Janet Yellen e Grécia ditam o mercado na semana

A semana terá forte influência da continuidade dos efeitos positivos do acordo da Grécia e da expectativa em torno dos discursos de Janet Yellen no Congresso dos EUA amanhã e depois. Aqui no Brasil a inflação medida pela FGV desacelerou na terceira semana do mês mas deve fechar acima dos 0,8%. A continuar assim, a projeção de inflação superior a 8,5% não é tão exagerada.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A semana terá como dois eventos principais: a acomodação dos mercados de ações e dívidas da Europa, em função da extensão do socorro financeiro da Grécia por mais três meses, e o discurso da presidente do FED, Janet Yellen, no Congresso dos EUA, amanhã e depois. O primeiro evento é positivo e abre espaço para uma interrupção na desvalorização do Euro frente ao dólar, ao passo que o segundo deve trazer sinais da presidente do banco central sobre suas intenções em elevar ou não as taxas de juros nos próximos meses.

A Grécia conseguiu, depois de uma intensa negociação junto aos políticos europeus, estender o programa financeiro de ajuda,  obtido em 2010 junto à Troika (BCE, Comissão Europeia e FMI), por mais quatro meses. Ele venceria nessa semana e implicaria na manutenção do programa de austeridade imposto ao país e que levou a sua economia à ruína.  Se não conseguisse rolar o acordo, o governo país não teria dinheiro para realizar seu orçamento e isso implicaria em sair da Zona do Euro. Ainda que fosse claro para todos os dirigentes da Zona do Euro que Alexis Tsipras, o primeiro ministro da Grécia, não poderia aceitar os termos impostos pela Alemanha, já que foi eleito para renegociá-los e terminar com as políticas de austeridade impostas no âmbito do acordo, os dirigentes insistiram em manter a austeridade como ponto principal e isso levou as incertezas ao grau máximo até os momentos finais da reunião de sexta feira. Com apoio do FMI e incentivo dos EUA, uma postergação do acordo permitirá que o país respire por mais alguns meses e tente alinhavar um novo acordo mais sensato juntos às lideranças europeias. Diante dessa possibilidade o euro pode parar a trajetória de desvalorização que vinha tendo há meses. Veja o gráfico abaixo:

Euro (diário)

 

Após se desvalorizar mais de 20% nos últimos meses, a moeda europeia pode parar um pouco, permitindo que o dólar para de se apreciar e, talvez, ajudando a estabilizar os preços das “commodities” como o petróleo, o minério de ferro e as agrícolas. Além disso, a estabilização do euro ameaça menos os EUA no sentido de permitir a continuidade do processo de expansão de sua economia e a futura normalização da política monetária, que mantém US$ 4,5 trilhões de oferta monetária no país e juros básicos em zero.

A forte valorização do dólar frente às outras moedas está produzindo uma pressão contrária à recuperação da maior economia do planeta e internalizando nela a desaceleração que atinge a Europa e os países emergentes. A valorização média do dólar frente às moedas de seus parceiros comerciais foi de 20% desde o início do ano passado. Veja o gráfico da cesta de moedas dos parceiros comerciais frente ao dólar:

 

E era por essa influencia na economia americana, que tanto o secretário do tesouro dos EUA, como os diretores do FED “torciam” por um acordo com a Grécia: para evitar que o euro continuasse a despencar e a levar à economia americana mais DEFLAÇÃO. Para estabilizar a sua política monetária Janet Yellen precisa que o setor externo não contribua tão negativamente como vem contribuindo. A meta do FED é frear a deflação e levar a inflação aos 2% anuais e recuperar o mercado de trabalho, que ainda mostra sinais de fraqueza. A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária  sinalizou que os diretores do banco central estavam preocupados com esse comportamento do setor externo e sua influência sobre a recuperação da economia, necessária para a normalização da política monetária.

A partir de amanhã Janet Yellen falará ao Congresso dos EUA sobre o estado atual da economia e seus planos para o futuro próximo. Esse discurso é parte da política do banco para sinalizar claramente sua política à sociedade e, com isso, influenciar nas decisões dos agentes na direção de sua política. Yellen dirá ao Congresso, e à sociedade, se a economia americana já tem condições de sair da UTI. Sair da UTI significa que os juros começarão a subir de volta ao seu patamar normal, por volta de 3,5% - 4%, e que a oferta monetária cairá de US$ 4,5 trilhões para o patamar de US% 800/900 bilhões. E a diretoria do FED tem o claro receio de que essa reversão pode derrubar fortemente os mercados acionários, apreciar ainda mais o dólar, elevar explosivamente os juros para as empresas e famílias e, com tudo isso, jogar a economia americana novamente da Grande Recessão.  Pelo comportamento atual dos mercados (bolsa, câmbio e juros) a aposta dos agentes é de manutenção dos juros baixos e da alta liquidez por mais tempo. E isso ocorre por que Yellen tem insistido na manutenção da palavra “paciência” no parágrafo da ata que se refere às próximas ações da autoridade monetária.

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A FGV anunciou o IPC-S da terceira semana de fevereiro e ele se desacelerou de 1,63% para 1,27%. Veja a tabela e o gráfico:

 

Influenciaram na queda a alimentação,                que caiu de 1,38% para 0,95% e habitação, de 1,38% para 1,11%. Apesar da queda, o índice permanece em patamar elevado e deve terminar o mês, segundo o coordenador da pesquisa, Prof Paulo Pichet, em 0,8%. Isso se a gasolina e o etanol pararem de subir. Caso contrário, o índice poderá vir mais elevado. Se em janeiro o IPC-S fechou em 1,73%, vindo em 0,8% em fevereiro ele acumulará 2,54%. Para fechar em 8,5% os índices mensais não poderiam vir, em média, maiores que 0,56%. Tudo indica que a inflação desse ano será mesmo maior que a de 2014 e estourará o teto da meta do Banco Central, de 6,5%. Mesmo com o enorme choque de oferta originado na super-seca e nos efeitos da desvalorização cambial, o mercado continuará jogando toda a culpa no BC e na política fiscal.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com