IPCA de 6,41% no Brasil e criação de três milhões de empregos nos EUA

O IPCA encerra o ano em 6,41%, levemente abaixo do teto da meta. Mas o cenário real da inflação está distante do público, bombardeado com opiniões acerca da "qualidade da política monetária" levada a cabo pelo BC. A inflação está alta e vai continuar ao longo de 2015, por conta da forte seca que assola as regiões Sudeste e Centro Oeste e por conta do dólar. Nos EUA o mercado de trabalho criou quase três milhões de vagas em 2014, coisa que não se via desde 1999.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Hoje o IBGE anunciou a inflação de dezembro e ela veio em 0,78%, acumulando 6,41%. Por mais 0,09% o BC teria que pedir desculpas à sociedade por “ter permitido que a meta fosse estourada”. Veja o gráfico do IPCA acumulado em doze meses:

 

 

Em 2012 já havíamos esbarrado no teto e por pouco ele não foi estourado. Veja o “post” de 08/01/2012: http://pepasilveira.blogspot.com.br/2012/01/inflacao-sistema-de-metas-inflacao.html . Ainda acredito que o Sistema de Metas de Inflação é muito mais um problema de “profecias autorrealizáveis” (“self fulfilling prophecy”) imposto à sociedade pelos mercados ao longo dos anos 2000, na esteira do que foi chamado o “Grande Consenso”(1), do que "A" solução para a inflação. Criou-se o credo de que a inflação deve ser combatida por meio de um sistema de regras e que ele contem as condições necessárias e suficientes para controlar a inflação e em decorrência disso garantir o crescimento econômico de qualquer país, em qualquer época histórica, independente de seu estado inicial (no ato da entrada). O fato é que a inflação foi um fenômeno dos anos pós guerra e expressou a exaustão dos mercados de matérias primas e dos mercados de trabalho após a forte expansão das economias durante a guerra fria. Com fortes taxas de crescimento, necessárias para recuperar boa parte da Europa, África e Ásia, destruídas pela guerra, os países começaram a se deparar com altas inflações, sobretudo após os anos 1960. Após um surto inflacionário forte, as economias começaram a se “desinflacionar” em meio às políticas conservadoras de Reagan e Thatcher e com a entrada no mercado global dos “Dragões Asiáticos”, com produtos baratos, produzidos com mercados de trabalho desregulados e altamente competitivos. A inflação foi acomodada, caindo na maior parte dos países, com aumento do desemprego estrutural na Europa e queda do emprego industrial nos EUA. Completou esse ciclo a entrada no mercado trabalho global os 200 milhões de trabalhadores qualificados na China e na Índia entre 2000 e 2007. A inflação simplesmente caiu e não há evidência alguma que as regras do SMI tenham sido decisivos para isso. O próprio Ben Bernanke, ex-presidente do Federal Reserve, escreveu um ótimo livro em conjunto com Frederic Mishikin, discorrendo sobre as vantagens e as nulidades do sistema(2). A inflação caiu por conta do aumento da produtividade global e das mudanças estruturais nos mercados de trabalho. O SMI pode ter contribuído para tornar a política monetária mais previsível e transparente, mas são muito fracas as evidências de que o sistema basta para controlar eventos inflacionários importantes (como os que vivemos no Brasil, onde não controlamos as variáveis macro mais importantes por sermos uma economia emergente) e, muito menos, para retirar os riscos deflacionários que estão assombrando o mundo desde 2010. Ao contrário: o mundo tem sido palco da REVOGAÇÃO DE TODOS OS PRINCÍPIOS DO SMI, já que é a oferta monetária que tem jogado um peso muito mais importante do que o “gerenciamento das expectativas inflacionárias dos agentes”(3). E onde essa discussão nos leva: a importância que dão à inflação atual está mal direcionada. Mais da metade do aumento de preços nos Brasil ocorreu por conta da seca, que elevou os preços dos alimentos e da energia elétrica e da desvalorização do real. Toda a discussão levada a cabo na imprensa, ao longo de todo o ano, e responsabilizando Tombini e sua equipe foi, para dizer o mínimo, um desvio da atenção para o problema real. Estamos sob os efeitos de um dos maiores choques climáticos da história e absorver os efeitos disso custa caro para sociedade, seja em termos da queda da renda de diversos setores, seja pela queda do nível de atividades. O que é pior: a situação deve continuar ao longo de 2015 e pode ser agravada pelo DEVER DE CASA. Em um economia que está em queda, fazer o dever de casa (cortar despesas e aumentar impostos), faz com que a economia caia mais ainda. Uma vez mais: cortar despesas em economias em recessão é como dar laxante a uma criação com desidratação. Evidências? Olhe para a Europa, ou para a Ásia dos anos 1990 e o Brasil, dos anos 1980, 1990 e 2000. Teremos mais inflação e mais recessão; é muito pouco provável que seja diferente. O que não se pode dizer é que isso é necessário ou inevitável.

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Já nos EUA a economia nada de braçadas: a geração de empregos de dezembro foi a maior desde 1999. Foram criados 252 mil empregos, com uma revisão para cima dos empregos criados em novembro, para 353 mil de 321 mil apurados anteriormente. A economia dos EUA significativamente na melhora de seu mercado de trabalho (que lá é considerado meta e não variável de ajuste). Apesar da forte criação de empregos, os salários não estão subindo, sinalizando um equilíbrio positivo, sem inflação. Veja o gráfico da geração de empregos:

 

 

Depois de perder mais de dez milhões de empregos, o mercado de trabalho dos EUA foi se recuperando à medida que os efeitos positivos do Quantitative Easing iam se disseminando sobre a economia. A geração de empregos ainda não garante as melhores vagas e, tampouco, os melhores salários, mas a situação dos EUA é incomparavelmente superior à da Europa, quem tem um desemprego de mais de 11% na Zona do Euro. Veja o gráfico da criação anual de vagas:

 

 

Sobre o descasamento entre o “sucesso” dos EUA e o verdadeiro fracasso da Zona do Euro, sugiro a leitura do artigo “Europe´s Lapse of Reason” , escrito por Joseph Stiglitz, no link http://www.project-syndicate.org/commentary/european-union-austerity-backlash-by-joseph-e--stiglitz-2015-01 . É uma aula sobre a estupidez de se fazer “o dever de casa” em economias sob recessão. Vale para o Brasil.

A partir de agora deverão crescer os temores de que o FED possa subir os juros antes do planejado. Se o mercado de trabalho está aquecido, então é possível que muita gente pense que a autoridade monetária se antecipe para evitar a inflação. Mas sabemos que o FED não irá subir os juros de repente, ele terá PACIÊNCIA, como vem avisando desde a penúltima reunião. Dados fortes da economia americana poderão alimentar essas expectativas e, com isso, elevar os juros longos, praticados nos mercados de dívidas públicas e privadas ao redor do mundo. Ainda que o FED esteja escancarando sua intenção de manter os mercados tranquilos, a volatilidade deve continuar subindo.

 

(1) Uma vez mais repito a indicação para leitura: “The Science of Monetary Police: a New Keynesian Perspective” de Clarida, Galí e Gertler (http://www.nyu.edu/econ/user/gertlerm/science.pdf ) ou “The State of Macro” de Blanchard (http://www.nber.org/papers/w14259.pdf ).

(2) “Inflation Targeting: Lessons from the International Experience” , Ben Bernake, Thomas Laubach, Frederic Mishikin e Adam Posen. Disponível na Amazon por US$ 31,00 (http://www.amazon.com/Inflation-Targeting-Lessons-International-Experience/dp/0691086893/ref=sr_1_fkmr0_1?ie=UTF8&qid=1420811731&sr=8-1-fkmr0&keywords=bernanke+mishkin+nflation+targeting )

(3) É claro que a maioria (99,99%) dos defensores do SMI, baseados nos modelos DSGE (Dynamic Stochastic General Equilirium), rejeitam a idéia de que o SMI tenha fracassado. Ao contrário, tem sido grande a produção de artigos acadêmicos no sentido de “provar” que, apesar de não terem tido papel algum para evitar a crise e, tampouco, para solucioná-la, o SMI ainda continua válido. Eis um trabalho que aborda a discussão: “Inflation in the Great Recession and the New Keynesian Models”, Marco Del Negro, Marc P. Giannoni, and Frank Schorfheide; Federal Reserve Bank of New York Staff Reports, no. 618 (http://www.newyorkfed.org/research/staff_reports/sr618.pdf )

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com