Angela Merkel derruba mercados globais

Angela Merkel sinalizou, no final de semana, que uma eventual vitória da oposição na Grécia e a saída do país da Zona do Euro, serão prontamente aceitos. A perspectiva, no entanto, é de que a Grécia possa sinalizar o caminho para outros países membros que amargam situações tóxicas para o emprego e a renda. O pânico bateu no mercado de moedas, títulos soberanos, privados e nas bolsas. O petróleo Brent, por conta disso, caiu abaixo de US$ 55 o barril e levou a Petrobrás abaixo dos R$ 9,00.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O mercado não poderia ter um início de semana pior: o euro vai derretendo, levando consigo o petróleo, as bolsas europeias, as moedas em geral e nossa bolsa em particular. O Ibovespa já abre com queda de 1,63% e com Petrobrás caindo abaixo dos R$ 9,00 e não dá mostras de parar. Vale lembrar que a queda das moedas em relação ao dólar acentua a queda das matérias primas em dólares e isso vai piorando o quadro. O petróleo Brent bateu US$ 55,00 o barril, veja o gráfico:

 

Amplificam a queda as informações de que o Iraque deve exportar 3,2 milhões de barris por dia em janeiro, 12% a mais do que exportou em dezembro e que a produção da Rússia bateu 10,7 milhões de barris por dia.

No Brasil a FGV divulgou o fechamento do IPC-S em 0,75%, em dezembro. Veja o gráfico e a tabela:

 

Como já salientei em relatórios anteriores, mais de 50% da inflação desse ano decorreu dos alimentos e das tarifas de energia elétrica. A forte seca nas regiões Sudeste e Centro-Oeste foi diretamente responsável por essas altas; leve em conta ainda o fato de que alimentos e energia atuam indiretamente, como custos, na formação dos preços ao consumidor. A inflação, portanto, foi duramente castigada pela seca e deve continuar pressionada nesse ano: as condições dos reservatórios de água para geração de energia e utilização na agricultura estão muito ruins. As chuvas estão muito abaixo do necessário para recompor a capacidade das regiões em produção, o que sinaliza para um cenário ruim em 2015, com novas altas de energia e alimentos. Colabora para o cenário inflacionário pior a alta do dólar.

No cenário externo a eventual saída da Grécia da Zona do Euro - passando a utilizar-se de sua própria moeda e em regime de renegociação dos termos dos acordos efetuados com seus credores três anos atrás – está sendo subestimada pela cúpula da Zona do Euro. Angela Merkel disse que uma eventual saída da Grécia seria aceita pela Comissão Europeia e deu a entender que não trabalha com outro cenário. O país, que tem desemprego de quase 30%, com quase 100% para os jovens, está com eleições marcadas para esse mês e é grande a chance da oposição vencer. Em caso de vitória o tom de negociação com os credores e a “Troika” (o Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o FMI) deve mudar drasticamente. A população efetivamente não suporta mais o enorme peso de um ajuste que arrasta o país para um de seus momentos mais amargos. O problema não é só a dívida da Grécia, que pode pesar sobre os ativos dos bancos europeus, é o caminho que ela apontará para Espanha, Itália e outros países com situações semelhantes.  A recusa da Comissão Europeia em discutir uma reforma que estabeleça a união fiscal da região é o sinal mais forte para o fim do euro. A aposta arriscada da Alemanha, e de outros países que foram amplamente beneficiados pela formação do bloco monetário, é a de que poderiam sobreviver sem esse “peso”. Mas é justamente “pesos” como Grécia que sustentaram o forte crescimento alemão desde a unificação monetária. A saída do país, e talvez de outros, colocaria a sua confortável situação em mudança rápida. Os mercados não duvidam disso, basta ver a cotação do Euro:

 Euro (barra = semana)

 

Vale lembrar: quanto mais notícias ruins sobre crescimento, mais as moedas caem; quanto mais as moedas caem, mais notícias ruins sobre crescimento; em ambos os casos, os preços de matérias primas tendem a cair. O cenário é de aceleração da deterioração das expectativas dos agentes em relação às perspectivas para 2015. Isso no segundo pregão do ano.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com