Comissão Europeia vai sufocar a Grécia.

O governo alemão e o BCE estão aumentando sua ofensiva para estrangular a rebelião contra os pacotes de austeridade encabeçados pelo primeiro ministro da Grécia, Alexis Tsipras. Hoje o BCE proibiu a utilização de títulos da dívida grega como lastro de operações de refinanciamento junto à instituição. Apesar de representar apenas o bilhões de euros, dos 56 bilhões financiados todos os dias pelos bancos gregos, esse é um sinal de enfrentamento. Nos EUA o déficit comercial e os salários em alta, mostram que a maior economia do planeta continua reagindo bem à política monetária comandada por Janet Yellen.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Hoje o Banco Central Europeu parou de aceitar os títulos do governo grego em operações de refinanciamento. Essas operações são rotineiras e servem para que a liquidez diária dos bancos seja regulada sem transtornos. Os bancos centrais tomam dinheiro ou emprestam dinheiro aos bancos, em operações de curtíssimo prazo, remunerando ou cobrando a taxa básica. As operações dessa natureza são feitas com títulos do tesouro do país, que têm  risco baixíssimo. Aqui no Brasil o BC remunera ou cobra a taxa SELIC e são utilizados os títulos do tesouro nacional como lastro dessa operação. Nos últimos anos há mais dinheiro nos caixas dos bancos do que títulos a financiar e, portanto, as atuações diárias do BC são para “enxugar”           o excesso de dinheiro. Em dezembro o BC tomou junto ao mercado uma média de R$ 127 bilhões por dia e tinha, ao final do mês, R$ 500 bilhões tomados em operações com prazo de 33 dias. As mesmas operações acontecem nos EUA e as taxas de referência são os FED FUNDS, assim como no BCE. No BCE os bancos tomam recursos utilizando-se dos títulos dos tesouros dos países pertencentes à Zona do euro. E é nessa modalidade que Mário Draghi  está proibindo a utilização de títulos do tesouro grego.

O BCE seguiu às solicitações do ministro das finanças alemão, Wolfgang Schaeuble, que pretende demonstrar ao governo de Alexis Tsipras que a Alemanha quer sufocar quaisquer  tentativas de renegociação dos termos do acordo efetuado junto à Troika anos atrás. Ângela Merkal  já havia sinalizado que pretende esperar até maio para negociar a sério com o governo grego. Em seus cálculos, é em maio que o caixa do governo acaba e então ela poderá estrangular Tsipras e seus planos de reduzir a austeridade. A mesma postura vem sendo alardeada por Mário Draghi, o presidente italiano do BCE, que promete interromper todos os financiamentos ao país caso Tsipras e seu ministro das finanças, Yanis Varoufakis, insistam em relaxar a austeridade(corte de gastos e aumento de impostos)  que é a condição para o pacote de 240 bilhões de euros que “resgataram” o país cinco anos atrás. Esse aperto feroz sobre os gregos decorre da visão de que a crise europeia é passageira e depende apenas de reformas estruturais que eliminem os benefícios sociais e trabalhistas que tornam os europeus excessivamente “caros” em comparação com outros trabalhadores. Jens Weidemann, presidente do Banco Central alemão, disse isso ontem ao reclamar da aprovação do pacote de expansão monetária de 1,2 trilhões de euros. (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/02/a-diretoria-da-petrobras-ja-esta-fora.html ).

Essa ação do BCE não deverá trazer mais complicações do que a Grécia já tem. O total de financiamentos que os bancos gregos têm junto ao BCE somam 56 bilhões de euro. Mas ela  é mais uma demonstração de que as autoridades europeias não apenas não reconhecem erro algum em suas políticas de austeridade, como estão dispostas a expulsar todos os que tentarem escapar a essa “maldição”. Definitivamente a Europa caminha para um cenário de ruptura, com enfrentamentos efetivos entre os setores mais à esquerda (Syriza, Podemos e outros) com blocos de direita radical, como o da família Le Pen na França. O esforço monetário do BCE, tudo indica, corre risco de ser afogado por uma imensa crise política.

Nos EUA os mercados estão vendo os números divulgados hoje que turbinam as expectativas positivas: o déficit comercial cresceu e os custos salariais também. Veja o gráfico do déficit comercial:

 

O saldo saltou de US$ 39,8 bilhões em dezembro para US$ 46,6 bilhões em janeiro, superando as estimativas de US$ 37,9 bilhões. A boa notícia é que as exportações caíram por conta da queda dos preços do petróleo, mas as importações continuam subindo, indicando que a demanda doméstica dos EUA está firme.

A produtividade do  trabalho teve uma pequena queda (1,8% no ano, ou 0,45% no trimestre) no último trimestre do ano, mas os custos salariais subiram 2,7% em termos anualizados. Veja o gráfico:

 

Como se vê, os salários estão subindo e isso pode afastar os riscos deflacionários que rondam a economia dos EUA e reafirmam a performance efetiva do programa de estímulos levado a cabo pelo FED.

 

O petróleo voltou a subir  e o futuro do WTI (EUA) para março está sendo cotado a US 50,45, 2% de alta e o WTI, à vista, está saindo a US$ 49,60 o barril, com 2,4% de alta.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com