Banco Mundial revisa para baixo estimativa de crescimento global.

O Banco Mundial continua em sua "mea culpa" contida a respeito das recomendações que fez depois da crise, junto com o FMI, para que os países adotassem políticas de austeridade. Hoje ele reviu sua projeção para o crescimento global de 3,4% para 3% e ainda colocou riscos elevados para a piora da situação. Aqui no Brasil, por conta do quadro fiscal, coloco como estimativa para o PIB de 2015 uma queda entre 1% e 0,5%. Caso as chuvas não recomponham a capacidade dos reservatórios, que estão com a metade do que tinham em janeiro do ano passado, a taxa pode cair para -2%.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O Banco Mundial divulgou hoje o seu relatório sobre as perspectivas econômicas globais, intitulado “Having Fiscal Space and Using It” (traduzo para: tendo espaço fiscal, use-o). De certa forma o Banco Mundial diz ao países que não estão sendo punidos pelos mercados por conta do aumento de seus déficits fiscais, que usem da política fiscal para estimular suas economias. Repetindo os passos do FMI, ele sugere: investimentos em infraestrutura e em pessoas. É uma forma de rever as orientações que o levaram persistentemente a sugerir austeridade fiscal após a crise de 2008. Como o resultado da austeridade fiscal foi um desastre de proporções épicas, a instituição mudou discretamente suas recomendações. O FMI também fez isso. Veja os principais pontos de projeção do Banco Mundial:

 

 

O crescimento global esperado caiu de 3,4% para 3,0%, por conta das decepções em relação aos países em desenvolvimento, à Zona do Euro e ao Japão. Todos eles adotaram a austeridade como receituário para saírem da crise e desembocaram no que o Banco chama hoje de riscos prolongados de “estagnação”. O Banco vê quatro riscos para piorar o quadro: (1) a manutenção de um comércio global fraco; (2) aumento da volatilidade dos mercados financeiros por conta da elevação dos juros nos EUA e no Reino Unido; (3) os efeitos da queda dos preços do petróleo sobre as contas dos países produtores e, (4) a manutenção da crise na Zona do Euro e no Japão.

Nesse cenário de baixo crescimento a perspectiva para a recuperação dos preços das matérias primas é quase zero. E isso mexeu com os mercados, empurrando os futuros dos EUA para baixo em um mundo que já tinha a Ásia e Europa com quedas acentuadas. A coisa ficou um tanto pior com a divulgação das vendas no varejo, que vieram com queda de 0,9% em dezembro, veja o gráfico das vendas do varejo nos EUA:

 

 

Com tudo isso o petróleo cai mais e os mercados vão azedando sem parar. Nem os lucros do JP Morgan, de US$ 4,93 bilhões (US$ 1,19 por ação), um pouco acima das expectativas de R$ 1,02/ação, e do Wells Fargo, de US$ 5,71 bilhões (US$ 1,02 / ação), dentro esperado, ajudaram a melhorar o ambiente. As expectativas continuam se deteriorando e os quatro pontos levantados pelo Banco Mundial apresentam-se como grandes candidatos de personagens principais do ano para frustrar, pelo quinta ano consecutivo, as expectativas de crescimento apresentadas pelo “austero” Banco Mundial.

 

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A projeção do Banco para o crescimento do Brasil em 2015 é de 1%. No Brasil, a Gerência Executiva de Relacionamento com Investidores, responsável pela coleta das projeções do mercado, tem como mediana para o crescimento esperado para 2015 0,4%. É possível que essa taxa esteja otimista demais considerando que:

  • Se o regime de chuvas continua como está e se o governo repassar integralmente os custos decorrentes da falta de água nos reservatórios, a energia elétrica subirá entre 30% e 40%. Veja o gráfico abaixo com a situação dos reservatórios das Regiões Sudeste/Centro Oeste:

 

 

 O ano de 2014 foi um dos mais críticos em termos de chuvas das últimas décadas e já entramos nele com os reservatórios com 40% de sua capacidade. Neste ano entramos em janeiro com a metade do que tínhamos no ano passado. As chances do cenário ruim para o setor energético aumentaram fortemente. Com certeza os custos de energia irão pressionar para baixo o nível de atividades, seja sobre seus efeitos sobre a renda real das famílias, seja pelos decorrentes do aumento dos custos de produção. O impacto direto do aumento da energia sobre o IPCA ficará entre 0,9% e 1,2%. O impacto total (que soma os repasses dos aumentos de custos aos bens e serviços da cesta de bens e serviços do índice) é maior.

  •  Se a situação de chuvas se mantiver como está, ela poderá implicar em racionamento de energia a partir o terceiro trimestre o que poderá impactar o PIB de forma acentuada. Um racionamento feito nos moldes dos que foi feito em 2001 pode implicar em redução de cerca de 1% na taxa de crescimento de 2015.
  • Se a situação de chuvas se mantiver, o abastecimento de água para a região Sudeste poderá entrar em colapso, prejudicando a agricultura, a indústria e os serviços, com impactos fortes sobre o nível de atividades.
  • Se a situação de chuvas se mantiver, o impacto dos alimentos sobre a inflação continuará elevado, aumentando o IPCA e reduzindo ainda mais a renda das famílias.

  

Com esses “se” o PIB do Brasil pode encerrar 2015 abaixo dos 0,4% projetados pelo mercado e, com certeza, muito abaixo do 1% do Banco Mundial. Sem os “se” é provável que o crescimento de 2015 fique entre -1% e -0,5%, sobretudo por conta dos efeitos do ajuste fiscal. Se os “se” vierem com intensidade moderada, teremos um PIB caindo 2%. Se os “se” vierem com força total, não fará sentido se preocupar com o número final de nossa taxa de crescimento.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com