Balanço de Petrobrás é ruim mesmo com o adiamento das baixas contábeis.

A diretoria da Petrobrás soltou uma nota contendo algumas informações sobre o resultado do terceiro trimestre. O balanço não será publicado tão cedo porque a empresa não conseguiu uma metodologia precisa para chegar às baixas necessárias por conta dos desvios apurados no âmbito da operações lava a jato. O lucro no trimestre caiu 37% em relação ao anterior e o EBITDA caiu 27% isso pode deixar a empresa vulnerável a uma rebaixamento de sua nota de crédito. Levando em conta os ativos sob avaliação, segundo o divulgado pela empresa, de R$ 188 bilhões, as baixas podem ser de R$ 9 bilhões a R$ 28 bilhões.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A Petrobrás divulgou uma nota de esclarecimento em substituição ao Balancete e às Demonstrações do terceiro trimestre de 2014. A nota esboça alguns números importantes, mas deixa outros, tão ou mais importantes de lado. Dentre os dados divulgados, é importante ressaltar que a empresa teve seu resultado trimestral puxado para cima por conta do reconhecimento de que alguns impostos foram recolhidos a mais (PIS/Cofins), em um total de R$ 820 milhões e que algumas depreciações foram revistas gerando uma alta de R$ 1,6 bilhões em seus equipamentos. Por outro lado a empresa reconheceu perdas de R$ 2,7 bilhões pela descontinuidade das refinarias Premium I e II. Quanto a essa descontinuidade, tentei alguma informação junto do Departamento de Relações com os Investidores, mas eles não podiam informar do que se tratava. Um pelo outro, essas contabilizações deixaram o resultado intacto. Dos R$ 3,08 bilhões do lucro líquido, esses eventos somados em nada contribuíram. Houve queda substancial do lucro em relação ao segundo trimestre (-37%), mesmo com o aumento da produção de petróleo e gás (+5,6%), com maiores exportações (185 mil bpd) e maior produção de derivados (24 mil bpd). A empresa se ressentiu da desvalorização do dólar sobre sua dívida em moedas estrangeira e o EBITDA caiu 27,7% em relação ao trimestre anterior, para R$ 11,7 bilhões, o que pode levar a empresa a perder mais uma nota em sua classificação de risco.

A empresa tentou reavaliar seus ativos, em decorrência do superfaturamento apontado na operação lava a jato e, para tanto, tentou dois métodos. No entanto, pelo risco de apresentar resultados ainda distantes da realidade, decidiu-se esperar pelo avanço das investigações e para o acesso ao processo de delação premiada que indica os valores de forma mais precisa. Segundo a empresa, o ativo imobilizado somava R$ 600 bilhões (máquinas, equipamentos, navios, etc...) e a parcela relativa aos contratos denunciados pela lava a jato são da ordem de R$ 188 bilhões. Se aplicada uma metodologia, a do valor justo, a empresa teria que elevar o ativo em quase R$ 60 bilhões. Eis um motivo palpável para esperar a conclusão das investigações. Se essa informação for correta, as perdas por impairment , ou reavaliação dos ativos por conta de sua viabilidade econômica poderão ser menores do que se noticiou com base em “fontes”. As baixas de R$ 2,7 bilhões, das refinarias Premium I e II são muito menores do que se especulava.

Mas não é fácil fugir à tentação de um  palpite: se os ativos em reavaliação por conta da lava a jato são da ordem de  R$ 188 bilhões e se as comissões são da ordem que varia entre 5% e 15%, então as baixas podem variar entre R$ 9,4 bilhões e R$ 28,2 bilhões. Qualquer coisa fora desse intervalo pode ser desconsiderada.

A ação derreteu 9% após a abertura do pregão, mas deve ser desconsiderada a forte alta de ontem que, com certeza, foi artificial. Veja o gráfico da empresa:

 

 Petrobrás (gráfico diário)

 

 

A novela sobre a petroleira continuará por mais tempo, baseada em todo o tipo de informações que devem muito em termos de credibilidade.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

Deixe seu comentário

Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com