Levy reafirma um forte aperto em 2015.

Em entrevista ao Valor o futuro ministro Joaquim Levy adianta alguns pontos de seu ajuste. O dólar deverá ficar acima de R$ 2,86 para ajustarmos o setor externo, a inflação ficará elevada para reequilibrar as tarifas e a economia perderá 1,5% da sua taxa de crescimento no ajuste fiscal. Avançando sobre outras questões o ministro mostra que poderemos vislumbrar um forte conflito entre suia pasta e os partidos da base governista.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Em entrevista ao Valor, o futuro ministro da fazenda, Joaquim Levy, confirma a intenção de mudar de forma radical a política econômica nos próximos quatro anos. Além de confirmar o desejo de fazer um ajuste fiscal que levará o déficit primário de R$ 10 bi para um superávit primário de R$ 66 bi, ele apontou a necessidade de ajustar o setor externo. Para isso, conta com o aumento da poupança interna (aumento do superávit primário) e com a mudança de preços relativos, o que vem a ser uma DESVALORIZAÇÃO DA TAXA DE CÂMBIO REAL. Quanto maior o ajuste externo, tanto maiores deverão ser o ajuste fiscal e a desvalorização da taxa de câmbio real. Aí temos um detalhe importante: a desvalorização da taxa de câmbio em termos reais exclui a inflação doméstica ocorrida no período1.

Temos aqui um sinal de menor nível de atividade econômica e de maior inflação. O esforço fiscal custará cerca de 1,56% da taxa de crescimento (de R$ 10 bi de déficit para R$ 66 bi de superávit)2. Já a desvalorização da taxa de câmbio exigirá que os repasses aos preços livres e aos salários sejam baixos (se a inflação subir muito, ela anula os efeitos da desvalorização nominal do real)3. Para que os repasses sejam baixos, o mercado de trabalho não pode estar aquecido, o que implica em desemprego. Como Levy também citou a necessidade de ajuste das tarifas públicas - e até as pedras sabem que as condições de geração estarão piores em 2015 do que foram em 2014 - a inflação não será menor do que está.

Esse “kit” de “solução dos problemas” econômicos do Brasil implicará em inflação e desemprego maiores, juros maiores, dólar mais desvalorizado e crescimento menor. As únicas variáveis que podem aliviar um pouco esse aperto vêm de fora: se a economia global crescer mais rápido as necessidades de ajuste diminuem.

Para o ambiente corporativo é possível que tenhamos uma pressão mais forte sobre os lucros, como resultado imediato do aumento da poupança do setor público e do aumento dos custos de energia. Podem compensar essa pressão, uma queda real dos salários e um ajuste mais favorável do saldo de transações correntes. Mas ambos não são “controláveis”, dependem de fatores que estão além da capacidade de gerenciamento macroeconômico do BC ou do Ministério da Fazenda.

Em termos gerais: se a inflação será de pelo menos 6,5%, então a taxa de câmbio deverá estar acima de R$ 2,86 para produzir algum efeito. Se os preços das matérias primas continuarem a cair e o dólar continuar a se desvalorizar em relação às outras moedas, então a moeda deve ficar ainda mais acima. Quanto mais o setor externo estiver pior, tanto maior esses números pioram, agravando a taxa de desemprego e a taxa de crescimento.

Com taxa de crescimento perto de zero e juros reais em alta para assegurar a desvalorização real da taxa de câmbio, é provável que a trajetória da relação dívida bruta/PIB não melhore tanto quanto Levy deseja. Seria uma pequena vitória se a relação não piorasse, como ocorreu nos PIIGS após a adoção desse mesmo tipo de programa, sob a gestão da “Troika” (o FMI, a Comissão Europeia e o BCE). Vale lembrar que a adoção de programas de cortes de despesas em países em recessão aumentam a recessão e pioram a situação fiscal. Tanto é assim que o próprio FMI reviu sua posição, aconselhando a “consolidação fiscal” de forma mais suave e programas de gastos públicos. Mas ainda é precipitado fazer uma projeção em relação a isso, já que tudo depende da situação da economia global.

Levy avançou para além do ajuste fiscal e confirmou sua visão pró mercado em tudo em que foi demandado pela repórter. Ao falar sobre o sistema financeiro, sobre o setor de energia, a educação, a estrutura geral do gasto público e até mesmo em uma comparação entre o governo George Bush, o filho, e o governo Dilma, o futuro ministro supera as expectativas: quer sinalizar ao mercado que discorda de qualquer política que o governo Dilma (e seu antecessor, o governo Lula) tenha adotado. Mais que isso: condiciona o sucesso de nossa economia à reformulação total das políticas de governo, instalando aqui um modelo mais próximo ao adotado na Espanha e na Grécia, do que o que vinha sendo adotado aqui.

Esse posicionamento assegura o encanto dos mercados. Assegura o aumento da credibilidade na política econômica no curto prazo. Mas instala muitas incertezas em relação à estabilidade das relações entre o Ministério da Fazenda e todos os outros setores do governo. O ano que vem não será fácil...

 

 

 

(1)    Assim, se o real estava em R$ 2,3426 em 31/12/2013, tivemos uma desvalorização de 14% até hoje, com o dólar cotado a R$ R$ 2,6750. Essa é a desvalorização nominal da taxa de câmbio. Como há aumento dos preços internos (a nossa inflação), para que os preços internos se desvalorizem em relação aos preços externos, é necessário descontar o aumento dos preços ocorridos por conta de nossa inflação. Assim, se o IPCA fechar em 6,5%, a desvalorização da taxa de câmbio em termos reais será de 14%, menos a inflação medida pelo IPCA, o que dará 7,2%. Em geral consideramos a inflação ocorrida no exterior, mas como ela tem sido muito baixa, eu a desconsiderei por questão de simplicidade. Além disso, a taxa de câmbio real leva em conta as moedas de nossos principais parceiros e não apenas o dólar. E necessário construir uma “cesta” de moedas para calcularmos a desvalorização cambial em termos reais. Ela é que nos dará uma medida mais eficiente para examinarmos a trajetória do ajuste externo. Esse cálculo é feito no Brasil pelo IPEA, e es tá disponível no link: http://www.ipeadata.gov.br/ (temas>câmbio>IPEA>Taxa de câmbio efetiva – INPC – Exportações ). Nos EUA o Federal reserve também a calcula: http://federalreserve.gov/releases/h10/current/ (Broad, Major Currency, OITP).

(2)    O PIB utilizado é o PIB a preços correntes de 2013, R$ 4,844 trilhões. No link: https://www3.bcb.gov.br/sgspub/consultarvalores/consultarValoresSeries.do?method=consultarValores . Não há uma abordagem única para avaliar os efeitos dos gastos públicos sobre a taxa de crescimento e sobre o nível de preços. Os keynesianos acreditam que há um multiplicador fiscal superior a 1, indicando que a cada R$ 1 que o governo gasta, haverá um aumento superior a R$ 1 no gato total da economia. Nesse caso, um aumento de1% no gasto público geraria um aumento superior a 1% do PIB da economia. Já os adeptos à teoria da equivalência ricardiana, que se reúnem debaixo de modelos “neokeynesianos” (estão longe de serem keynesianos) acreditam que o multiplicados, na maioria das vezes é menor do que 1. Assim se o governo gasta mais a economia cresce menos em na posição oposta, se o governo corta gastos, há mais crescimento. As evidências empíricas dão mais razão à primeira corrente, mas essa é uma discussão entre surdos. Veja o pronunciamento técnico do BCB a respeito: http://www.bcb.gov.br/htms/relinf/port/2011/03/ri201103b8p.pdf .

 

(3)    Nesse ano, por exemplo, se desvalorização cambial e IPCA fossem ambos de 7%, a desvalorização cambial real seria nula. Mais que isso: se os preços das matérias primas estão caindo fortemente, a desvalorização cambial real será diminuída pela deflação de preços em dólares. Quanto mais os preços internos sobem, ou quanto mais os preços externos caem, tanto mais a taxa de câmbio precisa se desvalorizar. No final dos anos 1970 e início dos anos 1970, para estabilizar o setor externo da economia brasileira, a desvalorização cambial foi feita sem levar em conta esse fato. Seja pela forte mobilização popular, seja pela forte indexação da economia, a primeira desvalorização cambial se transformou em inflação e não trouxe resultados. A segunda, feita em 1983, levou o país a uma forte recessão e essa conseguiu reduzir a demanda doméstica e produziu um saldo de exportações favorável ao ajuste.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

Deixe seu comentário

Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com