Com PIB de 5% o S&P500 bate mais um recorde

O BCB mostrou em seu RTI que mantem a projeção de que a inflação convergirá à meta em 2016 e que espera uma inflação superior a 6% no ano que vem. Nos EUA o PIB do terceiro trimestre veio em 5% e animou o mercado a bater mais um recorde, com o Dow Jones superando os 18 mil pontos. Os preços, no entanto, seguem em marcha muito moderada, sugerindo que o FED se manterá, como avisado, muito paciente com os dados.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O IBRE-FGV divulgou a 3ª. semana de dezembro do IPC-S e ela veio em 0,76%, após duas semanas em 0,77%. As principais altas vieram dos hortifrutigranjeiros, das tarifas de energia elétrica residencial, do aluguel e da gasolina e da telefonia. Veja o gráfico e a tabela do IPC-S:

 

 

A inflação oficial, o IPCA do IBGE, devem fechar o ano muito próxima aos 6,5% e já discuti aqui sobre as influências que levaram a inflação a esse patamar, teto da meta do Sistema de Metas de Inflação do BC: http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/12/sem-energia-e-alimentos-o-ipca-fica-em.html  e http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/11/alimentos-e-energia-eletrica-foram-40.html. No Relatório Trimestral de Inflação o BC voltou a sinalizar que espera que o retorno da inflação ao centro da meta ocorra em 2016 e que a inflação do ano quem continuará elevada, acima de 6%. Conta para essa expectativa, é claro, o papel da desvalorização cambial e da seca. Os reservatórios ainda estão muito baixos e indicam que a política para o setor energético continuará de preços elevados e temos um ambiente incerto para o fornecimento à indústria e agropecuária nas regiões Sudeste e Centro-Oeste.

Nos EUA foi divulgado o PIB do terceiro trimestre, e ele veio em 5% em termos anualizados. Muito acima dos 4,3% esperados pelo mercado e isso ajudou a impulsionar as bolsas. O índice S&P500 já havia batido o seu recorde histórico ontem e hoje está subindo mais. O Dow Jones, o índice das trinta  ais negociadas, rompeu os 18.000 mil pontos pela primeira vez. Desde a sua queda máxima, em março de 2009, até agora, a bolsa subiu mais de 213%, veja o gráfico:

 

Nos últimos 30 anos as bolsas americanas viram três grandes ciclos de alta: o da bolha das empresas de internet, a da bolha imobiliária e a atual, impulsionada pela enorme liquidez e pelos juros muito baixos gerados pelo programa de estímulos da economia feito pelo Federal Reserve, o Quantitative Easing, com os mais de US$ 3,5 trilhões injetados na economia desde o seu início. Com essa forte injeção de dinheiro houve uma enorme recuperação da riqueza, medida pelas ações em bolsa e pelo valor dos imóveis. Na crise de 2009 a economia dos EUA observou o desaparecimento repentino de mais de US$ 30 trilhões da riqueza, sob a forma de ações, imóveis e títulos (de bancos e empresas). O Quantitave Easing serviu, entre outras coisas, para evitar que os preços continuassem a cair e, depois, começassem a se recuperar. Hoje, como mostra o gráfico do SP500, o valor das ações está 32% superior ao que era antes da crise. O mesmo vale para os imóveis, veja o gráfico com o índice de preços de imóveis da “US Federal Housing Finance Agency”:

Ainda que faltem cerca de 8% para a recuperação total do valor de mercado, o mercado imobiliário está caminhando para superar os seus máximos.

Durante a crise de 2008/2009, os indicadores de concentração de riqueza e de renda mostraram uma interrupção da longa tendência de concentração que se observa no país desde os anos 1970. A forte que dos ativos e de sua remuneração (lucros, dividendos, aluguéis e juros) fez com que a participação dos mais pobres subisse em relação à dos mais ricos (os 1% mais ricos que detêm cerca da metade do PIB dos EUA1).

Apesar dos economistas ligados às escolas mais conservadoras considerarem esse tema esdrúxulo em termos econômicos2, ele tem sido muito considerado para os próximos passos do Federal Reserve. Apesar da riqueza ter sido reordenada, os fluxos de renda ainda não seguem a mesma dinâmica. E como a propensão a gastar dos mais ricos é muito menor que a dos trabalhadores, essa renda mais concentrada pode induzir o crescimento da economia dos EUA a uma taxa mais baixa. Ainda que por outros caminhos, o FED teme que o país esteja em algo como L.Summers chamou de a “Hipótese da Estagnação Secular” ( ver: http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/12/commodities-comecam-semana-em-queda.html ). E é por isso que supor que o FED subirá os juros apenas com dados sobre desemprego é arriscado. Eles levarão em consideração a renda, os gastos e os preços, E hoje, junto com o PIB,  foram divulgados esses dados: a renda subiu 0,4% em novembro, os gastos dos consumidores subiram 0,6% mas os preços estão estagnados e não subiram. Muito mais do que tentar adotar uma estratégia para a divisão igualitária da renda, os formuladores de política do FED estão atentos em encontrar uma forma de tornar o crescimento dos EUA mais sustentável sem a necessidade de injetar uma montanha quase infinita de moeda para que ela funcione. O PIB de 5% do terceiro trimestre mostrou que o caminho está certo, mas não há garantias de que ele seja sustentável. Bom para os mercados, já que não é possível imaginar altas de juros que sejam desestabilizadoras.

 

  

 

(1)    Pikkety, T. “Capital in the Twenty-First Century”, Harvard University Press, 2014, pág.24 ; Janet L.Yellen, “Perspectives on Inequility and Opportunity from the Survey of Consumer Finances”, http://www.federalreserve.gov/newsevents/speech/yellen20141017a.htm .

 

(2)    O arauto da escola das expectativas racionais, Robert Lucas, da Universidad de Chicago chegou a dizer: “das tendências que mais são prejudiciais à boa economia, a mais sedutora e, em minha opinião, a mais venenosa, é se concentrar em questões de distribuição.  Krugman, P. “Why We´re in a New Gilded Age” , The New York Review of Books, May 8, 2014 , http://www.nybooks.com/articles/archives/2014/may/08/thomas-piketty-new-gilded-age/ .

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com