BCE solta as amarras e real fica ainda mais caro.

O BCE fez um plano de expansão monetária bem maior do que o esperado. Apesar de tardio ele pode incrementar as condições da Zona do Euro que está com um PIB cerca de 15% abaixo de seu potencial projetado em 2008 e com mais de 18 milhões de desempregados. O euro cai em seu nível mais baixo desde abril de 2003 e isso apreciou ainda mais nossa moeda. O real, que está sofrendo uma pressão para sua apreciação a partir das políticas praticadas por diversos bancos centrais, tem essa tendência acelerada com a alta dos juros e com a aceleração dos preços internos. Nos EUA, os estoques de petróleo bruto chegaram ao seu patamar mais elevados em oitenta anos.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O Banco Central Europeu anunciou hoje um plano de expansão monetária mais elevado do que era esperado pelo mercado. Ele irá recomprar títulos junto ao mercado no valor de 60 bilhões de euros por mês entre março desse ano e setembro do ano que vem. O total chega a pouco mais um trilhão de euros. O plano poderá atingir seu objetivo de recuperar crescimento e empregos na Zona do Euro, que vem demandando algum tipo de política há algum tempo. A demora do BCE está associada a um conservadorismo atávico dos países membros, em particular os alemães, que associam qualquer expansão monetária com crise hiperinflacionária. De qualquer a região foi duramente castigada pela “insana” política econômica praticada pela Comissão Europeia desde o início da crise. Essa demora em fazer o necessário custou milhões de empregos e anos de crescimento econômico. Pelos cálculos do FMI - que são endossados em grande medida pelo BCE - o PIB da Zona do euro está 2 trilhões de euros abaixo do que deveria estar levando em conta as projeções feitas em 2008 com base em seu PIB potencial. Isso significa que a demora em tomar uma iniciativa mais efetiva, fez com que o BCE colaborasse decisivamente para que a renda do europeu da Zona do Euro tenha uma renda cerca de 15% menor do que poderia. Veja o gráfico com as evoluções potenciais do PIB da Zona do Euro:

 

Isso significa que milhões de pessoas tiveram seus empregos destruídos na época da crise 2008 e que as ações do BCE, da Comissão Europeia e do FMI simplesmente pioraram o que já era ruim. É evidente que há visões alternativas a respeito do diagnóstico e das políticas para a Zona do Euro. Indico a leitura dos artigos de J.Stiglitz (http://www.project-syndicate.org/commentary/european-union-austerity-backlash-by-joseph-e--stiglitz-2015-01 ) e de Jeffrey Sachs (http://www.project-syndicate.org/commentary/ecb-quantitative-easing-support-by-jeffrey-d-sachs-2015-01 ). O primeiro claramente aponta as responsabilidades dos políticos e economistas por terem insistido no mantra da austeridade, ao passo que Sachs, mais moderado, sugere que o problema não foi tanto o fiscal, mas o monetário. Sachs sugere que o quadro é fácil reversão, desde que os desafios geopolíticos não perturbem ainda mais o cenário (Grécia, Ucrânia e Oriente Médio). Já Stiglitz chama por mais flexibilização, sobretudo nos países mais afetados. O FMI tende a ficar a meio caminho, revendo sua posição, chamando para mais investimentos públicos e mais expansionismo monetário.

A corrida para reverter o penoso quadro da Zona do Euro é importante não apenas para os moradores da região, mas para o mundo todo. Quanto mais a Zona do Euro derrete, tanto mais ela pressiona para baixo o crescimento global. Aqui no Brasil a balança comercial com a Europa saiu de um número levemente positivo em 2007 para um saldo negativo de mais de US$ 15 bilhões. Essa reversão do saldo implica que estamos vendendo menos para os europeus e estamos comprando mais de seus bens e serviços (veja o post de 04/11/2014: http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/11/os-desequilibrios-do-brasil-e-do-mundo.html ). Boa parte da queda da atividade e do emprego industriais podem ser associados a esse evento. Como a região é responsável por cerca de 30% do crescimento global e mais de 30% do comércio, o que se passa aí tem grande impacto sobre o resto do mundo.

Como seria de esperar, o euro declinou em relação ao dólar em cerca de 2%. Veja o gráfico do euro:

Euro (gráfico Diário)

 

Ele está no menor patamar desde abril de 2003. A nossa moeda, ao contrário, se valorizou 1% em relação ao dólar, apreciando-se, portanto, mais de 3% em relação ao euro. Quanto mais os países fazem suas políticas expansionistas, reduzindo juros e expandindo a oferta monetária, com o Brasil indo no sentido contrário, com sua moeda se apreciando em termos nominais e com os preços internos subindo muito mais que os do exterior, tanto mais a taxa real de câmbio se aprecia, tanto mais o saldo comercial piora, tanto mais a nossa taxa de crescimento cai. Se não houver uma ação clara no sentido de se evitarem esse movimentos, a salvação do euro piorará nossa economia.

A decisão, ainda que tardia, pode ser um impulso importante para as expectativas e, com certeza, vai ajudar a expansão por meio da alta dos mercados acionários (que incentiva os investimentos), pela desvalorização do euro, pela queda dos juros longos e pela sua ação nos mercados de crédito. O desafio agora é saber como as lideranças europeias vão agir com a Grécia depois das eleições de domingo. A vitória do oposicionista Syrisa precisa ser absorvida perla Comissão Europeia a fim de evitar que uma nova e forte turbulência tome conta dos mercados e anule boa parte dos efeitos positivos do Quantitative Easing anunciado hoje.

Hoje os EUA anunciaram que seus estoques de petróleo bruto chegaram a 397,9 milhões de barris, o maior em 80 anos. As refinarias operaram, na semana finda em 16 de janeiro, com 85,5% da sua capacidade, frente aos 91% da semana anterior. Essa queda na produção das refinarias reduziu a oferta semanal de gasolina para os estoques, que subiram 600 mil barris na semana contra 3,2 milhões na semana anterior. Veja o gráfico do estoque de petróleo bruto:

 

O petróleo tipo WTI, negociado nos EUA, caiu para US$ 46,87 o barril, uma desvalorização de quase 2%. Ela deve continuar já que o dólar acelerou sua valorização e já que os efeitos dessa alta nos estoques devem continuar a afetar os mercados amanhã.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com