Dia volátil com Suíça e resultados de bancos.

O Banco Nacional da Suíça decidiu deixar sua moeda flutuar e ela se valorizou 14% frente ao dólar. Apesar de não dizer isso,  essa foi uma medida para evitar a desvalorização da enorme riqueza de estrangeiros mantida no país por conta de suas vantagens legais e tributárias. Essa medida levou a um zigue e zague nas bolsas europeias e no Brasil. Nos EUA Citi e Bank of America têm resultados abaixo do esperado e devem aumentar a pressão para que o governo alivie a legislação sobre o setor, endurecida após a crise de 2008.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O dia começou muito desencontrado alternando altas, forte baixa e nova alta. As bolsas da Ásia fecharam em alta por conta da confirmação de que o PBOC (banco central da China) vai administrar a liquidez das operações interbancárias de sorte a manter as taxas de juros baixas nesse segmento e, assim, permitir que as operações para o setor imobiliário continuem fluindo. Hoje foram divulgados dados da oferta de crédito e eles indicaram crescimento tanto na modalidade “fora do sistema” (“shadow banks”), que inclui operações feita diretamente entre os agentes econômicos e que não ficam nos ativos dos bancos, como na operações bancárias. A medida de oferta monetária M2 apresentou em dezembro alta de 12,2% em relação ao ano anterior, mostrando que as operações bancárias estão criando moeda em um ritmo acelerado. Acentuou o otimismo os rumores de que os passos para um novo pacote de estímulos estão sendo dados pelas autoridades chinesas.  A bolsa de Tóquio subiu 1,86%, a de Hong Kong 0,99% e a de Xangai 3,54%. Veja o gráfico da bolsa de Xangai:

 

 

Em seis meses a bolsa de Xangai acumula 63% de alta e há gente que defenda que os múltiplos ainda indicam espaço para alta. Se o governo, de fato, vier com um novo pacote, é possível que mais essa “profecia” se realize.

A Europa abriu em alta, incentivada pelo anúncio da taxa de crescimento do PIB alemão, de 1,5% em 2014, um pouco melhor que as estimativas do mercado. Todos os componentes da demanda subiram, exceto a variação dos estoques (o que é um indicador positivo). O consumo das famílias subiu 1,1%, os gastos governamentais 1% e os investimentos 3,1%. O setor externo contribuiu com 0,4% na taxa, mostrando que o país ainda consegue se aproveitar do comércio global como fonte de crescimento, apesar da forte desaceleração de seu maior mercado, a União Europeia. Apesar de não ser uma taxa “chinesa”, os 1,5% estão na média de crescimento do país, veja o gráfico:

PIB Alemão

 

 

Estragando o otimismo, o Banco Nacional da Suíça anunciou o fim do limite para a oscilação do Franco Suíço em relação ao Euro e cortou os juros para os depósitos bancários para -0,75%. O banco central suíço vinha tentando evitar a forte valorização de sua moeda e agora “jogou a toalha”. Uma moeda mais forte atua para diminuir a competitividade dos produtos do país frente aos produtos da Zona do Euro, mas o presidente do banco afirmou que essa política estava esgotada. A redução dos juros é uma tentativa de evitar a valorização da moeda, mas é difícil saber se ela funcionará. Pesou nessa decisão o fato do euro estar em desvalorização em relação ao dólar. Ter os depósitos em francos suíços desvalorizados em relação ao dólar, moeda principal de seus maiores clientes, poderia custar caro ao seu sistema bancário. A moeda se valorizou 14% frente ao dólar depois desse anúncio, caindo de 1,0187 francos/dólar para 0,8754 francos/dólar.

Depois de absorver o impacto dessas medidas, as bolsas saindo de altas de 1% para quedas de 1%, o mercado europeu se estabilizou e voltou a subir forte, com Londres em +0,97%, Paris +1,65% e Frankfurt +1,54%. Como toda decisão de política econômica implica em perdedores e ganhadores, sobretudo quando se trata de política cambial, há que se perguntar quem saiu ganhando. Como o principal serviço oferecido pelo país é a relativa imunidade de seus sistemas bancário e tributário (há sigilo, enormes vantagens legais, baixíssima tributação, etc...), a desvalorização do franco frente ao dólar estava impondo perdas aos depositantes nos bancos suíços e aos acionistas que mantinham  empresas em seu território. Houve uma imensa imigração de “nacionalidades” para o território suíço quando países ao redor do mundo passaram a endurecer seus sistemas tributários. O bem suíço mais cobiçado pelo mundo, não é, na verdade, o seu chocolate, mas o seu sistema tributário. O franco deve continuar a se valorizar...

No Brasil a Petrobrás se beneficiou da melhora do petróleo no mercado internacional, com o Brent sendo cotado a US$ 49,00 e com a notícia, dada ao final do pregão de ontem, confirmando a divulgação do balanço da empresa para o final desse mês. Também o cobre se valorizou, com alta de 2,31%, melhorando o cenário para o setor de matérias primas que, medido pelo índice de materiais básicos IMAT, sobe 1,45%.

Nos EUA foram divulgados pedidos de seguro desemprego, inflação ao produtor e produção industrial no estado de Nova York. Os dois primeiros vieram fracos, com mais solicitações de seguros desemprego (316 mil ante 294 mil na semana anterior) e preços caindo 0,3% em dezembro, mas a produção industrial veio forte. O indicador era esperado em 5,0 e veio em 9,95, depois de cair 3,58 em dezembro. É um sinal de recuperação, veja o gráfico:

 

O Citi divulgou seu resultado do quarto trimestre e ele veio abaixo das expectativas. Já era esperada uma queda de suas receitas, em decorrência da redução das operações de “trading” (operações especulativas nos mercados futuros, de títulos e de moedas), mas ela superou as expectativas. O lucro veio em US$ 0,06 por ação ante o esperado de US$ 0,09. Já o Bank of America veio com US$ 0,25 por ação, ante os esperados US$ 0,31. As ações do Citi caem 2,5% e as do Bank of américa 3%. Apesar do enorme ganho que os bancos estão tendo com a possibilidade de tomar dinheiro a custo zero do banco central e emprestar ao tesouro a taxas positivas (de 0,5% a 1,5%), eles estão sendo “espremidos” pela aplicação das regulamentações da lei Frank-Dodd e pelo aumento dos custos legais, decorrentes de processos judiciais. 

Ontem o CEO do JP Morgan,"Jamie" Dimon, que teve um lucro de US$ 22 bilhões, disse: “nós temos cinco ou seis reguladores ou pessoas vindo até nós com todos os tipos de problemas. É uma coisa difícil lidar com isso”. Imagino! O banco recebeu processos por ter vendido hipotecas tóxicas aos seus clientes e, por conta disso, coloca-los em operações podres. Também foi processado pelas autoridades europeias por manipular os mercados de derivativos (seu operador era chamado o “big whale” de Londres) e de juros (na formação da taxa Libor). Os mesmos processos estão sendo levados a cabo nos EUA. Até 2019 o JP deverá reforçar em mais US$ 20 bilhões seu capital para manter esse mesmo nível de operações e não mais poderá especular como especula em todos os mercados (por conta da cláusula Volcker da lei Frand-Dodd). 


Os bancos têm gasto uma fábula em verbas para lobby, de sorte a influenciar os legisladores no sentido de reverter o endurecimento das leis e regulações. Dimon, é claro, conta com a possibilidade da sociedade ter esquecido que foram os bancos, dirigidos por gente como ele, que levaram o mundo ao colapso em 2008, após as leis terem sido relaxadas nos anos Clinton. Naqueles anos não era “uma coisa difícil lidar com isso” e os bancos colocaram dinheiro de seus clientes em todo tipo de operações que se tornar lixo tóxico para os balanços bancários. O governos injetaram até 2010 mais de US$ 1,5 trilhão de dólares nos bancos para que os mesmos pudessem ficar em pé! Hoje os banqueiros, sobreviventes graças aos contribuintes, querem mais flexibilidade e um ambiente onde a “coisa não seja tão difícil de se lidar”. Dimon está em plena campanha para reverter o endurecimento da legislação e até aqui vem ganhando pontos. Recentemente. em um painel para discutir a regulação financeira, levado a cabo pela SEC, e tendo como objeto específico as operações de alta frequência1, o nome de Joseph Stigltiz, economista acadêmico, especializado em mercados financeiros2, foi “barrado” pelos bancos. Todos sabiam que Stiglitz é adepto da maior regulação do sistema e que ele iria propor uma taxa para amenizar os efeitos dessas operações sobre o risco total do sistema. A revista eletrônica Salon informa, em reportagem do dia 11/jan, que na votação de uma lei que endurecia as regras bancárias, os membros que votaram a favor receberam US$ 322,00 em média do setor FIRE (bancos, seguradoras e empresas imobiliárias), ao passo que os que votaram contra receberam US$ 162 mil. As despesas do FIRE com lobby aumentaram de US$ 609 milhões em 2.000 para US$ 996 milhões, tudo já corrigido pela inflação3. Um aumento real de 63% nos gastos do setor em políticas para convencer os legisladores a respeito de suas “boas intenções”.

Enquanto escrevia esse “post” os mercados viraram e passaram a cair. O petróleo voltou para US$ 48,50 e o S&P500 cai 0,45%. Ainda que o Ibovespa esteja no terreno positivo, a “coisa realmente dura de se lidar” é a volatilidade dos mercados que tende a se manter elevada, apesar dos esforços do FED.

 

(1)   Os grandes bancos globais têm feito a festa ao operar em bolsas de valores e futuros a partir de robôs. Eles são capazes de emitir e realizar ordens de compra e de venda em milésimos de segundos. Como eles têm suas corretoras, os custos de transação são extremamente baixos. Ao realizar milhares de operações com um diferencial de preços pequeno, eles embolsam lucros gordos, às custas do mercado, que têm seus custos de transação encarecidos (o diferencial de entrada e saída de um ativo tem que passar, necessariamente, por esse “pedágio” imposto pelos robôs). Os volumes de transação nas bolsas subiram enormemente nos últimos anos em decorrência dessas operações automatizadas. Com a alta dos volumes subiram, também, os riscos.

 

(2)   Ele recebeu seu Nobel por seus trabalhos sobre o racionamento de crédito nos mercados financeiros e sua relação com informações assimétricas. É professor da Universidade de Nova York e não é funcionário ou consultor de algum banco.

 

(3)   Salon: http://www.salon.com/2015/01/11/why_is_the_financial_industry_so_afraid_of_this_man/

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com