Déficit em transações correntes supera 4%.

O déficit de transações correntes bateu 4,05% do PIB e isso deveria acender todas as luzes amarelas. É o déficit externo que é muito grave e não o déficit público. Para corrigi-lo o mercado deveria aceitar que o "tripé" seja, de fato, em tripé: o câmbio deveria flutuar (para cima!) para corrigir essa trajetória explosiva que pode nos levar a perder o "investment grade". Mas, com o setor privado devendo US$ 300 bilhões, os bancos passam a aceitar um "bipé"....
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O BCB divulgou hoje a Nota para a Imprensa do Setor Externo com os números de novembro. O déficit de transações correntes (saldo comercial mais a balança de serviços) veio com um déficit equivalente a 4,05% do PIB, depois de ter atingido 3,73% em outubro. Veja o Gráfico:

Já mencionei no blog que esse é o ponto de maior vulnerabilidade de nossa economia. Veja o "post" http://pepasilveira.blogspot.com.br/2013/12/a-nossa-verdadeira-vulnerabilidade.html . A sua elevação está relacionada à queda de nossa taxa de crescimento (um PIB menor implica em um denominador menor para um numerador que continua subindo) , pelo aumento das importações e queda das exportações. A queda do PIB está autocorrelacionada com o saldo comercial, já que considero a desaceleração global o evento mais importante para a desaceleração de nossa economia.

O governo tentou, de maneira equivocada, manter a taxa de crescimento por meio de incentivos a diversos setores, soba forma de gastos, renúncia fiscal e financiamentos. Mas a competição externa, pressionada pela desaceleração da China e da Zona do Euro, falou mais forte. A produção industrial vem caindo na mesma velocidade que a queda das exportações de manufaturas. Agrava ainda mais o problemaa queda de volume e preços das matérias primas, em particular o minério de ferro.

A única forma de ajustar essa tendência é a desvaloirização da taxa de câmbio: ela encareçe as importações e torna nossos produtos mais baratos em dólares no exterior. Quanto mais a economia global se desacelerar, tanto mais o tamanho da desvalorização cambial. Como toda ação de política econômica tem um "trade-off" (sempre há custos e benefícios!): a inflação subirá, a economia se desacelerará (ao menos por alguns trimestres) e empresas terão problemas financeiros (o setor privado deve cerva de US$ 300 bilhões em dólares). Haverá, como sempre, umn coro enorme contra a desvalorização, sobretudo por conta das "metas de inflação". Mas esse argumento é uma forma elegante dos grandes devedores pedirem ajuda do governo.

O lobby bancário é o porta voz dos setores devedores, seja porque foram os bancos que agenciaram as dívidas, em troca de gordas remunerações, e são os bancos que se empavonam como defensores da boa ordem econômica. Sobre essa forma de agir, vale transcrever matéria do Broadcast sobre o lobby americano ter conseguido adiar a Regra Volcker:

"19/12/2014 14:10:41 - AE NEWS

PAUL VOLCKER CRITICA FED POR CEDER AO LOBBY DOS BANCOS NO CASO DA REGRA DE VOLCKER

Nova York, 19/12/2014 - O ex-presidente do Federal Reserve Paul Volcker divulgou comunicado com forte crítica à decisão do Fed de dar aos grandes bancos mais dois anos para que passem a cumprir a norma que leva seu nome.

"É notável que os maiores bancos de investimento do mundo, famosos por sua esperteza e agilidade em aconselhar clientes sobre como reestruturar empresas e mesmo indústrias, não importa quão complicadas, aparentemente não consigam gerir a reorganização ordeira de suas próprias atividades num prazo de mais de cinco anos", disse Volcker.

Nesta quinta-feira, o Fed anunciou que os grandes bancos terão até julho de 2017, e não mais até 2015, para vender suas participações em private equity, capital de risco e fundos de hedge cobertos pela Regra de Volcker, uma das partes mais importantes da Lei Dodd-Frank, de reforma do sistema financeiro, adotada em 2010 na esteira da crise financeira de 2008. A norma tem o objetivo de impedir que os bancos se engajem em atividades de risco, que possam ameaçar depósitos de clientes que são assegurados por garantias federais.

"Ou será que devo entender que o lobby é eterno, e que até 2017, ou depois disso, pode-se alimentar a expectativa de que a própria lei será mudada?", acrescentou Volcker.

Ao adiar o início da aplicação da Regra de Volcker, o Fed aparentemente cedeu aos argumentos dos bancos, de que eles precisam de mais tempo para desfazer posições em investimentos ilíquidos. O adiamento vai "reduzir os efeitos potencialmente perturbador que o desinvestimento significativo em fundos cobertos teria nos mercados", disse o Fed em seu comunicado.

Esta é a segunda vitória obtida por Wall Street nesta semana em seu esforço para anular as restrições impostas pela Lei Dodd-Frank. No último fim de semana, o Congresso aprovou uma lei orçamentária que remove restrições a algumas operações com swaps e outros derivativos. Fonte: Dow Jones Newswires." 

É por essas e outras que tenho uma admiração enorme por Volcker. Para quem quiseer, sugiro a leitura de um dos seus livros: "A NOVA ORDEM ECONÔMICA" escrito por ele em parceria com o ex-Banco do Japão Toyoo Gyothen. É um curso de economia monetária que eles ministravam em Princeton. Está à disposição na Estante Virtual por meros R$ 6,80.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com