O setor externo ainda não se estabilizou. Petrobrás rebaixada piora cenário.

O saldo de transações correntes ficou em -4,17% em janeiro e estabilizou-se em um nível insustentável para o longo prazo. A queda livre de nossa economia e a desvalorização cambial devem fazer a correção nesse setor. A dívida externa privada, no entanto atingiu US$ 409 bilhões, dos quais US$ 107 estão protegidos por swaps realizados pelo BC. Os custos desses swaps para o Tesouro Nacional foram da ordem de R$ 22 bilhões de janeiro para cá. Esse cheque dado para as empresas endividadas em dólares é cerca de 1/4 do ajuste fiscal levado a cabo por Joaquim Levy. Além de amargar a inflação de 8%, o aumento do desemprego e a piora das perspectivas, o contribuinte ainda garante o sono dos endividados em dólares.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O Banco Central divulgou ontem os resultados do setor externos de janeiro e a situação continua a piorar, com o saldo de transações correntesa piora das ´perspectivas,  aumentando, mesmo com a forte desvalorização cambial e mesmo com o derretimento da economia brasileira. Veja o gráfico da evolução do déficit de transações correntes como proporção do PIB:

 

Apesar de janeiro estar ligeiramente abaixo de dezembro ( -4,17% x -4,19% ) os números anteriores foram revisados para cima, posto que o PIB também foi revisado para baixo. Quanto mais o PIB cai, mais a relação Déficit/PIB piora. A tendência, no entanto, é a de que o saldo em transações correntes, que define a sustentabilidade de longo prazo do setor externo de país, tende a melhorar ao longo do ano já que a taxa de câmbio está se desvalorizando (e isso melhora o saldo comercial, por incentivar exportações e inibir importações) e a atividade econômica está em queda livre (o que pressiona os produtores locais a recorrerem aos mercados globais e diminui as importações). Há um lapso de tempo para que esses dois fatores atuem sobre o saldo de transações correntes, mas ao longo desse ano veremos a curva do déficit se inverter. O importante é que o setor externo nos diz que tanto câmbio e crescimento não estavam compatíveis com a dinâmica do saldo de transações correntes.

Apesar do número ainda ruim, o nível de Reservas Internacionais garante tranquilidade na administração do setor externo. O Brasil possui reservas de R$ 360 bilhões e a tendência é a de que o BC pare de vende-las para estabilizar o câmbio, como vinha fazendo desde o meio do ano passado. Nesse período o BC fez venda sob a forma de linhas com recompra para atender às demandas do setor privado, no valor de US$ 10 bilhões.

A dívida privada subiu para US$ 409 bilhões, sendo US$ 207 bilhões em dívidas normais e US$ 202 bilhões em empréstimos interempresas (as matrizes no exterior emprestam às suas filiais no Brasil). Desse total, segundo as posições de 31/12/2014, o BC havia fornecido swaps no montante de US$ 107 bilhões. Levando em conta a taxa de câmbio atual de R$ 2,87 e a de 31/12/2014, de 2,6562, o BC transferiu dos cofres do Tesouro para os balanços do setor privado cerca de R$ 22 bilhões, ou o equivalente a ¼ do ajuste fiscal em curso. A justificativa para essa transferência é a de que é necessário evitar a volatilidade do câmbio, mas seu preço é suficientemente amargo para colocarmos essa estratégia em questão. Se de um lado o BC acumula reservas, recebendo os juros internacionais por sua remuneração (2% a.a.), pagando os juros da dívida pública por elas (algo como 13% nos dias atuais). Para dar um travesseiro macio ao sono dos agentes endividados em dólares, o contribuinte ainda é chamado a comparecer com um cheque de R$ 22 bilhões, apenas nos primeiros dois meses do ano. A conta é um tanto assimétrica se considerarmos que os mesmos contribuintes estão sendo esmagados pelo DEVER DE CASA imposto pelo mercado e levado a cabo por Joaquim Levy. Além do derretimento da economia, da inflação de 8% e da elevação do desemprego, o brasileiro médio ainda arca com o risco assumido pelos agentes que estão recebendo vantagens significativas nesse cenário. Tal como na Europa (ou em qualquer lugar a qualquer tempo) a AUSTERIDADE é um discurso duro, mas serve para ser  jogado nas costas dos outros. O nosso capitalismo fornece todos os incentivos para a especulação e custos enormes para a economia real.

O rebaixamento da Petrobrás fez com que as ações da empresa despencassem cerca de 7% mas ainda não marcam o fim da empresa. O fato de ser considerada investimento de risco elevado a afasta do mercado internacional de crédito, mas isso pode forçar o governo a aumentar o seu capital no caso do caixa cair significativamente. Nesse caso os acionistas minoritários seriam os mais prejudicados, colocando a perspectiva de queda dos preços das ações como evento mais objetivo do que a queda dos títulos da dívida da empresa.

Considerando o anúncio de que a arrecadação do governo continua caindo (em janeiro caiu novamente) e que os eventos ligados à operação lava a jato ainda continuam  a exercer seus efeitos sobre a economia real, o derretimento da economia brasileira no primeiro trimestre deve marcar alguns recordes em nossa história econômica. Colaboram para ele o “blackout” do setor de transportes e a contínua alta dos preços. Deve piorar muito até que as coisas melhorem, mas isso, em grande medida já poderia ser visto: http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/07/adeus-ao-crescimento-ate-2017-ficaremos.html. A expectativa de crescimento para 2015 já mudou, e para pior: uma queda entre 2% e 4% a depender dos impactos da seca sobre o fornecimento de energia e água na região Sudeste/Centro Oeste.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com