Os setores ligados ao consumo são uma aposta ruim para 2015

Divulgada a inflação da segunda semana do ano e ela atingiu 1,28%, se medida pelo IPC-S da FGV. É mais uma notícia que junto com outras a respeito do ajuste fiscal, do aumento das tarifas de energia, da possibilidade de racionamento de água e energia ao longo do ano, ajudam a construir uma visão de que o Consumo da Famílias pode ter seu primeiro ano de estagnação ou queda desde 2002. As empresas ligadas ao consumo devem ser vistas com cuidado, pois o grande ciclo de expansão da renda deve ter uma freada mais forte nesse ano. Nos EUA a queda do CPI deve ajudar na impressão de que os juros vão subir mais tarde do que se esperava.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A FGV divulgou o IPC-S da segunda semana de janeiro e ele subiu de 0,96% para 1,28%. Essa alta, que em parte reflete o comportamento sazonal dos preços, está acima da alta do início do ano passado. Os itens que mais contribuíram para a aceleração dos preços foram: alimentos, com 1,70% (hortaliças e legumes subiram 11%), tarifas de ônibus , energia elétrica e educação. Veja o gráfico e a tabela:

 

 

A evolução da alta reflete a forte subida dos preços de alimentos e energia elétrica, decorrentes da seca nas regiões Sudeste/Centro Oeste, e a indexação das prestações de escolas e faculdades. Com a desaceleração do mercado de trabalho, que criou menos vagas formais em 2013, os rendimentos das famílias tende a se estagnarem ou a caírem, a depender da evolução do mercado de trabalho. Veja a criação de vagas formais:

 

Os números de 2014 são estimados já que os dados de dezembro ainda não foram divulgados. Desde 2011 o mercado de trabalho formal vem criando menos vagas, seja porque a criação de vagas de 2010 foi excepcionalmente elevada, seja porque essa queda firmou-se como tendência. Ao criarem-se menos vagas no mercado de trabalho, a tendência final é a de acomodação ou mesmo queda dos rendimentos oriundos do trabalho. Se usarmos como medida de salários, os rendimentos reais habitualmente recebidos, da coleta feita pelo IBGE na Pesquisa Mensal de Empregos1 temos a seguinte tendência:

 

Após bater um pico em fevereiro de 2014, os salários começaram a cair, recuperando-se em novembro (o que é resultado da sazonalidade). A média dos rendimentos recebidos em 2014 subiu 2,74% em relação a 2013 e a média dos anos anteriores era de alta de 3,5%. Essa tendência de desaceleração deve se acentuar se os dados que temos recebidos nas últimas semanas se confirmarem: (1) forte alta dos preços, (2) o ajuste fiscal que deve atingir cerca de 1,2%, (3) a paralisia dos investimentos por conta da operação lava a jato, do fraco desempenho da economia internacional e do risco de racionamento de energia e água.

Com o aumento dos riscos em relação ao comportamento do Consumo das famílias, devemos ficar de olho nos setores que dependem fortemente dele, que corresponde a mais de 60% do PIB. O consumo já vem crescendo a taxas mais modestas e tende a se acomodar. A taxa média de crescimento do consumo nos primeiros três trimestres de 2014 foi de 2% no ano, contra 3,1% no ano anterior, sendo que no último trimestre apurado ela estava em apenas 1,5%.  Até 2011 o consumo crescia a 6% por ano. Veja o gráfico da evolução do Consumo:

 

Para estimar o Consumo para o ano de 2015, no entanto, ainda há diversos fatores que não estão verdadeiramente amadurecidos, mas considerando as condições atuais, ele não deve crescer mais que 1,5%. Se o aperto das condições fiscais realmente se confirmar para o lado do consumo (por meio das tarifas públicas e impostos diretos e indiretos), esse aumento de 1,5% está superestimado. Tomando como base, uma vez mais, o ajuste fiscal de 1,2% do PIB, é razoável apostar em um Consumo das Famílias crescendo perto de zero em 2015. Em função disso, todas as empresas pertencentes aos setores relacionados ao Consumo devem se olhadas com mais restrição, apresentando um risco maior do que vinham apresentando desde 2005/2006. Definitivamente, o Consumo não deve ser a aposta para os investidores em 2015.

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Nos EUA houve a divulgação do resultado do Goldman Sachs e ele veio em linha com o que disse ontem a respeito dos balanços dos bancos: as receitas estão em queda por conta da diminuição das operações especulativas feitas por suas tesourarias. As expectativas eram de um resultado de US$ 4,36 por ação e ele veio em US$ 4,38, abaixo dos US$ 4,60 do ano anterior. O resultado total do banco de investimentos foi de US$ 7,69 bilhões. As ações do banco caem 1%.

A má notícia do dia foi o CPI, índice de preços ao consumidor, de dezembro. Ele veio em queda de 0,4% por conta da queda dos combustíveis e derivados e em 0% se retirados os efeitos da queda dos mesmos. Veja o gráfico:

 

Na linha vermelha está o comportamento do índice total acumulado em doze meses e ele vem despencando desde março. As barras em cinza são relativas ao núcleo da inflação, que retira as variações dos preços de alimentos e energia. É o núcleo da inflação acumulada em doze meses que tem sido a meta do FED para definir se vai subir os juros ou não. O índice acumulado em doze meses caiu de quase 2% em março para 1,6% em dezembro. Esse afastamento do índice de inflação de sua meta (2%) é um indicado forte de que o FED não subirá seus juros nas próximas reuniões. O plano original, ao que tudo indica, era de uma alta no meio do ano. Mas se os preços continuarem dessa forma, é pouco provável que Janet Yellen se incline para essa decisão.

 

 

 

(1)    Esses dados são uma estimativa feita a partir de pesquisas domiciliares em Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. A chance da pesquisa “acertar” o comportamento dos salários para o país como um todo é limitada pelo fato de se concentrar em capitais. A renda em cidades menores e do interior pode ter um comportamento diferente. Por uma questão de simplificação, no entanto, aceito essa pesquisa como válida. As possíveis divergências entre o comportamento dos rendimentos pesquisados (a amostra) e os rendimentos efetivos de todos os brasileiros (a  população) tende a se reduzir com séries mais longas, o que é o caso.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com