo temos a aceleração queda livre da economia. De qualquer forma, essa alta joga por terra qualquer argumento para a interrupção das altas dos juros básicos pelo BC: tanto a inflação corrente como as expectativas estarão em queda e uma mudança de atitude do BC poderia resultar em queda da credibilidade na política monetária e esse tipo de coisas a atual equipe não tolera. Os juros que estavam caindo voltaram a subir e isso, por sua vez, desorganiza o mercado bancário, que reduz a oferta de crédito, agilizando ainda mais a queda da demanda por bens duráveis.

E falando em bens duráveis, a FENABRAVE anunciou que fevereiro teve uma queda de 26,7% das vendas de automóveis em relação a janeiro e acumula queda de 23% em 2015. A bem da verdade, houve uma queda substancial dos dias úteis de fevereiro em relação a janeiro, já que tivemos o carnaval e o número de dias úteis foi de 18 (contando a quarta feira de cinzas). Como janeiro teve 21 dias úteis, houve queda de 15% dos dias úteis, o que impacta as vendas. Em relação a fevereiro do ano passado a queda também foi de 15%, já que o carnaval de 2014 caiu em março. Ainda assim, descontados os efeitos do calendário, as vendas caíram cerca de 8% em um mês, confirmando o cenário de renda, crédito e confiança dos consumidores em queda. A expectativa da FENABRAVE é de que as vendas do setor automotivo possam fechar o ano com queda de 22%, considerando aí caminhões e tratores. É pouco provável que os dirigentes do setor tenham errado a queda para menos.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com