Estimativa para o IPCA acima de 7% e do PIB abaixo de -0,5%

O encerramento da 188a. reunião do Copom hoje à noite enseja a consolidação de duas estimativas: a inflação e a taxa de crescimento do PIB para 2015. Com os dados atuais, que têm a seca, a desvalorização cambial e o pacote fiscal como fortes componentes, o cenário maios provável é de um IPCA oscilando entre 6,5% e 8,5% e o PIB entre -0,5% e -2%. Todos os riscos apontam, no momento, para um cenário alternativo de piora e não de melhora. Com tudo isso em mente, a decisão de hoje do BC pode evidenciar peso que autoridade monetária está dando para esses choques de oferta.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Projeções para 2015:

 PIB: otimista (-0,5% : -1,00%)  pessimista (menor que -2,00%)

 IPCA: otimista ( 6,4% : 6,8% )  pessimista ( 7,5% : 8,5% )

 

Hoje o Copom do Banco Central define o novo patamar da taxa Selic e a grande maioria do mercado aposta em mais uma alta de 0,5%. Os analistas consumirão um tempo considerável para avaliar os sinais embutidos no Comunicado do BC, que sai hoje à noite, e na Ata do Copom, que sai na semana que vem. O debate será se ele continuará subindo os juros, a que ritmo e até que ponto. A inflação de 2014 fechou em 6,4%, bem perto do teto da meta, e o mercado estima, a partir da coleta do BC junto ao mercado, que a inflação ficará em 6,67% em 2015. A evolução do quadro geral, marcado pela falta de chuvas e pelo aumento dos riscos associados a um racionamento de energia ou de água, eleva as projeções possíveis para os preços nesse ano. Ainda que a economia esteja se desacelerando e apresente forte tendência para uma taxa negativa de crescimento nesse ano (veja o “post” http://pepasilveira.blogspot.com.br/2015/01/banco-mundial-revisa-para-baixo.html  )  os impactos da seca sobre os preços de energia, água e alimentos e o aumento do combustível, por meio da CIDE, elevam o patamar de qualquer previsão. Abaixo mostro um quadro com os principais preços do IPCA e os intervalos de variação possíveis e suas consequências para o IPCA:

 

Note que os preços colocados na tabela representam mais de 50% do IPCA. Eles devem sofrer forte pressão por conta da seca e do recente aumento da CIDE, exceto por AluguelTelefonia e Educação, cujos contratos possuem forte componente inercial. Dos influenciados pela seca o destaque é a Energia Elétrica, com intervalor de variação (arbitrário) entre 25% : 30% , contribuirá diretamente com 0,8% da inflação total. Alimentos, que tiveram alta de pouco mais de 8% nesse ano, ficam com um intervalo de 8% : 10% , que acomoda as pressões do clima e do câmbio. As tarifas de transportes em grande medida estão garantidas, já que São Paulo e Rio de Janeiro já promoveram seus aumentos. É pouco provável que a elevação dos juros e o aperto da demanda consigam que o IPCA fique menor a partir do grupo OUTROS, que tem 46% de participação no IPCA e que foi fixado, arbitrariamente, em 4,5%. Esse número menor acomoda os possíveis efeitos da queda do nível de atividades e do aumento do desemprego ou, em sentido contrário, um comportamento mais benéfico dos itens listados. Ainda que seja uma projeção arbitrária, ela tem como objetivo elucidar ao leitor os principais efeitos sobre os preços de 2015 dos eventos que estão na pauta de discussão atual dos agentes. Sobressaem-se os aumentos de impostos, a queda do nível de atividades, a necessidade de desvalorização do real e, mais importante, os efeitos da seca sobre a oferta de alimentos, energia e água. Pela inequívoca força desses eventos, a probabilidade de que esses intervalos de projeção estejam corretos é muito grande. Somente um milagre climático poderia reverter de forma substancial essas tendências que estão se materializando rapidamente.

Com essas projeções, a ideia sobre o comportamento futuro do BC e da taxa Selic não dá espaço para uma redução do ritmo de altas, ao menos por enquanto. O Copom começou o ciclo de altas logo após as eleições, subindo 0,25% em outubro e 0,5% em dezembro. Com a alta de hoje, ela chegará a 12,25%. A maioria dos analistas sugere que o BC irá parar o ciclo de alta a reunião de 3/4 de março, em 12,5%. Há aqueles que acreditam na chance do ciclo prosseguir até abril, chegando em 12,75%. Fico inclinado em concordar com a segunda hipótese, mas dada a queda do nível de atividades e a introdução de um ajuste fiscal, o Copom pode entender que a suspensão da elevação dos juros para avaliar os resultados seria prudente. Pesará também o estado da inflação nesse período e das expectativas inflacionárias para o resto de 2015 e todo o ano de 2016. Caso o cenário de pouca chuva se confirme e os riscos de racionamento continuem subindo, então o BC deverá esticar um pouco mais a alta dos juros, para 12,75% ou 13%.

 

De qualquer forma, o cenário para o crescimento e para a inflação continua piorando.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com