Inflação em doze meses ficará acima de 8% em fevereiro.

Com a divulgação do IPCA15 pelo IBGE é possível estimar que o IPCA de fevereiro atinja 1,5% no mês e 8,05% no acumulado de doze meses. Apesar da queda dos juros, por conta do anúncio de que o PMDB apoiará as medidas de austeridade, não é imagino o BC interrompendo a alta dos juros tão cedo. A seca e o câmbio estão empurrando a inflação para cima.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Hoje o IBGE anunciou o IPCA-15 de fevereiro, com preços coletados entre 15 de janeiro e 15 de fevereiro, e ele veio em 1,33%, depois de ter subido 0,89% no mês anterior. Os principais responsáveis, como sempre, foram os aumentos de energia, água e transportes (gasolina e transporte coletivo). Somente os alimentos desaceleraram a alta no período. Veja a tabela do IBGE:

Somando as altas de alimentos, energia elétrica e transportes, atingimos 0,9% ou 68% da variação total do índice no período. Outro índice que pesou foi o de educação, que saltou de 0,01% para 0,28%. Esse item, no entanto, deve contribuir apenas em fevereiro, mantendo-se estável pelo resto do ano. Veja o gráfico com o comportamento do IPCA-15:

Com esse número parcial, e com os dados da terceira semana do IPC-S da FGV, estimo que o IPCA de fevereiro atinja um patamar entre 1,35% e 1,55%, podendo levar a inflação acumulada em doze meses a um intervalo entre 7,8% e 8,05%

Curiosamente, mesmo com um número extremamente salgado, o mercado derrubou as taxas de juros mais curtas. Veja o gráfico dos juros para 2017: 

Juros para 2017

Como pode ser notado, os juros estavam ao redor de 13% no final do ano passado, com o IPCA esperado pelo mercado na casa de 6,5%. Eles caíram até 12,26% porque Dilma Roussef nomeou Joaquim Barbosa e o mercado passou a apostar que as medidas de austeridade sugeridas pelo novo ministro iriam aumentar a confiança dos mercados e isso, num passe de mágica, iria reduzir a inflação para o ano de 2015. Ocorre que entre esse momento e o atual, a inflação corrente saltou de 0,78% para os atuais 1,5% e não há expectativa de que ela se desacelere significativamente até o final do ano. Ao contrário, espera-se que a inflação continue longe da meta até 2016. E foi por isso que os juros subiram novamente: o BC continuou a subir os juros e a sinalizar que continuaria a fazê-lo por mais tempo. E eles subiram até 13,3%, para cair hoje aos atuais 12,99%. Essa queda de hoje é resultado da “fadinha da credibilidade”1: com o anúncio do PMDB que apoiaria as medidas de austeridade propostas pelo governo, o mercado passou a acreditar que a inflação poderá cair. E ela cairá porque muitos acreditam que a inflação é muito afetada pelas expectativas em relação ao futuro, sobretudo no que diz respeito à política fiscal. Mas é pouco provável que o mercado esteja dando importância ao fato de que a inflação atual resulta de super-seca que elevou os preços de energia e alimentos e da forte desvalorização cambial.

Independente do credo que o leitor siga, uma coisa é certa: a inflação continuará a causar danos em nossa economia e sua desaceleração será temporária. A promessa de mais um ano super seco e de racionamento de energia e água praticamente garante um crescimento em queda livre e preços na estratosfera. Esse novo dado de inflação reforça minha crença de que os juros básicos continuarão a subir para se estabilizar entre 13,5% e 14%.

 

 

 

(1)    Esse termo foi cunhado pelo economista americano Paul Krugman e se refere aos efeitos das políticas de austeridade sobre as condições econômicas. Segundo o credo seguido por algumas correntes econômicas (aqui no Brasil elas são majoritárias) a austeridade é uma solução para problemas de crescimento, desajuste fiscal e inflação. Mas essas teses são para lá de contestáveis. Sugiro a leitura: http://www.lrb.co.uk/v37/n04/simon-wren-lewis/the-austerity-con , texto escrito pelo Prof Simon Wren-Lewis, de Oxford. 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com