Fipe em alta e produção industrial derretendo.

A inflação continua mostrando que está em forte aceleração e exige medidas mais claras do que apenas a alta de SELIC. A contínua queda dos níveis dos reservatórios para abastecimento para geração de energia, produção industrial, agropecuária, dos serviços e para o consumo humano não serão mitigados nas Atas do Copom. Com isso, e pelos resultados da produção industrial de dezembro, já fica claro que vamos ter uma mega inflação (superior a 8,5%) e uma mega queda do PIB (queda superior a 2%).
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A Fipe anunciou o IPC de janeiro e ele veio em 1,62%. Habitação (0,13%), Alimentação (0,36%) e transportes (0,72%) somaram 1,21% ou 75% da inflação do mês. Eles decorrem de uma coisa: seca, seca, seca e seca. Toda e qualquer outra consideração a esse respeito é cosmética e deixa escapar o cerne dos problemas econômicos causados pela maior seca em décadas. Os níveis dos reservatórios que abastecem as maiores regiões metropolitanas do Sudeste continuam caindo, aumentando as chances de racionamento de água para a agricultura, indústria, comércio e residências da região sudeste e os reservatórios do sistema do ONS, que fornecem energia idem.  Dois indicadores de inflação ao consumidor indicam que no primeiro mês do ano 1/3 da meta do BC (4,5%) já está consumida. Veja a tabela e o gráfico do IPC-Fipe:

 

Começamos janeiro do ano passado com a inflação em 0,86% e os reservatórios da NOS com o dobro da capacidade. Com um regime de chuvas que se anuncia mais severo, não há porque pensar em uma inflação menor.

Ao mesmo tempo em que os preços sobem explosivamente, a produção industrial cai, arrastada pela congruência da crise internacional com os fatores de crise interna.  Em 2014 a indústria brasileira caiu 3,2%, veja a composição da queda:

 

  • Os bens de capital caíram 9,6%: eles refletem as decisões de investimentos e mostram como o espirito animal do empresariado foi massacrado no ano passado. São os investimentos que geram a renda e que dão sustentabilidade à economia.
  • Os bens intermediários, matérias primas, caíram em linha com a média das outras categorias.
  • No consumo das famílias destaca-se a brutal queda dos bens duráveis, de mais de 9%, indicando que as famílias retardaram as suas decisões de gastos com automóveis, linha branca e outros bens mais caros, dependentes do crédito e que podem comprometer a renda futura por um bom tempo.

Boa parte dessa queda da produção industrial, é claro, está relacionada à queda da demanda local, mas não podemos esquecer que a taxa de câmbio desalinhada colabora para que os produtos importados substituam os nacionais e para que nossas exportações fiquem muito mais caras.

A forte queda da indústria resulta da explosiva combinação da queda da demanda global, do desalinhamento de nossa taxa de câmbio, da queda do estado de confiança dos empresários e das famílias. No ano passado,  em 05/02, por ocasião da divulgação da produção industrial de dezembro de 2013, comentei:

“Em resumo, os prantos da equipe econômica são mais do que justificados. Não há mágica, truques ou milagres que possam acelerar a nossa economia nesse momento. Ajudaria se a presidente se entusiasmasse a dar um chacoalhão no estado de confiança do empresariado, mas, efetivamente, ela não quer lidar com os empresários, ela ouve apenas as ruas e o ministro Mantega. Apesar da crise ser realmente global, de nossos investimentos caírem por conta da queda global de investimentos, nossas idiossincrasias aceleram essa desaceleração!” (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/02/pib-ladeira-abaixo-roda-da-fortuna-nao.html )
 
A queda dos investimentos, em particular, deve ser qualificada: resulta da crise externa, do câmbio, das políticas erradas no sentido do governo tentar segurar a demanda por meio das isenções fiscais, de artifícios contábeis na dívida pública e nos permanentes embates com o mercado. Agora eles continuarão a ser pressionados pelas condições econômicas decorrentes do aperto fiscal e monetário, pela desaceleração da economia e pela desorganização do setor de infraestrutura por conta dos escândalos da Petrobrás. Vai piorar mais a situação a enorme incerteza gerada pelos enormes riscos de racionamento de energia e de água. Eles colocam em risco qualquer horizonte de investimentos seja por tornar indeterminado o acesso a importantes insumos, seja por implicar em enorme elevação dos custos sem a perspectiva de que eles possam ser repassados.
 
Tal como para a inflação, as perspectivas para o crescimento nesse ano devem partir de um cenário pior em relação ao ano passado: se o PIB caiu por volta de 0,5%, ele deve cair ainda mis em 2015. Todos os esforços do governo apenas pioram essa tendência e, ao contrário do que dizem os simpáticos às políticas de austeridade, elas não servem nem para alimentar um futuro melhor. Na dúvida veja os casos da Grécia, da Espanha e do México.

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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com