Setor Externo do Brasil chega a um ponto crítico.

O primeiro índice da inflação ao consumidor do ano veio em aceleração e mostra os estragos causados pela super seca que assola as regiões Sudeste e Centro Oeste. O IPCA deve fechar janeiro, por conta disso, entre 1,2% e 1,6%. Já a divulgação do saldo de transações correntes mostra que nossa vulnerabilidade externa aumenta e, mais que ela, nossa fraqueza interna frente aos concorrentes externos. A taxa de câmbio apreciada é a principal responsável pela desaceleração da indústria local o o saldo externo prova isso.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O IBGE divulgou o IPCA-15 de janeiro (15 de dezembro a 15 de janeiro) e ele subiu de 0,78% em dezembro para 0,89%. O índice confirma a aceleração da alta dos alimentos de 0,94% para 1,45%, com forte impacto sobre a alta. As principais contribuições vieram das carnes e dos alimentos “in natura”, fortemente afetados pelas condições climáticas severas. Habitação teve aceleração de 0,71% para 1,23% e isso resultou dos aumentos de energia elétrica que continuaram afetando diversas capitais. Veja a tabela dos aumentos:

 

Com essa alta é de se esperar que o IPCA de janeiro também se acelere, o que já esperávamos. É razoável supor que oi IPCA de janeiro fique entre 1,2% e 1,5%. Veja o gráfico do comportamento do IPCA-15:

 

Em doze meses o índice acumulou alta de 6,89%, mostrando aceleração da alta dos preços.

O Banco Central, por sua vez, divulgou o resultado das contas externas de dezembro e elas mostram clara piora do déficit de transações correntes , que subiu para US$ 10,3 bilhões no mês e US$ 90,9 no ano. Esse valor representa 4,17% do PIB e é suficientemente preocupante. Veja o gráfico do saldo de transações correntes:

 

Ainda que um saldo negativo seja até positivo, indicando que o país é capaz de se aproveitar dos bens e serviços oferecidos pelo resto do mundo e financiá-los com a poupança externa que vem ao país sob a forma de investimentos diretos, empréstimos às empresas e financiamento da dívida pública. Ocorre, no entanto, que se esse déficit aumenta demais, seu financiamento aumenta o passivo externo brasileiro (o total de investimentos diretos mais dívidas) o que , por sua vez, aumenta ainda mais as obrigações futuras do país com o resto do mundo. A queda do saldo de transações correntes se deve em grande medida à piora do saldo comercial e ele, por sua vez piorou:

 

  • Pela queda dos preços das matérias primas e alimentos vendidos ao exterior;
  • Pela queda das  vendas do bens manufaturados ao exterior, por conta da forte crise global;
  • Pelo aumento das importações de produtos industrializados, sobretudo da Europa, em crise;
  • Pelo aumento das importações de petróleo e gás para o setor elétrico;
  • Pelo aumento das viagens de brasileiros ao exterior e queda das viagens de estrangeiros ao Brasil;
  • Pelo aumento dos serviços relativos ao passivo externo: pagamentos de dividendos, juros, lucros, royalties e aluguéis.

 

A evolução desse déficit e, consequentemente, da dívida externa é que levaram o país a ter os ciclos de crescimento/super-crises que abalaram nossa economia desde o século XIX até os anos 2000. Era o setor externo que comandava (comandava?) o volume de investimentos, do consumo, a taxa de inflação e a taxa de crescimento. Apesar de termos reservas de US$ 370 bilhões e não haver o risco de uma crise cambial do tipo que tínhamos, o saldo negativo indica que nossa economia está dando empregos ao resto do mundo e ainda por cima o faz com aumento do endividamento (privado). Essa é a razão básica para a desaceleração da produção industrial, pois a falta de exportações e a forte competição com os importados é a causa principal para a queda constante de nossa indústria. Veja o gráfico da produção industrial:

 

Esse desajuste externo decorre, dente várias razões, do crescimento global, dos aumentos/reduções da produtividade de nossa indústria em relação à indústria do resto do mundo e da taxa de câmbio real. A taxa de câmbio real mede o comportamento da taxa de troca entre o país e o resto do mundo, descontadas as variações nominais do real em relação às outras moedas e da inflação nacional em relação à inflação do resto do mundo. Veja o gráfico da taxa real de câmbio estimada pelo IPEA:  

 

Quanto mais o número índice se eleva, mais a moeda brasileira se aprecia (fica mais cara) em relação às outras moedas. Note que nossa moeda se encareceu fortemente, dentre outras fases, a partir de 2010. Foi nesse período que o déficit de transações correntes se acelerou fortemente. Vale lembrar que a taxa real de câmbio é afetada tanto pela inflação como pela cotação do real em relação às outras moedas.

 

Estimar a trajetória futura do déficit de transações correntes em relação ao PIB depende da taxa de crescimento do PIB, da nossa inflação, da cotação do real em relação ao dólar e da inflação do resto do mundo. Cabe o governo decidir o que consegue ou se dispõe a controlar.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com