Vitória do Syriza põe a Grécia com um pé para fora do euro

A vitória do Syriza na Grécia sinaliza o que poderá acontecer na Zona do Euro. O enorme descontentamento com as políticas de austeridade impostas após a crise das dívidas pode lançar a região em um processo de forte transformação. No fim do ano as eleições da Espanha podem colocar no poder o partido de esquerda Podemos. Essa é uma das principais fontes de turbulência que teremos nessa semana.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A semana será dominada pela evolução política da Grécia, pela reunião do Comitê de Política Monetária do FED e pelo resultado da Petrobrás. No mês, o Ibovespa acumula leve queda, mas em meio a muita dispersão em relação às ações que mais sobem e às que mais caem e com muita volatilidade dentro dos pregões. Apesar do otimismo gerado pelas declarações e ações do Ministro Levy e do programa de estímulos do BCE, a perspectiva de recessão no Brasil, do colapso do fornecimento de água em São Paulo e a forte possibilidade de racionamento de energia no segundo semestre, acabam por anular qualquer possibilidade de otimismo com a economia brasileira em 2015.

A vitória do Syriza na Grécia foi maior do que se esperava: obtiveram 150 cadeiras no parlamento dentre um total de 300. Uma coalizão formada com 13 independentes garante a maioria que Alexis Tsipras precisa para governar o país, em trajetória de colisão frontal com os desejos políticos dos dirigentes da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu. Após o resultado eleitoral ser divulgado, os dirigentes europeus começaram a enviar recados ao novo governo, insistindo na tese de que o país não pode tentar renegociar os acordos que foram fechados anos atrás junto com a “Troika”. Um exemplo dessa visão dura a respeito do tema foi dada pelo economista do Berenberg Bank: “a vitória significa problemas para a Grécia. Acreditamos que a Europa não vai poupar Tsipras e ele precisa aceitar a realidade: você não pode gastar o dinheiro que não tem (sic). Cumprir com a Troika ou sair do euro; você não pode renegar o seu contrato com os credores e esperar que eles te concedam um novo e enorme empréstimo; você não pode querer obter o crescimento aumentando os encargos das empresas e tornando o mercado de trabalho mais rígido”1. E essa visão é compartilhada pelo porta voz de Ângela Merkel, por Mario Draghi, presidente do BCE, por Jens Weidemann, presidente do Bundesbank e pela maioria dos dirigentes políticos e  empresariais da Europa. Ocorre, no entanto, que não é assim que Tsipras pensa e, tampouco, a população grega, que encara um desemprego de mais de 26% e uma queda de 12% em sua renda per capitadesde 2010. A situação de sofrimento por lá chegou ao seu limite e o país tenta mudar algo que, definitivamente, se mostra completamente errado. Insistir na austeridade levaria a Grécia a um quadro de sofrimento incalculável e a opção pela saída radical é mais do que racional3 nesse momento. Ainda que a alguns analistas vejam a possibilidade de negociação entre Tsipras e a cúpula da Comissão Europeia, não é visível, exceto pelos dirigentes franceses, qualquer simpatia pelo governo radical. Ao ponto em que o país chegou, há muito pouco a perder. Manter-se na trajetória imposta no plano da Troika implicaria em manter a enorme destruição de “capital humano”, investimentos e potencial de crescimento. Sair da Zona do Euro, assumindo uma moeda desvalorizada pode, ao menos, indicar um futuro melhor. Manter-se dentro do euro, com as enormes amarras impostas, é suicídio econômico. Portanto, como os sinais por parte da Comissão Europeia indicam rigidez em relação ao país, aumenta a probabilidade de saída da Grécia da Zona do Euro com um default em relação às suas dívidas externas (pública e privada). Com seus problemas internos, o euro já se desvalorizou 20% em relação ao dólar desde maio do ano passado. Veja  o gráfico do euro:

 

A eleição grega, além de colocar um problema para a região agora, aponta para um no futuro próximo: a possível eleição do Podemos na Espanha. Em maio ocorrerão as eleições locais e no final do ano as eleições gerais. O partido de esquerda está com forte chance de ganhar. Seria uma derrota a mais para a conservadora cúpula da Comissão Europeia.

Nos EUA o FOMC, Comitê de Política Monetária, deve manter os juros básicos em zero na sua reunião que termina na quarta feira. O comunicado à imprensa poderá conter algumas indicações sobre os passos que o país seguirá e isso afetará de forma bastante importante os mercados globais. Os analistas estão divididos quanto aos prazos que o FED adotará para subir os juros básicos e para começar e retirar o excesso de liquidez existente na economia. Vale lembrar que a autoridade monetária inundou a economia com US$ 3,5 trilhões e que esse dinheiro deverá retornar aos cofres para ser destruído. O mais provável é que o comunicado dê um sinal mais forte sobre a alta dos juros (no sentido de subir ou no sentido de não subir) e seja neutro em relação à liquidez. Essa última só começará a ser eliminada após os juros atingirem seu patamar “normal”, entre 3,5% e 4,5%.

A Petrobrás deve anunciar até sexta feira o balancete do terceiro trimestre do ano passado. Nele poderão estar contidos os efeitos das baixas contábeis por conta da reavaliação dos ativos que estão contabilizados por valor superior ao real por conta do superfaturamento. Esse procedimento, se feito, permitirá que os analistas cheguem ao valor justo da empresa que contabiliza uma diferença de R$ 238 bilhões entre o valor contábil de julho (R$ 362 bilhões) e o valor de mercado atual (R$ R$ 124 bilhões).

 

(1)    http://www.marketwatch.com/story/syriza-victory-worse-than-expected-spells-trouble-for-greece-2015-01-26?dist=beforebell (minha tradução)

(2)    Queda da média do triênio 2007/2009 para 2013. Dados do Banco Mundial: http://databank.worldbank.org/data/views/reports/tableview.aspx

 

(3)    Os agentes econômicos e políticos, se são racionais, querem maximizar seu bem estar, minimizando seus custos.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com