Juros correm atrás da inflação. O mercado está atrás da curva.

A Fipe mostrou a primeira semana dos preços em São Paulo com alta de 1,78%. Os impactos violentos da seca e da desvalorização cambial cobram seu preço e mostram que o mercado estava menosprezando sua intensidade. Tanto o IPCA será muito maior do que o projetado como o PIB cairá mais do que esperam os analistas ouvidos pelo BC. Com quase 40% do tempo de chuvas terminado, os reservatórios estão na metade da capacidade do ano passado. Entraremos em maio com reservatórios mais baixos que no ano passado e o racionamento é uma certeza. Com essas informações em mãos, juros, câmbio e expectativas de inflação devem andas ainda mais. A política de austeridade adotada por Levy se comprova como uma temeridade.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A Fipe divulgou hoje a inflação da primeira semana em São Paulo e, sem novidade alguma, ela veio em alta. Alimentos, habitação e transportem responderam por 80% da forte alta de 1.78%. Veja o quadro e o gráfico da Fipe:

 

 

Tal como o acompanhamento semanal feito pela FGV, a inflação ao consumidor reflete os impactos violentos da seca e da desvalorização cambial. O que está turbinando essa inflação é um evento que pouco pode ser atenuado pelo governo, em qualquer esfera e cobrará um preço na queda do PIB desse ano: pela queda da renda real das famílias, pela queda dos lucros por conta dos aumentos de custos, pela queda da oferta em decorrência da forte alta dos preços e, na hipótese mais extrema, pelo racionamento de água e energia elétrica.

O mercado foi cauteloso ao precificar esse evento, seja na sua projeção de crescimento para 2015, seja nas suas projeções de inflação. Veja o gráfico da projeção de inflação para 2015:

 

Em outubro do ano passado a inflação esperada ainda estava entre 6,20 e 6,40; ela só saltou efetivamente a partir do meio de janeiro quando se esboçou de forma mais acentuada a repetição piorada do quadro de seca de 2014 para 2015. A situação do armazenamento dos reservatórios para geração de energia continua alarmante: Norte 36,55% x 80,92% (2014) , NE 15,97% x 42,13% , SE/CO 17,24 x 34,61%. Já o armazenamento para a Região Metropolitana de São Paulo, apesar de ter subido para 17%, é metade que foi no ano passado. Como estamos no meio de fevereiro, já foi 38% do tempo de chuvas e ainda estamos com os reservatórios pela metade. Com a chegada da seca em maio, que poderá durar até outubro ou novembro, os reservatórios voltam a cair, tornando os racionamentos mais do que prováveis.

Do ponto de vista da taxa de crescimento o mercado também foi mais cauteloso:

 

Nas últimas semanas apenas é que o mercado aproximou o crescimento esperado para perto de zero. Mas essa projeção ainda é cautelosa já que apenas o comportamento esperado para Investimentos, Consumo das Famílias e Gastos do Governo já prometem um PIB negativo, entre -0,5% e -1,0%. Caso o racionamento se concretize, e essa é a maior chance, a queda será muito maior. Os juros refletem esse comportamento mais cauteloso do mercado:

Juros para 2017 (gráfico diário)

  

 

Esse gráfico é o dos juros para janeiro de 2017 e eles respondem mais rápido às expectativas do mercado  em relação ao comportamento dos preços e da política monetária. Note que, apresar da alta esperada para  a inflação, os juros caíram de 13% em dezembro para 12,20% duas semanas atrás. E isso ocorreu porque o mercado dava baixa probabilidade para os racionamentos de água e energia, à alta explosiva da inflação e, SOBRETUDO, porque acreditava na mágica da austeridade. O mercado derrubou os juros porque aumentou a “credibilidade da política monetária” como consequência  do “ajuste fiscal”  (política de austeridade) feito pelo Ministro Levy. Ocorre, no entanto, que os cortes de despesas terão pouco efeito sobre os preços (que estão subindo por conta da seca e do dólar) e muito efeito sobre a queda do PIB (cada ponto do PIB cortado de despesa, faz o PIB cair em muito mais de um ponto pelo efeito multiplicador). O mercado realmente acredita no que alguns economistas chamam de a mágica da austeridade. Mas, uma vez mais, ela comprova que não passa de miragem. Se os artifícios utilizados no ministério anterior não foram capazes de reverter o quadro de desaceleração, a política de austeridade atual  é um poderoso peso em uma economia que está afundando.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com