The Economist foi até generosa.

A aposta na austeridade é como enxugar gelo e quem paga a conta são os contribuintes mais dependentes de empregos e de pequenos negócios. Sob essa ótica The Economist errou, não estamos em um atoleiro, estamos na areia movediça. Vale lembrar ao leitor que o que nos levou ao Grau de Investimento foi a taxa de crescimento, E é justamente ele que pode nos roubar, novamente, a nota das agências. O governo ao tentar nos "salvar", mexendo-se demais, está nos afundando lentamente.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Ontem um artigo da revista The Economist utilizou-se do tradicional sarcasmo inglês para avaliar o derretimento de nossa economia. O título foi “O atoleiro do Brasil”. Mas não há o que não saibamos em relação à nossa economia que o colunista tenha acrescentado. Em meio à desaceleração global perdemos o impulso gerado pelos altos preços de commodities e ainda temos a situação agravada pela enorme crise política que está paralisando o país. O governo, ao tentar recuperar a confiança dos mercados está, na verdade, colaborando ativamente para afundar ainda mais nossa economia. A revista cita em seu artigo as expectativas médias do mercado em relação ao crescimento de 2015: queda de 0,5% do PIB e alta inflação. Quem acompanha o Blog já sabe que estou bem mais pessimista, vendo uma queda potencial de 2% a 4% e a inflação indo a um patamar superior a 8%.

Nesse ambiente, o anúncio de novas medidas de austeridade, por parte da equipe econômica, podem ter melhorado o humor do mercado financeiro, mas serão mais uma enorme pedra no pescoço de um afogado. Para aumentar o superávit primário e cumprir sua meta de 1,2% do PIB nesse ano, o ministério da fazenda está aumentando as alíquotas de contribuição previdenciária incidentes sobre as folhas de pagamento dos trabalhadores. Além de desincentivar o trabalho formal, o aumento dos impostos poderá afetar a demanda da economia por dois caminhos: pelos aumentos de preços (quando as empresas puderem repassar o aumento de custos aos seus preços finais) ou pela queda do emprego formal. Ao reduzir ainda mais a demanda (que já está em queda), o governo derrubará a arrecadação de impostos e a sua meta de equilíbrio fiscal pode não se cumprir. É exatamente por isso que tentar obter o equilíbrio fiscal, em situações de recessão, piora-se o quadro fiscal de um país e não o contrário. Mas o que leva uma equipe consagrada e competente a essa medida aparentemente tão sem sentido? A visão disseminada em nosso país é a  de que a austeridade fiscal é o maior incentivo ao crescimento econômico. É assim que o economista brasileiro, em média, pensa, ao menos depois dos anos 1980. Por essa forma de pensar, a austeridade fiscal mostra aos mercados que o país se esforça para estabilizar, ou até mesmo reduzir, sua dívida, e isso leva à redução das taxas de juros. A redução das taxas de juros, por sua vez, leva os empresários a investirem, já que o volume de investimentos realizados na economia é inversamente proporcional às taxas de juros praticadas nos mercados. Com investimentos em alta, os empregos começam a surgir, cresce a renda dos consumidores e a economia vive um ciclo virtuoso. E em que país isso deu certo? Em nenhum. Ao contrário, todas as evidências históricas apontam para a conclusão de que apertar o lado fiscal quando a economia está em queda livre só piora a queda da economia e leva o déficit ao colapso. E que o leitor tenha claro que o déficit público não é uma entidade mágica: em situações onde há crescimento econômico o mais correto é permitir que o superávit aumente e que a dívida seja reduzida, posto que a arrecadação sobe; o aumento do superávit permite que haja uma força contrária ao aumento de preços. Mas quando a economia está em queda isso não é verdade. No Blog eu já discuto isso de forma recorrente e cito o “post” de 29/12/2014, http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/12/levy-reafirma-um-forte-aperto-em-2015.html , e o artigo do professor de Oxford, Simon Wren-Lewis, “The Confidence Con”, http://www.lrb.co.uk/v37/n04/simon-wren-lewis/the-austerity-con .

A falta de confiança dos mercados é venenosa para uma economia como a nossa, fortemente exposta aos mercados financeiros globais. Mas tentar comprar essa confiança por meio de um programa de austeridade é contraproducente e levará nossa economia a um  pântano muito pior do que o citado por The Economist. Segundo o Valor, o montante que o governo abriu mão com a desoneração no ano passado foi de R$ 21,6 bilhões . Se essa informação estiver correta (eu não a conferi, o que é temerário!), e assumindo que o governo consiga recuperar metade do que “perdeu” no ano passado, a medida provisória 669 trará ao caixa do tesouro pelo menos R$ 10 bilhões. Digamos que esses R$ 10 bilhões retirados da economia tenham um efeito multiplicador1 baixo, de 1,3 ou 1,5; então os efeitos negativos sobre a demanda total da economia seriam da ordem de até 15 bilhões. Apenas essa medida já trará uma contração da demanda de 0,3% ao longo do ano. A estimativa de queda do PIB de até 2%, na ausência do racionamento de água e energia está cada vez mais sólida. As ações do governo no sentido da austeridade e a enorme desordem causada pela crise política e pela operação lava a jato estão fazendo o artigo de The Economist parecer otimista demais.

Sobre a lava a jato, em particular, vale lembrar que os investimentos da Petrobrás foram de R$ 80 bilhões nos anos anteriores e devem cair em 2015. A empresa está paralisada e podemos projetar uma queda de até 50% em seus investimentos nesse ano. Se ela reduzir seus gastos nesse montante e considerando um efeito multiplicador de “apenas” 1,5, a queda total da demanda agregada pode chegar a R$ 75 bilhões. “Apenas” a Petrobrás pode contribuir com uma queda da demanda agregada de 1,4%.

Mas, para o regozijo do mercado, o BC anunciou que o setor público voltou a poupar em janeiro, depois de vários meses de déficit primário. Mesmo com a arrecadação em forte queda, no mês de janeiro houve um superávit primário de R$ 22,1 bilhões, com a União fazendo R$ 10 bilhões. Os Estados R$ 10 bilhões e municípios R$ 0,4 bilhão. No acumulado de 12 meses há um déficit de R$ 31,4 bilhões, coisa de 0,61% do PIB. A dívida líquida do setor público ficou em R$ 1,9 bilhões (38,6% do PIB) e a dívida bruta R$ 3,3 trilhões ou 64,4%. Veja o gráfico da evolução da dívida brasileira:

 

Após cair continuamente de 2009 até janeiro do ano passado, ela subiu 3%. E subiu por conta do crescimento negativo do ano passado (a dívida sobe à velocidade dos juros), do aumentos dos juros da dívida pública e do déficit primário de 0.6%. O mercado reagiu positivamente e as taxas de juros para 2021 caíram de 12,90% para 12,20%, o que representa um ganho de 2,5% para quem tem títulos com esse prazo. É um incentivo aos investimentos ao baixar os custos de capital e viabilizar projetos de remuneração compatível. Mas a pergunta que desmonta a frágil lógica da austeridade é “quem vai investir agora com as projeções mostrando mais queda da atividade?”. A resposta é clara: ninguém! Ao contrário, tanto faz as taxas caírem ou não, os empresários estão fugindo dos investimentos. Todas as empresas, em suas conferências sobre resultados mais recentes, feitas para o mercado, anuncioam a redução dos custos e do CAPEX (são as despesas com investimentos!) como forma de sobreviver à queda das receitas.

Agora o governo tentará desesperadamente estabilizar a relação dívida/PIB. Mas a dívida/PIB depende do superávit primário, dos juros e do crescimento. Com uma estimativa de crescimento negativo e com os juros subindo, o esforço que se exige no lado fiscal é enorme. Mas, quanto mais se aperta no lado fiscal, mais a economia afunda, mais a relação dívida/PIB piora. Essa é uma boa experiência para entender o que acontece na Europa e que aconteceu em nosso país nos anos 1980, 1990 e 2000. Olhando o gráfico você pode observar que, apesar de todo o enorme esforço fiscal e de todo o gigantesco programa de privatizações, a dívida/PIB ficava entre 55%/65%. Essa aposta na austeridade é como enxugar gelo e quem paga a conta são os contribuintes mais dependentes de empregos e de pequenos negócios. Sob essa ótica The Economist errou, não estamos em um atoleiro, estamos na areia movediça. Vale lembrar ao leitor que o que nos levou ao Grau de Investimento foi a taxa de crescimento, E é justamente ele que pode nos roubar, novamente, a nota das agências. O governo ao tentar nos "salvar", mexendo-se demais, está nos afundando lentamente.

 

 

 

 

(1)    Os aumentos/redução de gastos dos agentes econômicos têm efeitos multiplicadores. A cada aumento de R$ 1 no gasto de um agente (em consumo, em investimento ou em gastos dos governos) há um aumento dos gastos totais na economia maior do que R$ 1. Para o Consumo e os Investimentos esse multiplicador pode ser maior que 2. Para gastos do governo há economistas que pensam que ele é menor do que 1 (mas não há evidências empíricas nesse sentido) e economistas que acreditam que ele é tão poderoso quanto os dois outros.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com