O BC deve continuar apertando a política monetária

O BC divulgou sua Ata da última reunião do Copom e ela aponta claramente para a manutenção do ciclo de alta dos juros como forma de mitigar os efeitos secundários das altas das tarifas. Mantenho a estimativa de crescimento negativo nesse ano (queda superior a 2%) e de inflação entre 7,5% e 8,5%.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O BC divulgou a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária, mas não foi capaz de surpreender o mercado. Ainda que alguns analistas ouvidos pelas agências de notícias tenham mostrado visões divergentes, na minha opinião a ata é clara no sentido de mostrar a inclinação dos membros do Comitê de continuarem com o ciclo de alta dos juros na velocidade atual, de 0,5%. O Comitê destacou:

  • Da última reunião para cá os preços administrados e monitorados tiveram sua projeção aumentadas de 6,0% para 9,3%.
  • As expectativas coletadas junto ao mercado pioraram.
  • Desde a última reunião os riscos para a economia internacional aumentaram.
  • A ociosidade no mercado continua apertada, colocando o risco de alta dos salários acima da produtividade.
  • O nível da inflação atual, muito elevado, decorre do realinhamento dos preços internos aos externos (desvalorização cambial) e dos administrados aos livres (tarifas de energia elétrica e CIDE dos combustíveis).
  • A Política Monetária deve atuar para conter os efeitos de segunda ordem desse “realinhamentos”.

Em resumo, o BC viu a situação para a inflação piorando e não melhorando. Tanto os preços correntes como as expectativas pioraram e há um risco intenso de repasse (efeitos de segunda ordem) dos aumentos das tarifas para os salários (mercado de trabalho estreito) e para os outros preços. O BC deve atuar para conter esse efeitos. Quase a final os diretores pontuam:

31. A propósito, o Copom avalia que o cenário de convergência da inflação para 4,5% em 2016 tem se fortalecido. Para o Comitê, contudo, os avanços alcançados no combate à inflação – a exemplo de sinais benignos vindos de indicadores de expectativas de médio e longo prazo – ainda não se mostram suficientes.

 

O grifo é meu. Mas ele mostra que, apesar das fortes e sinceras esperanças da autoridade monetária em ver a inflação na meta em 2016, nada ainda se mostra suficiente para isso. Ao contrário! A tendência é de piora para os próximos meses, sobretudo para os alimentos e para os riscos de racionamento de água e energia. Hoje o volume de água total armazenado pela Sabesp para a Região Metropolitana de São Paulo está em 15,2% e caindo. Pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (NOS) as reservas para geração de energia dos reservatórios do Sudeste/Centro Oeste estão a 16,93%, em 16.,79% no Nordeste e 35,57% no Sul; todos em queda. A continuar a situação, o colapso nos próximos meses é inevitável e isso trará impactos elevados sobre o nível dos preços. O BC não terá um cenário melhor: terá um cenário muito pior!

Portanto, levando em consideração que é o problema hídrico que está comandando a deterioração do cenário inflacionário desde o ano passado, só podemos concluir que a situação no futuro próximo é de aumento e não de acomodação dos preços. Diante disso, as chances de ocorrência do pior cenário está aumentando e isso deve levar a autoridade monetária a manter sua luta para evitar os “efeitos de segunda ordem”. A tendência mais forte é claramente a de manutenção do ciclo de alta dos juros, em 0,5%, na próxima reunião e sua revisão apenas quando as principais pressões estiverem se dissolvendo.

Mantenho as projeções para o ano:

PIB: otimista (-0,5% : -1,00%)  pessimista (menor que -2,00%)

IPCA: otimista ( 6,4% : 6,8% )  pessimista ( 7,5% : 8,5% )

 

Todas as projeções têm um risco de piora muito maior que os riscos de melhora por conta da piora do quadro climático e da queda da confiança.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com